Livro usa falsificação para discutir futebol como traço do caráter brasileiro

"O futebol tem muito da cultura brasileira, assim como o carnaval, e é pano de fundo para debater muita coisa", disse

por Agência Estado

Campinas, SP, 20 - Chico Buarque, Lima Barreto, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Manoel de Barros, Carlos Drummond de Andrade, Campos de Carvalho, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues e Euclides da Cunha. O escrete escalado por Guilherme Truco após o capítulo final de "Saída Bangu" resume a intenção do autor em seu segundo livro: associar literatura ao futebol para mostrar que o esporte não tem nada de alienante e possui poesia muitas vezes ignorada pelo pragmatismo da busca pelos resultados. E, para isso, se inspira em grandes nomes da literatura.

"O futebol tem muito da cultura brasileira, assim como o carnaval, e é pano de fundo para debater muita coisa. O que já foi discutido por Roberto da Matta, José Miguel Wisnik e Gilberto Freyre não pode ser algo de alienado", afirmou Trucco, em entrevista ao Estado.

No enredo de "Saída Bangu", o escritor parte de uma ideia surrealista: uma falsificadora, de nome Geni, é contratada para copiar o futebol apresentado pela seleção brasileira de 1982.

O marco é óbvio: vista como um dos maiores expoentes do futebol, aquele time, ao ser derrotado, provocou, ainda que involuntariamente, transformações no jeito de praticar o esporte no País, com o surgimento de cópias mal feitas que valorizavam o pragmatismo, ao contrário daquele time de Telê Santana, na visão do autor.

"A tese é que 82 foi um ano central para mudar a forma como o futebol passou a ser visto, como se o futebol brasileiro hoje fosse uma falsificação do que já se praticou aqui", explica Trucco, que, na sua mistura entre futebol, política e literatura, também usou a eleição presidencial de 2018 como motivação para o livro. "A falsificação veio muito do debate sobre as fake news, algo marcante nas eleições", relembra.

A partir disso, em 20 capítulos que se entrelaçam, mas também podem ser lidos em separado, como em crônicas, pois são fragmentários, a trama se desenvolve.

E o autor se divide entre cenas de ficção e momentos inusitados, mas de que fato aconteceram, envolvendo personagens do futebol brasileiro, como o erro com o nome de Garrincha quando da sua chegada ao Botafogo, confundido que foi com o cavalo Gualixo, ou para a alteração proposital das repostas de Sócrates por um tradutor em uma entrevista na Itália, no período em que defendia a Fiorentina. "São cenas surreais, embora reais", brinca.

Dessas passagens, relatadas com humor, Trucco busca construir o caráter brasileiro a partir do futebol, passando até pelo nome do livro, o improviso de dar sequência a um jogo com a saída sendo dada pelo goleiro e não do meio-campo, ou mesmo pela invenção do drible.

Para ele e seu livro, o futebol, por essa importância cultural, deveria ser encarado pelo lado lúdico, sem cópias ou falsificações que atinjam sua inventividade.

"Tem uma citação que acho ótima: 'O sujeito esvazia o futebol como se fosse um pneu'. As pessoas são muito pragmáticas quanto ao futebol, não percebem o quanto pode ser profundo", conclui.