Ponte Preta iguala rebaixamento mais precoce da Série B em ano de marcas negativas

Derrota para o Cuiabá confirma descenso com sete rodadas de antecedência

A campanha reuniu recordes negativos, quatro comandos técnicos, salários atrasados e uma crise

Foto: Igor Henrique-PontePress
Foto: Igor Henrique-PontePress

Campinas, SP, 02 (AFI) – A queda que parecia inevitável havia meses tornou-se matemática neste sábado. A Ponte Preta perdeu para o Cuiabá por 2 a 0, na Arena Pantanal, permaneceu com 13 pontos e foi rebaixada à Série C do Campeonato Brasileiro com sete rodadas de antecedência.

Com apenas 21 pontos ainda disponíveis, a Macaca não pode mais alcançar o Botafogo-SP, primeiro clube fora da zona de rebaixamento antes do início da rodada, com 35. O resultado encerrou qualquer possibilidade de reação e confirmou um dos capítulos mais dolorosos dos 126 anos da instituição.

A Ponte caiu apenas uma temporada depois de conquistar a Série C de 2025, primeiro título nacional de sua história. Em menos de um ano, o clube passou da celebração inédita ao segundo rebaixamento de 2026 — também havia caído no Campeonato Paulista, em fevereiro.

Queda iguala recorde da Série B

O descenso na 31ª rodada coloca a Ponte ao lado do Duque de Caxias, de 2011, no recorde de rebaixamento mais precoce da Série B desde a implantação do sistema de pontos corridos com 20 clubes, em 2006.

O time fluminense também teve a queda confirmada com sete partidas por disputar e terminou aquela edição com 17 pontos, a pior campanha já registrada no atual formato.

A Ponte chegou ao jogo contra o Cuiabá com 13 pontos. Depois da derrota, passou a somar três vitórias, quatro empates e 24 derrotas em 31 partidas, com aproveitamento de apenas 14% dos pontos.

Além de igualar a queda mais antecipada, a Macaca ainda corre o risco de terminar abaixo dos 17 pontos do Duque de Caxias e assumir isoladamente o posto de pior campanha da história da Série B por pontos corridos.

Os rebaixamentos mais precoces da Série B

  • Duque de Caxias, em 2011: 31ª rodada;
  • Ponte Preta, em 2026: 31ª rodada;
  • Portuguesa, em 2014: 33ª rodada;
  • Brasil de Pelotas, em 2021: 33ª rodada;
  • Ituano, em 2007: 34ª rodada;
  • Oeste, em 2020: 34ª rodada;
  • ABC, em 2023: 34ª rodada;
  • ABC, em 2009: 35ª rodada;
  • ABC, em 2017: 35ª rodada;
  • Boa Esporte, em 2018: 35ª rodada;
  • São Bento, em 2019: 35ª rodada;
  • Paysandu, em 2025: 35ª rodada.

Uma coleção de marcas negativas

A campanha não ficou marcada apenas pelo momento da queda. A Ponte acumulou números que ajudam a dimensionar o tamanho do colapso.

Antes de enfrentar o Cuiabá, o clube tinha 17 gols marcados e 64 sofridos, saldo negativo de 47. Foram necessários 30 jogos para conquistar somente 13 pontos.

A equipe também passou 22 rodadas consecutivas sem vencer, entre 24 de abril e 20 de setembro. O jejum durou 149 dias e se tornou o maior da história da Série B.

A sequência começou depois do triunfo por 1 a 0 sobre o América-MG e só terminou com outra vitória por 1 a 0, diante do CRB. Após o raro alívio, a Ponte voltou a perder já na rodada seguinte, por 2 a 0 para o Botafogo-SP.

Duas derrotas por 6 a 0 aprofundaram a crise. A primeira foi diante do Vila Nova, na 23ª rodada. A segunda ocorreu contra o Londrina, na 28ª. Foram as duas maiores goleadas registradas na competição até aquele momento.

Derrotada por todos os adversários

A derrota para o Botafogo-SP, na rodada anterior, completou uma coleção indesejada. A Ponte passou a ter pelo menos um revés contra cada um dos outros 19 participantes da Série B.

A Macaca pontuou diante de somente sete adversários. Venceu Avaí, América-MG e CRB, além de empatar com Athletic, Botafogo-SP, Ceará e Náutico. Contra os outros 12 clubes, perdeu todas as partidas disputadas até a 31ª rodada.

Mapa da campanha contra os 19 rivais

Três pontos conquistados

  • América-MG;
  • Avaí;
  • CRB.

Um ponto conquistado

  • Athletic;
  • Botafogo-SP;
  • Ceará;
  • Náutico.

Nenhum ponto conquistado

  • Atlético-GO;
  • Criciúma;
  • Cuiabá;
  • Fortaleza;
  • Goiás;
  • Juventude;
  • Londrina;
  • Novorizontino;
  • Operário-PR;
  • São Bernardo;
  • Sport;
  • Vila Nova.

Como esta queda se compara às anteriores

O rebaixamento de 2026 é o sexto da Ponte em competições nacionais e o segundo para a Série C em apenas três temporadas.

A diferença está na forma. Nas quedas anteriores, o clube conseguiu prolongar a luta até as últimas rodadas. Desta vez, a sobrevivência terminou ainda no início de outubro, com quase um quinto da competição pela frente.

As quedas nacionais da Ponte Preta

1995 — Série B para a Série C

A Ponte terminou a primeira fase na última posição de seu grupo. Foram uma vitória, dois empates e sete derrotas em dez partidas. O clube seria rebaixado, mas permaneceu na Série B de 1996 após a desistência do América-SP.

