Segundona: XV de Jaú reencontra Jabaquara, adversário do primeiro acesso à elite, em 1951

Sob a presidência de Zezinho Magalhães, Galo da Comarca formou time competitivo sob comando do técnico argentino Armando Renganeschi

Em 1951, o XV de Jaú se tornou o quarto time da história a conquistar o acesso ao Paulistão. Antes, XV de Piracicaba (1948), Guarani (1949) e Radium de Mococa (1950).

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Jaú, SP, 18 (AFI) – A Lei do Acesso do campeonato paulista foi criada em 1948. Em 1951, o XV de Jaú se tornou o quarto time da história a conquistar o acesso. Antes, XV de Piracicaba (1948), Guarani (1949) e Radium de Mococa (1950). Sob a presidência de José Magalhães de Almeida Prado, mais conhecido como Zezinho Magalhães (homenageado com o nome do atual estádio quinzeano), o Galo da Comarca formou um time competitivo sob o comando do técnico argentino Armando Renganeschi. No elenco jauense constavam jogadores como os goleiros Lourenço e Inocêncio, o zagueiro argentino Grita, os meio campistas Dino Sani e Américo Murollo, o ponta Guanxuma, entre outros.

Após uma primeira fase sem sustos, com 15 vitórias em 20 jogos, o XV de Jaú se classificou para a segunda fase, em grupo composto por São Bento (Marília), Botafogo (Ribeirão Preto) e o Sanjoanense (São João da Boa Vista). Com 4 vitórias em 6 jogos, o XV de Jaú garantiu presença na final do campeonato. O adversário da vez seria o Linense.

Os campeões (Foto: Acervo XV de Jaú)
Os campeões (Foto: Acervo XV de Jaú)

DECISÃO CONTRA O LINENSE
Seguindo o regulamento, a final aconteceu em campo neutro. Inicialmente, a decisão aconteceria no Estádio do Juventus, em São Paulo. Mas ela aconteceu no Pacaembu.

O Linense havia vencido 5 dos 6 jogos de seu grupo na segunda fase, e vinha empolgado. Mas o XV e toda a cidade de Jaú estavam eufóricos com a fase do time. A paixão pelo Galo da Comarca contagiou toda a cidade. No sábado antecedente à decisão, foi decretado feriado na cidade para que os comerciantes pudessem acompanhar o jogo na capital.

Na ensolarada manhã do dia 27 de janeiro de 1952, às 9 horas, XV de Jaú e Linense se enfrentaram. Antes, uma peregrinação jauense tomou conta da capital paulista. Milhares de torcedores jauenses lotaram ônibus, estradas e trens que iam a São Paulo. Lotaram o Pacaembu, o “Gigante de cimento armado”.

Antes do jogo, o capitão quinzeano Grita disse que sentia algo no peito, um sensação de que o XV de Jaú venceria. E não deu outra: XV de Jaú 4 a 2 no Linense. XV de Jaú campeão do interior. A cidade entrou em êxtase, mas ainda teria mais um obstáculo pela frente.

   Acervo jornal
Acervo jornal “Comércio do Jahu”, 29 de janeiro de 1952

A JABAQUARADA
Mesmo com o título de campeão do interior, o acesso para a elite do futebol ainda não estava garantido para o Galo da Comarca. Isso aconteceu por causa de uma manobra da Federação Paulista em favor do Jabaquara.

O Jabaquara, também conhecido como “Jabuca” ou “Leão da Macuco”, terminou na lanterninha da primeira divisão paulista. Sendo assim, a Federação Paulista criou uma série de três jogos entre XV de Jaú e Jabaquara. O vencedor garantia presença na primeira divisão de 1952.

O primeiro jogo da série “melhor de três” aconteceu na cidade de Jaú. A cidade se envolveu novamente. A “Tipografia Martins” distribuiu pela cidade cadernos com o emblema do Galo da Comarca. Na capa do caderno, havia a inscrição “EU SOU”, seguida do escudo do XV. Também foi criado um hino para o XV de Jaú, gravado pelo Orfeão do Grêmio Paulista. A música foi composta pelo maestro Heitor Azzi, e a letra escrita por Tolentino Miraglia.

