Waldir Peres: Como era bom viver em Garça
Meu pai sempre dizia que eu só queria saber de jogar bola e nada de trabalhar

Aos 16 anos, iniciei minha carreira como goleiro no Garça Futebol Clube, onde assinei meu primeiro contrato profissional. Na época, minha família pegava muito no meu pé porque eu só estudava. Meu pai queria que eu trabalhasse no comércio da cidade, mas, antes de assinar com o clube, eu usava o tempo que sobrava depois dos estudos para jogar futebol na várzea.
Meu pai sempre dizia que eu só queria saber de jogar bola e nada de trabalhar.
Como eu tinha contrato amador com o Garça e podia até servir o time profissional, me chamaram para ser o segundo goleiro da equipe, já que o jogador que ocupava este posto tinha tomado um chá de “sumiço” (comum no interior, rs) e não apareceu mais.
Então eu passei a treinar todos os dias e a pertencer ao plantel do Garça ainda jovem.
Foi então que o presidente João Bento me chamou para comparecer ao clube e, a partir dali, começou a me pagar o salário de cem cruzeiros. Foi incrível, pois o trabalho que meu pai tanto queria eu tinha conseguido dentro da minha paixão: o futebol.
Em vez de contar logo a grande novidade ao meu pai, eu fiquei quieto. Um dia depois de receber o dinheiro, ele veio pegar no meu pé de novo. Naquele momento, eu coloquei a mão no bolso, tirei os cem cruzeiros e disse: “Olha! Tá aqui meu pagamento”. “Mas você tá trabalhando onde?”, ele respondeu, surpreso. Foi então que eu expliquei a ele que estava recebendo para jogar futebol, mas que meu nome não aparecia por eu ser reserva.
Finalmente, a cobrança do meu pai tinha acabado. Com o salário que recebia do Garça, conseguia bancar minhas chuteiras, minhas luvas e os meus meiões… Além disso, o time me dava uma grande projeção com total apoio do presidente João Bento. Um dos meus primeiros incentivadores, ele falava para eu continuar com a carreira no futebol porque eu tinha futuro. E não é que ele tinha razão?

Logo, comecei a disputar o Campeonato Paulista da segunda e terceira divisão com vários jogadores que foram meus amigos: Grilo, Zé Carlos, Rogério… e muitos outros. Quando as partidas eram fora de Garça,a gente almoçava na estrada ou na cidade mesmo e saia zarpado.
Em que transporte? Nós viajávamos no dia do jogo em duas peruas Kombi. Às vezes, a viagem era de duas, três horas, e deixava a gente com dor na musculatura e com cansaço. Mesmo assim, conseguimos o título da terceira e da segunda divisão.
Havia algumas equipes famosas naquela época: São Bento de Marília, o BAC (Bauru Atlético Clube) – time no qual Pelé começou a jogar -, Ferroviária de Assis e Corinthians de Presidente Prudente. Eram clubes que tinham uma rivalidade muito grande. Lembro-me que um dos maiores rivais do Garça era o São Bento de Marília. Quando jogávamos, sempre tinha discussão, briga: era rabo de arraia para tudo que é lado…
Quando jogávamos em casa, algumas características eram fortes e acabaram marcando muito. A banda do coreto da cidade, por exemplo, tocava as marchinhas durante todo o jogo. Era uma barulheira danada!
Mas a festa maior da torcida, que era quase um grito de gol, acontecia antes do jogo. Quando as “primas” chegavam. Elas moravam no final da cidade e sempre frequentavam as partidas do Garça. Era assobio e grito em todos os cantos do estádio!
E que saudade me dá relembrar da minha cidade, de cada detalhe de Garça. Muito feliz eu fui por lá. Mas a vida seguiu, um olheiro apareceu e meu futuro mais próximo estava escrito na Ponte Preta.
No entanto, essa história fica para outra vez.
Um abraço, pessoal do Futebol Interior!
E não deixem de entrar no meu site www.waldirperes.com.br e me seguir no Twitter @waldir_peres.





































































































































