Além dos 90 minutos

Mariana Melo

Entre malas e jogos: a vida ao lado de um técnico de futebol

São malas prontas, mudanças de cidade, horários que nunca combinam, filhos crescendo entre jogos e compromissos

Na prática, porém, a realidade é bem diferente. Não há glamour na rotina de quem acompanha, dentro de casa, a vida de um treinador de futebol

Futebol
Mariana Melo e Michele Sizenando

São Paulo, SP , 01 (AFI) – Quando pensamos na mulher de um técnico de futebol, é fácil imaginar estádios lotados, viagens, hotéis, premiações e aquela vida glamourosa que muitas vezes aparece nas redes sociais.

Na prática, porém, a realidade é bem diferente. Não há glamour na rotina de quem acompanha, dentro de casa, a vida de um treinador de futebol.

São malas prontas, mudanças de cidade, horários que nunca combinam, filhos crescendo entre jogos e compromissos que precisam ser encaixados como peças de um quebra-cabeça. E, ainda assim, existe paixão. Muita paixão.

ESPOSA DE ELIO SIZENANDO

Michele Leite conhece bem essa realidade. Esposa de Elio Sizenando, técnico que estará à frente do Capivariano no Paulistão de 2027, e mãe de quatro meninos, ela viu a família inteira ser atravessada pelo futebol. Os filhos cresceram acompanhando o pai e, até hoje, a agenda da família é organizada de acordo com campeonatos, treinos e compromissos profissionais.

“Lá se vão quase 30 anos.”

A frase não é dita em tom de tristeza, mas com a naturalidade de quem aprendeu que, no futebol, cada temporada traz uma nova história. E talvez uma das maiores ilusões seja justamente imaginar que todos os profissionais que trabalham no futebol vivem uma vida de luxo.

Michele conhece de perto a diferença entre o futebol que aparece nas redes sociais e aquele vivido pela maioria dos profissionais. Existe pressão, instabilidade e cobrança. Quando o time vence, o treinador pode ser chamado de gênio. Quando perde, a responsabilidade muitas vezes recai quase toda sobre ele.

Dentro de casa, porém, Michele garante que a realidade é diferente. Segundo ela, Elio consegue separar a pressão do trabalho da vida familiar.

“O Elio é muito tranquilo em casa. Não deixa a pressão de fora atrapalhar a rotina da nossa família. Sou eu que fico nervosa, ansiosa e quase nunca vejo as redes sociais para saber o que estão falando sobre ele ou sobre o time”, conta.

BASE

Michele se tornou uma espécie de base para que tudo funcione da melhor maneira possível fora de campo. Ao longo dos anos, os dois conseguiram construir uma vida dentro de uma profissão marcada por mudanças constantes.

É uma rotina feita de emoções: a comemoração de um acesso, as lágrimas depois de uma conquista, o orgulho de ver um filho seguir os passos do pai e a alegria de entrar em campo para dividir momentos especiais com a família.

“Sempre que posso, estou no estádio, e minha família também. Adoramos essa atmosfera.”

Michele ama futebol, mas também valoriza a vida que existe para além dele. Gosta de estar com as pessoas, reunir a família, sair com as amigas e viver seus próprios momentos. Afinal, ser esposa de um treinador não significa deixar de ser mulher, profissional, mãe ou abrir mão dos próprios sonhos.

Significa, muitas vezes, aprender a caminhar ao lado de alguém cuja profissão não tem hora certa para começar ou terminar.

VIDA

O futebol pode durar 90 minutos. Para quem vive dentro dele, porém, a partida continua muito depois do apito final. E é justamente nesse período, longe das câmeras, dos estádios e dos holofotes, que existe uma das histórias mais particulares do futebol: a de quem escolhe viver, amar e construir uma família em um universo que nunca para.

Não tem glamour. Tem cansaço, renúncia, adaptação e muita correria. Mas também tem paixão. E talvez seja justamente isso que faça tudo valer a pena.

Quando pergunto se ela ama futebol, Michele responde sem hesitar:

“Eu amo odiar o futebol.”