Raimundinho, o melhor goleiro que vi jogar

Raimundinho, o melhor goleiro que vi jogar

Raimundo era um goleiro diferenciado. Sua baixa estatura não o recomendava, porém, sua elasticidade, coragem para saltar aos pés do atacante e prescisão nas saídas, faziam dele o melhor goleiro do interior de São Paulo. E olha que nos anos 60 só haviam feras como goleiros: Gilmar, no Santos; Poy, no São Paulo; Cabeção, no Corinthians; Valdir, no Palmeiras; Leão, no Comercial de Ribeirão Preto; Dimas, no Botafogo; Claudinei, no XV; Glauco, na Prudentina; Rosan, na Ferroviária; O argentino Lugano, do América de Rio Preto, além de outros grandes nomes.

Foi a década dos goleiros. O Raimundo, em meio a tantos nomes famosos, foi o primeiro goleiro do interior do Brasil a ser convocado para uma seleção olimpica e, naquela época não eram patrocinadores e tão pouco politicagem que influenciavam na convocação.

Eram convocados realmente os melhores. Hoje, tem até técnico que dispensa o melhor levantador do mundo para levar o filho. Teve aquele que não queria levar o Pelé, na Copa de 70 (Pelé é cego!!!), o que fez o Presidente Garrastazú Médici intervir e mandar dispensar a figura. (Eta época boa. A gente tinha Presidente que mandava). Hoje, eis ai o Rogério Ceni, o melhor do mundo, que nem convocado é. Vamos deixar tudo isso de lado e vamos falar do Raimundo.

Num jogo Taquaritinga e Votuporanguense o único resultado que interessava para o time mandante era a vitória. Já a Votuporanguense se classificaria com o empate. O juiz, Sr. Albino Zanferrari, era um homem de baixa estatura, bastante troncudo e muitíssimo honesto. O estádio parecia uma caldeira fervente. O torcida só faltava pular dentro do campo.

O policiamento era muito pequeno e, num determinado momento do segundo tempo, Albino Zanferrari marca um penalti contra a Votuporanguense. Antes da cobrança, correu para o representante e disse-lhe algumas coisa ao seu ouvido. Voltando para a autorizar a cobrança, Raimundo reclamava em altos brados. Aliás, o time todo de Votuporanga reclamava contra a marcação. Depois de minutos de paralisação, o penalti é cobrado e Raimundo, como um gato, defende.

Albino Zanferrari manda voltar a cobrança. Raimundo vai aos prantos. Fala do dinheiro que está perdendo sem poder. Do filho que precisa de remédios, enfim, prevalece a vontade do árbitro que, muito bravo, díz ao Raimundo: “volte para o gol que eu sei o que estou fazendo”. Nova cobrança, nova defesa. Na terceira não teve jeito. Gol do Taquaritinga.

Logo depois, com o jogo encerrado, a torcida só faltou desfilar, em carro aberto, com o juíz. Na segunda feira, na Federação Paulista de
Futebol, o relatório. “A partir dos 35 minutos, avisei ao representante, que dali prá frente o jogo estava sendo considerado amistoso por
questões de segurança e de sobrevivência de todos os integrantes da arbitragem e da F.P.F. A Votuporanguense ganhou os pontos e classificou-se.

Uma outra boa passagem com o Raimundinho foi em Campinas. A Ponte Preta precisava vencer o jogo para, no domingo seguinte, disputar o título com a Portuguêsa Santista. Nesse jogo, logo no início, Albano, extraordinário meio campo que a Votuporanguense havia comprado fo Guarani, do meio de campo chuta e o goleiro pontepretano aceita. Um a zero para a Votuporanguense. A torcida da Ponte vai a loucura. Raimundo defendendo tudo. Quando ele não defendia, a bola batia nele e saia.

Dizem até hoje, em Votuporanga, que até o juiz, nos escanteios, pulava de cabeça para ajudar a Ponte marcar o gol salvador. O Raimundo, até hoje jura que uma pessoa atrás do gol lhe mostrou um revolver para intimidá-lo. Enfim, o gol salvador da Ponte saiu aos 58 minutos, isso mesmo, 58 minutos do segundo tempo, quando rapidamente o juiz terminou a partida. No domingo seguinte a Macaca perdeu para a Portuguesa Santista por um a zero, gol de Samarone,que subiu para a Divisão Especial.

Nesta época a que me refiro, os goleiros treinavam saída de gol em cruzamentos e cobranças de escanteios, eram obrigados a segurar a bola, encaixando-a, treinavam exaustivamente defesa com os pés, posicionamento, como fechar ângulo, rapidez na soltura de bola que, muitas vezes, proporcionavam excelentes contra-ataques, além de aprender formar uma barreira e, somente em último recurso podiam “espalmar” a bola por sobre o travessão. Hoje, a melhor posição no futebol é a de goleiro: basta socar a bola para qualquer lado e pronto, já é um bom goleiro. Hoje, com este comentário sobre o Raimundo, quero cumprimentar todos os goleiros que fizeram história.