Do amador ao profissional: Estudioso pontua diferenças nas pausas do futebol

Assim como em sua era amadora, o futebol enfrenta uma pandemia, mas viveu alterações durante os mais de 100 anos

por Federação Paulista (FPF)

Campinas, SP, 30 (AFI) - Se você acha que a paralisação do Campeonato Paulista por conta de uma pandemia é uma novidade, está enganado. Há mais de um século, o torneio mais antigo do Brasil teve de ser interrompido por conta da ‘Gripe Espanhola’, similar a Covid-19. Mas pesar da infeliz ligação por conta da doença, o esporte mais popular do mundo sofreu diversas mudanças, dentro e fora de campo, ao longo dos mais de 100 anos.

“A relação entre os dois campeonatos é muito pequena. Em 1918, o futebol era amador, não tinha uma série de compromissos com televisão e financeiro, nem rebaixamento existia, então não havia muito problema. Quando o torneio voltou em dezembro, alguns jogos nem foram realizados porque não alteravam na classificação e hoje isso é impossível, já que é um grande negócio de lazer. Na época era uma atividade puramente lúdica, sem maiores compromissos”, explicou o historiador e jornalista Celso Unzelte.

 Do amador ao profissional: Unzelte pontua diferenças na pausa do futebol
Do amador ao profissional: Unzelte pontua diferenças na pausa do futebol
Contexto
Em 1918, o Campeonato Paulista contou com a participação de 10 clubes e teve início no dia 7 de abril. Por conta da posição do Brasil, mesmo em meia à Segunda Guerra Mundial, o estadual seguiu disputado até o dia 20 de outubro, quando as partidas entre Paulistano x SC Internacional, Mackenzie x Ypiranga e Minas Gerais x AA São Bento foram canceladas por conta da presença de autoridades que impediram a realização dos jogos mesmo com ingressos já vendidos.

Já a atual edição do Campeonato Paulista conta com 16 equipes e o pontapé inicial no dia 22 de janeiro, com o embate entre Novorizontino e Oeste. Diferentemente de 1918, todos os clubes chegaram à pausa com o mesmo número de partidas e com apenas mais duas rodadas para o término da primeira fase.

Há mais de 100 anos, a APEA definiu a retomada da competição para o dia 15 de dezembro, mas somente com jogos envolvendo equipes que ainda mantinham a esperança pelo título -Paulistano, Corinthians, AA das Palmeiras e AA São Bento. A atual edição, ainda não tem uma definição em relação ao retorno oficial, mas os clubes estão autorizados a voltar aos treinamentos no dia 1º de julho.

De volta ao passado, somente no dia 19 de janeiro de 1919, o Paulistano entrou em campo diante da AA das Palmeiras e contou com quatro gols do ídolo Friedenreich, para golear o rival por 7 a 0 e alcançar o tricampeonato estadual. Ainda no mesmo, o clube da capital conquistaria o tetracampeonato, sendo até hoje, o único tetracampeão do futebol paulista.

Ídolos e relação com o torcedor
Além de se destacar com gols e títulos, Friedenreich foi o goleador máximo da edição de 1918, com 25 gols. “Na época já existia os primeiros ídolos, inclusive de origem afrodescendente como o Arthur Friedenreich, o primeiro ídolo do futebol brasileiro. Então já tinha um papel importante na época, mas o jogador de modo geral era visto como ‘vagabundo’, assim como o artista, o cantor. O pai não queria ver a sua filha se envolvendo com jogadores, diferentemente de hoje em dia, onde os atletas ganham bem, são muito ricos”, comparou Unzelte.

Na atual edição do Paulistão Sicredi, o principal artilheiro é o centroavante Ytalo, do Red Bull Bragantino, com sete bolas na rede. “Hoje existe muita mídia. O contato é mais direto, fora a televisão, o rádio e uma série de alternativas que não existiam no início do século XX, onde você assistia o jogador em campo ou não o via. Ficava no relato dos jornais. Hoje o contato é mais direto, mas com tudo isso, acredito que os ídolos atuais são mais inacessíveis”, completou o jornalista.

Vidas Negras Importam
Apesar de ser considerado o esporte mais democrático do mundo, o futebol é marcardo por episódios racistas ao longo de sua história. No início do século XX, por exemplo, somente a elite intelectual, predominantemente branca, da sociedade podia praticar a modalidade. Entre os anos 1920 e 1930, o futebol paulista chegou a contar com vários clubes formados por classes desfavorecidas, que disputaram campeonatos informais.

Mais de 100 anos depois, o racismo continua a ser um tema debatido. Após o assassinato do americano George Floyd, em 25 de maio deste ano, atletas negros de todo o mundo e dos mais variados esportes protestaram nas redes sociais. O caso mais emblemático do futebol paulista foi o jogador Tchê Tchê, do São Paulo, que chegou a ir em manifestações nas ruas da capital paulistana.

“O atleta poderia influenciar socialmente se posicionando, mas infelizmente isso não é coisa que eles vêm fazendo nos últimos tempos, pois parecem um pouco acomodados. Toda vez que falamos de atletas com posicionamento social temos que buscar Sócrates, Reinaldo, coisas de 30, 40 anos”, finalizou Celso Unzelte.

Pandemia
A Gripe Espanhola, causada pelo vírus Influenza A subtipo H1N1, tem seu primeiro registro no dia 4 de março de 1918, em Kansas-EUA e ganhou o nome após a Espanha, neutra na Primeira Guerra Mundial, noticiá-la, diferente de outros países envolvidos nos conflitos. Segundo números levantados, estima-se que cerca de 35 mil brasileiros morreram com a doença e 50 milhões no âmbito mundial no início do útlimo século.

Já a Covid-19 tem o seu primeiro registro em dezembro de 2019, em Wuhan, na China. Causada pelo vírus SARS-CoV-2, a doença já infectou cerca de 10,3 milhões de pessoas e matou 505.518 no mundo. Atualmente, o Brasil tem 1,4 milhão de infectados e 58.314 mortos, segundo números do Ministério da Saúde.

Os clubes participantes do Paulistão Sicredi iniciaram na última semana, a retomada oficial das atividades. A retomada dos treinamentos está prevista para a quarta-feira, dia 1º de julho.

Por Luiz Minici, especial para FPF