Uma antiga lenda do futebol no Brasil

Houve um tempo em que esse esporte era praticado com alegria e paixão pelos brasileiros

Houve um tempo, lá pelo século XX, em que aqui no Brasil se jogava um futebol muito alegre, e até mesmo irresponsável. As crianças aprendiam o esporte nas ruas.

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Daqui a 100 anos, quando muita coisa se tornar lenda, os nossos netos e os netos dos nossos netos ainda falarão do tempo em que o Brasil era considerado o país do futebol. Sentados em volta de uma fogueira virtual, gerada por um aplicativo gratuito, as crianças se desligarão por alguns minutos de seus tablets de última geração e perguntarão a seus avós: “vô…. é verdade mesmo que a gente já teve o melhor futebol do mundo?” E os velhinhos repetirão a mesma história muitas vezes recontadas…

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“Houve um tempo, lá pelo século XX, em que aqui no Brasil se jogava um futebol muito alegre, e até mesmo irresponsável. As crianças aprendiam o esporte nas ruas, em campinhos improvisados, nas praias. E como aquilo era uma brincadeira muito divertida, e mesmo quem não tinha dinheiro podia jogar, surgiram muitos craques… Um certo Pelé foi o maior deles…

-Mas, vô…. Pelé não é uma lenda, sobre um cara que fez mais de mil gols?

Ele existiu sim. Seu avô até viu ele jogar algumas vezes antes que ele parasse de jogar futebol. Diz que era fenomenal. E depois dele existiram outros bons craques… Um anjo chamado Garrincha (que deixava zagueiros sentados), um Ademir (chamado O Divino), um certo galinho Zico (que batia faltas magistralmente), um doutor Sócrates (que tinha um passe mágico de calcanhar), um elegante Falcão, Romário, Dener, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo… o último que se tem notícia era um menino Neymar, de quem se conta que possuía dribles desconcertantes e asas nos pés… Os deuses do futebol muito se alegravam com aquela brincadeira entre os meninos e, ano após ano, inventam um craque diferente para alegrar o país. Tudo era uma gostosa brincadeira de meninos. Tabelinhas, dribles, trivelas. E gols…. muitos gols…

Mas, conta-se que depois de perder duas Copas do Mundo (era uma competição de futebol entre os países…), nos anos de 1982 e 1986, jogando aquele futebol alegre e criativo, algumas pessoas acharam que era hora de parar com a diversão. O importante não era mais a alegria nos pés e a criatividade. O importante era vencer. E o futebol passou a ser um negócio muito lucrativo. Jogadores, técnicos, dirigentes ganhavam milhões. E ninguém queria perder os privilégios ou o emprego. Existiam grupos chamados “torcidas organizadas”, que barbarizavam nos estádios e ao redor deles, causando brigas. Esses grupos eram formados por bárbaros, que acabaram afastando as famílias dos estádios.

E daí inventaram uma coisa chamada “futebol de resultados”. Funcionava assim: todo mundo tinha que marcar. Criar não era assim tão importante. E os meninos serelepes eram caçados em campo pelos brutamontes. Defender era fundamental. E vencer por um a zero já estava bom demais.

E foi assim que o Brasil voltou a ser duas vezes campeão do mundo. A última conquista foi em 2002. Mas os deuses do futebol estavam achando aquele jeitão de jogar futebol muito aborrecido. Não havia mais alegria. Então, aos poucos, foram deixando de modelar novos meninos-moleques-bons-de-bola. Até porque os técnicos gostavam mesmo era de volantes, de jogadores voluntariosos, com muita força física para correr muito, desarmar muito. Ficou conhecida na história como a geração Dunga. No mesmo tempo de Neymar, conhecido como “O Último”, havia um certo Hulk, muito elogiado pelos técnicos. Mas ele foi um fiasco na Copa. E, contam que havia um menino chamado Ganso, craque, mas que não marcava muito, então nem foi convocado. Foi a época em que os zagueiros e volantes viraram ídolos.Foi muito triste.

Os técnicos brasileiros ainda achavam que juntando um monte de bons jogadores podiam formar um time competitivo. Mas eram apenas bons jogadores. Enquanto isso, os adversários aprenderam a montar times bem treinados, também com bons jogadores, mas com novos sistemas de jogo mais modernos. Os deuses do futebol haviam se mudado para outros cantos, ensinado novos truques. E o Brasil continuava sonhando que tinha o melhor futebol do mundo.

Ninguém nunca mais vai se esquecer daquela derrota para a Alemanha, por 7 a 1, na Copa que realizaram dentro do Brasil, no começo do século XXI. Todo mundo queria encontrar alguma explicação. Mal sabiam que era apenas o final de uma era, um ciclo. Muita gente ficou triste na época. Mas logo esqueceram o vexame. O jeito bonito de jogar futebol foi esquecido para sempre. Neymar, “O Último”, ainda brilhou por algum tempo em campos estrangeiros. Mas também virou apenas história. E o futebol no Brasil virou uma bela lenda contada pelos nossos avós.”

– Puxa vovô… Você podia nos ensinar a jogar o tal futebol?

Talvez… vamos ver amanhã, porque já é tarde…

– Vovô… A gente baixa um aplicativo…

Acho que seria mais divertido se tivéssemos uma bola de verdade… Agora… Desliguem o computador central com a fogueira, coloquem os protetores noturnos de dentes, confiram seus tubos de oxigênio e regulem o aplicativo de sono pessoal para as 8 da manhã…E… Boa noite…

– Vovô?!

Sim ?

– O que é uma bola???