Ponte Preta x Guarani: acumulam R$ 640 milhões em dívidas e apostam bilhões para mudar de vida

Macaca e Bugre têm passivos estimados em cerca de R$ 320 milhões cada e discutem SAFs que, somadas, passam de R$ 2 bilhões

Os rivais devem se encontrar na Série C do Campeonato Brasileiro do próximo ano

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Campinas, SP, 18 (AFI) – Ponte Preta e Guarani atravessam momentos distintos dentro de campo, mas basta atravessar Campinas para encontrar um problema praticamente do mesmo tamanho nos cofres dos dois maiores clubes da cidade. Cerca de R$ 320 milhões.

Esse é o valor aproximado da dívida atribuída tanto à Ponte quanto ao Guarani nos documentos financeiros mais recentes disponíveis. Somados, os passivos chegam à casa dos R$ 640 milhões. A coincidência termina praticamente aí.

Enquanto a Ponte enfrenta um desequilíbrio operacional profundo, com despesas mensais muito superiores à arrecadação, o Guarani conseguiu fechar 2025 no azul, beneficiado principalmente por receitas extraordinárias com negociações de jogadores.

Dentro de campo, os dois também vivem um momento delicado. O Guarani já encerrou 2026 depois de terminar a primeira fase da Série C na décima posição e ficará novamente na terceira divisão em 2027. A Ponte é lanterna da Série B, com dez pontos, e está muito próxima de também disputar a Série C na próxima temporada, embora o rebaixamento ainda não esteja matematicamente confirmado.

No momento de maior fragilidade recente dos dois rivais, surge uma coincidência ainda maior: ambos apostam na transformação do futebol em SAF para tentar reconstruir o futuro. E as duas propostas, juntas, superam R$ 2 bilhões.

R$ 320 milhões de cada lado

Uma auditoria utilizada na modelagem da SAF da Ponte estimou a dívida alvinegra em aproximadamente R$ 320 milhões. O valor sequer considera cerca de R$ 20 milhões relacionados ao IPTU. Entre 25% e 30% do passivo apontado no relatório têm natureza tributária.

O Guarani apresenta um número semelhante. O balanço de 2025 colocou o passivo total bugrino também na casa dos R$ 320 milhões. A diferença é que o clube está em recuperação judicial e afirma que os acordos e pagamentos realizados dentro do processo permitiram estabilizar a dívida. O número bruto, portanto, é parecido. A capacidade recente de gerar receita, não.

R$ 23,5 milhões contra R$ 64,8 milhões

Em 2025, a Ponte registrou receita de aproximadamente R$ 23,5 milhões. Terminou o exercício com déficit de R$ 33 milhões. Isso significa que o prejuízo registrado no ano foi superior a toda a receita anual do clube.

As dívidas cresceram aproximadamente R$ 21 milhões naquele exercício, com parte importante do aumento relacionada a salários e encargos atrasados. Do outro lado da avenida, o Guarani arrecadou R$ 64,8 milhões e registrou despesas gerais de aproximadamente R$ 56,7 milhões. Resultado: superávit de cerca de R$ 8 milhões.

A diferença entre os rivais é expressiva. A receita bugrina de 2025 foi aproximadamente 2,8 vezes a registrada pela Ponte. Mas existe uma ressalva fundamental.

O desempenho financeiro do Guarani foi fortemente impulsionado por negociações de atletas. O clube registrou R$ 42,1 milhões em receitas com transferências, incluindo ao menos R$ 26 milhões relacionados à venda de Richard Ríos pelo Palmeiras ao Benfica. Sem essa entrada extraordinária, a fotografia seria consideravelmente diferente.

Ponte gasta mais de três vezes o que arrecada mensalmente

A situação operacional da Ponte aparece de maneira ainda mais clara na auditoria realizada para a SAF. O custo mensal foi calculado em aproximadamente R$ 4 milhões. A receita recorrente, por outro lado, gira em torno de R$ 1,2 milhão por mês.

A diferença é de aproximadamente R$ 2,8 milhões todos os meses, o equivalente a um déficit anualizado de R$ 33,6 milhões. Em outras palavras, para cada R$ 1 que entra mensalmente na operação descrita pela auditoria, a Ponte gasta aproximadamente R$ 3,33.