Mas o que se viu nesse jogo foi um desfile do campeão do interior. Logo aos 15 minutos, Américo Murollo abriu a contagem no Arthur Simões. Logo em seguida, Gino ampliou aos 17. Aos 24, Itamar fez o terceiro, e Américo marcou novamente antes do final do primeiro tempo. Na etapa final, logo no primeiro minuto de jogo, Américo fez mais um e fechou o placar: 5 a 0 para o XV.

A série de melhor de três despertou o interesse de todo o estado de São Paulo. Os duelos entre XV de Jaú e Jabaquara passou a ser acompanhado com entusiasmo. Caso o XV vencesse, o principal jornal esportivo da época, “Gazeta Esportiva”, viria até Jaú fazer reportagens.
Havia a esperança de que o Galo vencesse novamente, garantindo o acesso e tornando desnecessária a disputa da terceira partida. Porém, não foi o que aconteceu.

Jogando em casa, o Jabaquara teve algumas modificações no seu time, principalmente no ataque. O goleiro também foi substituído. Já o XV jogou com o mesmo time da vitória no primeiro jogo. Os donos da casa venceram por 2×0, gols de Barbui aos 40 minutos do primeiro tempo, e Alemão aos 22 da etapa final. O jogo ainda teve confusão dentro de campo, e provações da torcida.

Gol do Jabaquara na cidade de Santos (Foto: Acervo XV de Jaú)
Gol do Jabaquara na cidade de Santos (Foto: Acervo XV de Jaú)

JOGO DECISIVO
Com uma vitória para cada lado, era necessária uma terceira partida, em campo neutro. O Jabaquara sugeriu que o jogo fosse realizado na Vila Belmiro. O presidente do XV de Jaú respondeu sugerindo que o jogo fosse realizado em Araraquara, no estádio da Ferroviária. A Federação Paulista designou os cinco melhores estádios do estado (Moisés Lucarelli, em Campinas; Pacaembu, Parque Antártica, Parque São Jorge e Rua Javari, em São Paulo) para um sorteio. O escolhido foi Moisés Lucarelli, estádio da Ponte Preta em Campinas.

Novamente a cidade demonstrou sua paixão pelo XV de Jaú. Passagens de trem foram fretadas para a população, patrões determinaram feriado para que os trabalhadores pudessem viajar até Campinas, pedaços de panos foram ofertados aos torcedores para fazer bandeiras.

Na tarde de 16 de janeiro, milhares de jauenses foram até Campinas para apoiar o XV de Jaú.
Logo no início do segundo tempo, aos 6 minutos, um escanteio a favor do time do XV de Jaú. O ponta-esquerda Itamar bateu à meia-altura. A bola encontrou-se com a cabeça do ponta-de-lança Américo Murollo. Foi ao encontro da cabeça do ponta-direita Guanxuma. Da cabeça de Guanxuma para o gol. Era o vigésimo terceiro gol do artilheiro da equipe naquele ano. Guanxuma também foi convocado para Seleção Paulista de Futebol naquele ano, em excursão ao exterior.

Os jogadores do Jabaquara cercaram o árbitro do jogo, Dante Rossi. Reclamavam que o escanteio que originara o gol não tinha existido. As reclamações eram tantas que não permitiam o reinício do jogo. Tão acintosas que provocaram as expulsões de três jogadores: Barbui, Alemão e Olegário. Com apenas 8 jogadores, o Jabaquara não prosseguiu no jogo. Abandonou o campo alegando que o gol saíra de um escanteio inexistente, e o XV de Jaú foi declarado vencedor da partida.

 Gol de Guanxuma no estádio Moisés Lucarelli (Foto: Acervo XV de Jaú)
Gol de Guanxuma no estádio Moisés Lucarelli (Foto: Acervo XV de Jaú)

NASCE O JABUQUISMO
Esse jogo também marcou o surgimento de um termo que passou a ser utilizado na política jauense: o “JABUQUISMO”. Ele foi utilizado quando Zezinho Magalhães (o então presidente do XV de Jaú) iria assumir o cargo de prefeito de Jaú. No dia 6 de março de 1952, aconteceria a posse do novo prefeito na Câmara. Porém, os partidos de oposição não apareceram, deixando a sessão sem quórum necessário para oficializar a posse do prefeito. Neste momento, alguém gritou: “Parecem os Jabucas”, em alusão aos jogadores do Jabaquara que abandonaram a partida. Nasce o Jabuquismo.