Sérgio Carvalho: Farah amava o futebol e começou a morrer quando saiu dele
Nunca os clubes do Interior tiverem tanta estrutura como com Farah: arbitragem, nenhuma taxa e ajuda de custo
São Paulo, SP, 17 (AFI) – Eduardo José Farah era um homem de personalidade forte e inteligência privilegiada. Era advogado mas não exercia a profissão. Preferia a área de negócios onde sempre ganhou bom dinheiro. Quando se aproximou do futebol, na época em que morava em Campinas, pegou logo gosto pela coisa e passou a sonhar alto. Volta e meia visitava a Federação Paulista de Futebol onde passou a ser bastante conhecido e a fazer amigos.

Quando José Maria Marin, atual presidente da CBF deixou o Governo de São Paulo e assumiu a presidência da entidade, Farah entrou no grupo dele. Como Marin não quis tentar reeleição, resolveu apoiar a candidatura de Farah que ganhou com sobras. A partir dali passou a determinar os novos rumos do futebol paulista. Como era um empresário ousado, pensou logo em negociar a velha sede da FPF na Brigadeiro Luis Antônio e construiu uma nova próximo ao novo Forum da Justiça do Trabalho, na capital.
O edificio onde ele instalou a FPF foi escolhido à dedo. Dava direitinho para acomodar todo o staff de Farah e ainda sobrava espaço para possiveis visitantes, imprensa especializada, dirigentes de clubes paulistas e de outras partes do Brasil.
TV GLOBO PAGOU CARO!
Farah dirigia com mão de ferro. Nada escapava a sua atenção. Fazia questão de conferir até escalas de árbitros. Quando percebeu que o futebol do interior poderia unir-se contra ele como já o fizeram na época de José Ferreira Pinto (ex-presidente do Juventus), ele apressou-se em mudar o estatuto da Federação e valorizou os grandes. Quem tivesse mais titulos, mais conquistas, seu voto valia mais. Assim seria impossivel que qualquer clube do interior lançasse um candidato contra ele e sua permanência no cargo estava garantida. Aos grandes ele sempre dava atenção.
Farah com Alberto Dualib, ex-presidente do CorinthiansAté emprestava dinheiro da Federação quando eles precisavam. Cobrava juros, mas emprestava. Era uma forma de mantê-los sempre como aliados e não tivessem vontade de procurar outros caminhos. Durante a gestão Farah até a TV Globo sofreu. Ela nunca pagou tanto pelo Campeonato Paulista como na época de Farah. Com o dinheiro ele dava excelentes cotas para os grandes e até para os clubes do interior que jamais ganharam tanto quanto na época deste presidente.
Farah gostava de fazer encontros com empresários, amigos e gente do esporte na Federação. Por isso criou toda uma estrutura que funcionava diariamente como restaurante. Mas só participava desses encontros quem era seu amigo ou tinha alguma coisa para propor à Federação. Ali, nos almoços, Farah se soltava. Ria, brincava com os convidados, contava piadas. Como presidente, procurava sempre se vestir bem e exigia o mesmo de seus comandados.
PRÉDIO IMPECÁVEL
A Federação estava sempre limpa, cheirosa e muito bem equipada com móveis, quadros e outros apetrechos. Farah tinha muito bom gosto. E era um gentleman no tratamento com
Sede da FPF com heliportoparceiros e convidados. Com os funcionários, no entanto, era linha dura. Mas nos momentos especiais (um aniversário ou uma festa de final de ano) ele fazia questão de premiá-los a todos. Assim amenizava de alguma forma a mágoa que alguns deles poderiam ter com ele. Com essa postura, fazia com que a Federação funcionasse como verdadeiro relógio suiço.
Nesta época, o Paulistão não era deficitário como é hoje. Paralelamente, Farah criou uma biblioteca esportiva para a Federação e um arquivo próprio onde qualquer pessoa poderia encontrar dados sobre cada jogo promovido pela entidade desde sua fundação. Alias, foi na gestão Farah que a FPF completou cem anos e ele soube aproveitar-se disso para marcar aquele ano com muita festa e mais dinheiro para os clubes. Também criou um departamento de comunicação onde tinha um grupo de assessores especializados e lançou uma revista mensal que mostrava tudo o que se passava no futebol paulista dentro e fora da Federação.
Outro fato que marcou a administração Farah foi a criação de uma festa dedicada aos Melhores do Campeonato. Elas sempre foram realizadas em casas de espetáculos conhecidas em São Paulo e apresentavam sempre um idolo da música popular brasileira como encerramento. Para incrementar ainda mais essas festas, Farah criou a seleção dos
Zagallo homenageado por FarahMelhores de Todos os Tempos do Paulistão.
Era emocionante rever lá no palco grandes nomes de campeões paulistas do passado como Gilmar, Djalma Santos, Carlos Alberto Torres, Ademir da Guia, Dudu, Bellini e outros. Algo que caiu no esquecimento dos atuais diretores, mas que deveria voltar a ser promovido. Mas chegou um momento em que Farah se cansou de administrar só uma entidade estadual. Ele queria mais. Sabia que tinha o que oferecer ao futebol brasileiro.
Tentou aproximar-se de Ricardo Teixeira mas não conseguiu, pois o então presidente da CBF não queria deixar crescer nas federações filiadas um nome que pudesse fazer-lhe frente. Talvez se tivesse um pouco mais de paciencia, Farah tivesse atingido seu objetivo de comandar a CBF, mesmo porque, não demorou muito e Ricardo Teixeira, massacrado pela imprensa especializada acabou caindo e mudando-se para os Estados Unidos.
VENCIDO PELA SAÚDE
Acontece que Farah estava cansado, talvez já com alguns sintomas da doença que aos poucos foram minando suas energias. Foi quando tomou uma decisão que poucos esperavam: convocou uma Assembleia Extraordinária com presença dos presidentes dos clubes filiados e
Família Farah: Dona Josefina, Jorge e Eduardinhoapresentou sua carta de renúncia. Pensou em continuar no prédio, na mesma sala de onde dirigia a Federação, mas acabou cedendo as pressões e deixou a entidade definitivamente para nunca mais voltar.
Passou a viver com sua famÍlia, ficou distante do futebol que um dia tomou boa parte de seu tempo e recolheu-se à sua casa. A doença foi tomando conta de seu organismo até que ele ficou praticamente incomunicável. Daquele jeito, até seus familiares acharam que não valia mais a pena viver. Ninguém sabe qual teria sido seu futuro se ele tivesse continuado no futebol.
Motivado e apoiado em sua ousadia e suas idéias, ele certamente transformaria o futebol brasileiro e o elevaria a condições de um dos melhores do mundo dentro e fora de campo. Mas não foi possivel. A chance de chegar a CBF passou e a possibilidade dele realizar seus planos no comando daquela entidade desapareceram. Ainda assim deixou uma marca. A marca da gestão de Eduardo José Farah um dos melhores (senão o melhor) presidente da Federação Paulista de Futebol em todos os tempos. Queiram ou não seus inimigos de plantão.





































































































