É uma conta que ajuda a explicar problemas que ultrapassaram as planilhas em 2026. Atrasos salariais, greve de jogadores, transfer bans e a saída de atletas fizeram parte da temporada. Em determinado momento, a Macaca precisou recorrer de maneira emergencial às categorias de base para conseguir disputar partidas. A crise financeira virou crise esportiva.

Guarani tem mais receita, mas dívida continua enorme

O balanço positivo do Guarani não significa que o problema financeiro esteja resolvido. Os R$ 320 milhões de passivo continuam sendo uma barreira relevante. Além disso, parte importante da dívida está relacionada ao Fisco.

Em 2025, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional apontou dívida fiscal de R$ 215,2 milhões. O clube passou a negociar uma transação tributária que poderia aplicar descontos e alongar o pagamento do passivo federal.

Para 2026, o orçamento bugrino previa R$ 47,5 milhões em receitas e reservava R$ 5,4 milhões especificamente para compromissos da recuperação judicial. O cenário é, portanto, diferente daquele da Ponte, mas está longe de significar tranquilidade financeira.

Duas SAFs e mais de R$ 2 bilhões na mesa

É justamente nesse cenário que Ponte e Guarani chegaram praticamente ao mesmo caminho para tentar reorganizar o futuro. A Ponte discute uma proposta de SAF estimada em R$ 1 bilhão.

O modelo prevê:

R$ 300 milhões para pagamento de dívidas;
R$ 300 milhões para futebol profissional e categorias de base ao longo de dez anos;
R$ 400 milhões para modernização do Moisés Lucarelli e do CT.

Também existe previsão de aporte inicial de R$ 10 milhões, condicionado ao cumprimento das exigências estabelecidas no negócio.

No Guarani, o valor é ainda maior. A proposta apresentada pelo empresário Roberto Graziano chega a R$ 1,075 bilhão. A estrutura atualmente discutida prevê:

R$ 400 milhões para operação da SAF e clube social;
R$ 300 milhões para construção de um novo estádio;
R$ 25 milhões para um novo CT;
até R$ 350 milhões relacionados ao passivo da recuperação judicial.

O modelo prevê que o grupo investidor fique com 90% da SAF, enquanto o Guarani permaneceria com 10%.

Somadas, portanto, as propostas apresentadas aos dois rivais alcançam R$ 2,075 bilhões.

Até os estádios mostram caminhos diferentes

Há outra diferença importante nos projetos. O Moisés Lucarelli continuará pertencendo à associação da Ponte mesmo se o atual modelo de SAF avançar.

A proposta prevê a cessão do estádio à empresa por comodato durante 30 anos, prorrogáveis por mais 30. O plano inclui a transformação do Majestoso em uma arena multiuso para aproximadamente 21 mil pessoas, dentro do pacote de R$ 400 milhões destinado ao patrimônio e ao CT.

No Guarani, a discussão aponta para outra direção. O projeto prevê R$ 300 milhões para uma nova arena, enquanto o futuro do atual terreno do Brinco de Ouro está relacionado a um negócio imobiliário que antecede a própria SAF.

Esse ponto, inclusive, provocou questionamentos entre conselheiros, porque parte das obrigações referentes à nova arena e ao CT remonta à compra judicial do Brinco pelo Grupo Magnum em 2015. De um lado, portanto, existe um projeto para reconstruir e modernizar a casa histórica. Do outro, a possibilidade de mudar de endereço.

Dentro de campo, caminhos podem voltar a se encontrar

O cenário esportivo acrescenta um componente simbólico ao momento dos rivais. O Guarani já sabe que disputará novamente a Série C em 2027. A eliminação veio depois do décimo lugar na primeira fase, com 28 pontos.

A Ponte ainda disputa a Série B, mas ocupa a última colocação, com dez pontos, e pode ter o rebaixamento matematicamente confirmado nas próximas rodadas. Se a queda alvinegra for consumada, os rivais voltarão a dividir a mesma divisão nacional em 2027.

Seria um reencontro em circunstâncias muito diferentes daquelas que marcaram períodos de protagonismo nacional dos dois clubes.

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