Ponte Preta enfrenta avalanche de processos e dirigentes podem pagar dívida do próprio bolso
Dois jogadores que não chegaram a estrear pedem que presidente e vice respondam pessoalmente por eventuais débitos
A crise da Ponte Preta ganhou uma dimensão que pode ultrapassar os cofres do clube e atingir o patrimônio de seus dirigentes
Campinas, SP, 02 (AFI) – A sequência de derrotas da Ponte Preta deixou de acontecer apenas dentro de campo. Afundado em uma crise financeira e esportiva, o clube enfrenta uma avalanche de processos trabalhistas e, agora, vê o patrimônio pessoal de seus principais dirigentes entrar na mira de antigos jogadores.
O goleiro Douglas Marques e o zagueiro Diogo Silva acionaram a Justiça do Trabalho depois de passarem pela Ponte sem disputar uma única partida oficial. Juntos, os dois cobram aproximadamente R$ 385 mil.
Douglas reivindica R$ 127.377,77, enquanto o valor apresentado por Diogo chega a R$ 257.689,42. As ações foram protocoladas no dia 25 de setembro.
Além do reconhecimento do vínculo e do pagamento das verbas trabalhistas, os atletas pedem que o presidente Luiz Antônio Alves Torrano e o vice-presidente Marco Antônio Eberlin também possam ser responsabilizados por eventuais débitos reconhecidos pela Justiça.
Contratados, mas impedidos de jogar
Douglas e Diogo chegaram à Ponte em julho, foram integrados ao elenco profissional e permaneceram à disposição da comissão técnica até o dia 26 de agosto.
O problema é que nenhum dos dois conseguiu ser registrado. Naquele momento, a Macaca estava impedida de inscrever atletas por causa dos transfer bans provocados por dívidas anteriores.
Segundo as ações, os jogadores participaram dos treinamentos e cumpriram a rotina determinada pelo clube, apesar de não terem aparecido oficialmente no Boletim Informativo Diário da CBF.
A defesa dos atletas sustenta que o registro esportivo não é indispensável para o reconhecimento da relação de trabalho. O argumento é que houve prestação de serviço, subordinação e expectativa de remuneração durante o período em que eles permaneceram no Majestoso.
Os valores cobrados incluem salários, FGTS, férias, 13º salário proporcional, multa rescisória e a cláusula compensatória referente ao período restante dos contratos, que teriam validade até 30 de novembro.
Dirigentes entram na mira
O ponto mais delicado dos processos está no pedido de responsabilização de Torrano e Eberlin. Os advogados dos jogadores afirmam que a situação da Ponte apresenta indícios de gestão irregular ou temerária, hipótese que pode permitir que administradores respondam pessoalmente por determinadas obrigações.
Eberlin presidiu a Ponte entre 2022 e 2025 e atualmente ocupa os cargos de vice-presidente e diretor de futebol. Torrano assumiu a presidência em dezembro do ano passado.
A inclusão dos dirigentes não significa que eles já tenham sido condenados nem que necessariamente terão de pagar as cobranças com recursos próprios. O pedido ainda será analisado pela Justiça, depois da apresentação da defesa.
Para sustentar a tentativa, as ações citam um déficit superior a R$ 33 milhões no exercício de 2025, atrasos no recolhimento de encargos, salários pendentes e paralisações realizadas pelo elenco profissional.
Também é mencionado um compromisso de controle orçamentário firmado por Eberlin em setembro de 2025, quando ele ainda comandava o clube. O documento tinha relação com o cumprimento das obrigações incluídas no Regime Centralizado de Execuções.
Um processo novo a cada cinco dias
A quantidade de ações ajuda a dimensionar a crise. Uma certidão do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região registra 210 processos contra a Ponte desde 2022.
Somente em 2026, até o dia 24 de setembro, foram contabilizadas 55 novas ações. A média é de aproximadamente uma a cada cinco dias.
O número reúne diferentes tipos de cobrança e não significa que todos os processos já tenham resultado em condenação. Ainda assim, expõe a dificuldade do clube para encerrar contratos, cumprir acordos e evitar que dívidas antigas produzam novos problemas.
A situação forma um círculo perigoso: a Ponte deixa de pagar, sofre punições, fica impedida de registrar reforços e, depois, pode ser novamente processada pelos jogadores que contratou, mas não conseguiu utilizar.
Ponte diz que ainda não foi citada
Por meio de seu departamento jurídico, a Ponte informou que ainda não havia sido formalmente citada ou intimada sobre as ações. O clube afirmou que analisará os processos e adotará as medidas necessárias para sua defesa quando tiver acesso oficial aos autos.
A tentativa de alcançar o patrimônio dos dirigentes representa uma nova frente na maior crise da história recente da Macaca. Além da campanha que pode terminar em rebaixamento na Série B, a Ponte enfrenta salários atrasados, punições, disputas políticas e um passivo que continua crescendo.
Se a tese apresentada pelos jogadores prosperar, o problema deixará de estar restrito ao CNPJ do clube e poderá chegar diretamente a quem tomou as decisões.





































































































































