Prazer jamais esquecido

No final de semana que passou fui dar umas voltas pelo nosso interiorzão paulista. Arrumei tudo direitinho e, pela primeira vez esqueci de levar meus cds preferidos. Pra falara a verdade, foi bom. Eu precisava saber como andam as emissoras e suas programações. Que sofrimento… Mudei de estação umas trezentas vezes e em todas elas só o tal de SERTANÔJO. De vez em quando encontrava uma outra que tocava a verdadeira música caipira e de outros gêneros, mas, logo o som sumia e o calvário de procurar uma outra continuava. Todas as rádios são exatamente iguais. Você só sabe a emissora que está ouvindo quando ela dá o prefixo. Outra coisa, nenhuma diz o nome da cidade. Até parece que elas têm vergonha de se mostrarem. Pensei em ligar para o Edson Cury, em Ribeirão Preto, e pedir socorro. Não liguei. Não ia adiantar. A Rádio dele só “toca a notícia”. Aliás, a CBN é uma das poucas rádios que, tirando o “carioquísmo forçado”, é ótima de se ouvir.

Durante a noite, louco para ouvir música orquestrada ( é uma delícia ouvir Ray Conniff, Billy Vaughan, Osmar Milani, Tabajara, Roger Willians, de madrugada). Porém, todas as rádios e seus locutores só dando uma oportunidade aos ouvintes: SERTANÔJO. Bem, para falar a verdade, para não ficar louco e não estragar o passeio, parei num restaurante e comprei Tião Carreiro e Pardinho, Pedro Bento e Zé da Estada, Roberto Carlos e Irmãs Galvão, que a Elis Regina considerava o melhor vocal do Brasil. “Ainda vou fazer um Lp. tendo o vocal das Irmãs Galvão a me ajudar”, disse Elis uma ocasião na televisão. A noite ficou mais suave e eu menos estressado.

Foi ai que, parafraseando a Oneide Rivoiro, “me senti sugado pelo passado, atravessei o túnel do tempo e caí nos anos 60”, época em que as rádios e seus integrantes lutavam para fazer o melhor e mais diferenciado rádio. As vezes fazíamos o impossível para levar aos ouvintes a melhor informação, a melhor música, e as melhores transmissões, fossem elas esportivas, de funeral ou de procissão de Corpus Cristhis. Não acredita ? Pois é, nós transmitíamos procissão, sim. Uma vez quase fui expulso da Rádio Cultura de Campinas por ter proposto ao Comendador Abel Pedroso, dona da rádio, a transmissão de uma procissão. Sobre este caso conto mais pra frente. Hoje vou contar um caso bastante interessante.

O Bragantino em certa ocasião foi jogar contra a Votuporanguense, no Estádio Plínio Marin. Houve uma pancadaria terrível antes, no intervalo e depois, no encerramento. Só sei que o pessoal de Bragança, diretores, médico, massagista, enfim, até o motorista do ônibus apanharam. Pior, apanhava por qualquer motivo. Lembro-me do Roberto Bianquini, um italiano, que de tão forte, carregava um motor de trator sozinho. Havia o Mulata, irmão do Marico e Padeiro Louco. O Mulata era lutador de luta livre, sozinho dava conta de dez. O Fumaça, lutador de box, enfim, sem falar de uma infinidade de outros valentões, a Votuporanguense tinha uma retaguarda de respeito. Um dos elementos de Bragança, depois de levar alguns safanões, saiu correndo para se defender e deu-se de frente com Roberto Bianquini. Não preciso contar o que aconteceu com ele, não é ?

Tinha o jogo de volta. Nesse dia, como em outros jogos, nenhum dos valentões acompanharam a Votuporanguense até Bragança Paulista que estava em pé de guerra para dar o troco. Nós da Rádio Clube tínhamos que ir para transmitir o jogo. Como ? De que forma ? Vamos ser trucidados se aparecermos por lá. Foi ai que surgiu a idéia brilhante do Oliveira Prates, gerente da rádio. “Vocês vão para São Paulo. Na Rádio Bandeirantes peçam a linha de Ondas Curtas emprestada e pronto”. Será tão fácil assim ? “Liga não. O Oliveira ta ficando maluco e nem a família ainda está sabendo”, confidenciou-me Luiz Rivoiro. Em todo caso fomos para São Paulo, no noturno, e lá chegando, fomos direto para a Bandeirantes, que ainda funcionava na Rua Paula Souza, na zona cerealista da capital.

Aflitos, imaginando a chegada, o pedido, a resposta… entramos e fomos caminhando. Não havia ninguém na portaria ou quem quer que fosse para nos dar informações. De repente… na nossa frente… quem ? … quem ?….

Luiz Aguiar, ele mesmo, o homem da equipe esportiva de Pedro Luiz e apresentador do programa mais famoso voltado para a juventude: “Os Brotos Comandam”. Sem nenhum exagero, quase me ajoelhei diante do grande astro que era também cantor da jovem guarda. O Luiz, natural de Barretos (foi ele que inventou o grito “seguuura peão”, logo depois incorporado pelo melhor e verdadeiramente único locutor de rodeios, Zé do Prato), nos recebeu com a fidalguia própria dos grandes homens.

Com muita atenção Luiz Aguiar ouviu nossa história e o pedido de ajuda. “É questão de vida ou morte essa transmissão”, explicou-lhe Luiz Rivoiro. O Aguiar, que é primo da Nalva, uma das melhores cantoras do Brasil, pediu que aguardássemos ali mesmo no estúdio onde ele estava se preparando para o programa “Os Brotos Comandam”. Algum tempo depois voltou com um largo sorriso de vitória: “Meus amigos, transmissão garantida. Melhor, para que nada de mal aconteça com vocês a Bandeirantes vai levá-los até lá e vai fornecer todos os equipamentos necessários. Vai ser uma transmissão nossa só que com vocês no comando”. Imagina. Eu, um garoto de uns 17 anos, que ainda nem o mar havia conhecido, irradiando um jogo pela Bandeirantes ? Num momento pedi ao Rivoiro para me beliscar. Não. Não era sonho…

Em Bragança ao invés de hostilidades, aplausos e glorias. É que a Bandeirantes, até hoje, onde chega, é recebida com festas. Nossa transmissão foi um sucesso. Transmitimos pelas ondas curtas de 49 metros e lá em Votuporanga o Oliveira nos colocou no “ar”, entrando em cadeia. Só tivemos dois pequenos problemas: num determinado momento, na maior ênfase, eu disse… Rádio Bandeirantes de São Paulo… Rádio Cluuube de Votuporanga. Pronto, a torcida na frente da cabine, inteira, levantou-se e me deu a maior e mais sonora vaia, sem contar alguns que já queriam partir para a agressão. O outro: nossos patrocinadores não pagaram pela transmissão porque a publicidade deles não foi feita. Por que ? .. Ah… se os braqantinos descobrissem que estavam aplaudindo gente de Votuporanga…