2006 — Série A para a Série B

A Macaca terminou em 17º lugar, com 39 pontos. Foram dez vitórias, nove empates e 19 derrotas, além de 45 gols marcados e 65 sofridos. A queda foi confirmada com uma rodada de antecedência.

2013 — Série A para a Série B

Em um ano marcado pela histórica final da Copa Sul-Americana, a Ponte terminou o Brasileiro na 19ª posição, com 37 pontos. O rebaixamento foi confirmado antes de a equipe entrar em campo pela 37ª rodada.

2017 — Série A para a Série B

A derrota de virada por 3 a 2 para o Vitória, no Moisés Lucarelli, decretou o descenso na 37ª rodada. O jogo terminou com invasão de campo. A Ponte fechou o campeonato em 19º lugar, com 39 pontos.

2024 — Série B para a Série C

A queda foi confirmada após a goleada por 4 a 0 sofrida diante do Sport, na 37ª rodada. A Macaca terminou a competição em 17º lugar, com 38 pontos: dez vitórias, oito empates e 20 derrotas.

2026 — Série B para a Série C

A queda veio na 31ª rodada, a mais precoce da história do clube. A Ponte tinha somente 13 pontos quando o descenso foi confirmado e ainda corria o risco de encerrar a competição com a pior campanha já registrada no atual formato.

Somados os campeonatos nacionais e estaduais, este é o 11º rebaixamento formal da Ponte. É também o sétimo somente neste século e o quarto desde 2022, quando o atual grupo político assumiu o comando da instituição.

Quatro técnicos e um interino

A temporada começou com Marcelo Fernandes, responsável pelo título da Série C de 2025. Ele deixou o clube depois do rebaixamento no Campeonato Paulista e antes do início da segunda divisão nacional.

Rodrigo Santana iniciou a Série B, mas saiu em maio após a sequência de resultados negativos. O auxiliar Edson Boaro comandou a equipe interinamente em duas partidas e deixou o clube cobrando salários atrasados.

Márcio Zanardi assumiu em junho, quando a Ponte já ocupava a parte inferior da tabela. Ele pediu demissão em agosto, no mesmo dia em que o elenco profissional iniciou uma greve.

Gilson Kleina aceitou retornar pela sexta vez e classificou a missão como o maior desafio de sua carreira. Recebeu um elenco reduzido, em crise e praticamente condenado, mas também não conseguiu impedir a queda.

Greve, base em campo e debandada

A crise financeira deixou de ser apenas um problema administrativo e invadiu o gramado. Em agosto, os jogadores paralisaram as atividades e denunciaram até seis meses de salários atrasados, além da falta de respostas da diretoria.

Em situações específicas, as pendências com atletas e profissionais do departamento de futebol se aproximavam de um ano.

Sem o elenco principal, a Ponte precisou relacionar jogadores da base para enfrentar o América-MG e evitar uma derrota por W.O. A equipe formada por jovens resistiu durante o primeiro tempo, mas perdeu por 2 a 0.

Até o início de setembro, 19 atletas já haviam deixado o clube desde o começo da Série B. Alguns conseguiram a rescisão por causa dos atrasos; outros foram negociados, dispensados ou devolveram-se aos clubes de origem.

A Ponte ainda enfrentou três proibições para registrar jogadores: duas impostas pela Fifa e uma pela Câmara Nacional de Resolução de Disputas. O Boavista, do Rio de Janeiro, pagou dívidas relacionadas aos bloqueios e ajudou na chegada de reforços para a reta final.

Crise chegou à cozinha

A falta de dinheiro também atingiu os funcionários. Uma vaquinha organizada por torcedores arrecadou mais de R$ 12,5 mil para auxiliar trabalhadores que conviviam com atrasos salariais.

O episódio mais simbólico ocorreu quando circulou a imagem de um aviso que restringia a retirada de pães na cozinha do clube. A Ponte declarou posteriormente que uma parceria produzia cerca de 4 mil unidades por mês e que a quantidade seria suficiente para atender atletas e funcionários.

Independentemente da versão sobre os alimentos, o caso mostrou o grau de deterioração da imagem da instituição. A crise já não era medida apenas por derrotas, processos ou folhas salariais, mas pelo receio de faltar o básico no cotidiano do clube.

Dívida milionária e SAF rejeitada

Dirigentes estimam que a Ponte tenha uma dívida próxima de R$ 380 milhões e um déficit mensal de aproximadamente R$ 2,8 milhões.

A principal alternativa apresentada pela administração foi a transformação do futebol em SAF. A proposta divulgada previa cerca de R$ 1,1 bilhão entre pagamento de dívidas, investimentos no futebol e obras de infraestrutura.

A criação da empresa, porém, foi rejeitada pelos associados em setembro. A proposta recebeu 234 votos favoráveis, mas precisava de 256 para alcançar os dois terços exigidos pelo estatuto.

Com isso, o processo voltou à estaca zero justamente quando a queda esportiva ampliava a necessidade de dinheiro e de uma reorganização administrativa.

O título virou lembrança

Em 2025, a Ponte encerrou um jejum de 125 anos e conquistou seu primeiro título nacional. A vitória sobre o Londrina na decisão da Série C parecia representar o começo de uma reconstrução.

Menos de um ano depois, o mesmo adversário aplicou uma goleada por 6 a 0. O contraste resume a temporada: o acesso não foi utilizado para estabilizar as finanças, preservar o elenco ou construir uma equipe capaz de permanecer na Série B.

A Ponte retorna à terceira divisão sem que os problemas responsáveis pela queda anterior tenham sido resolvidos. Desta vez, porém, o cenário é ainda mais grave: o clube está também na Série A2 do Paulista, perdeu jogadores, acumula processos e continua sem uma solução aprovada para sua dívida.

O rebaixamento não começou na Arena Pantanal e tampouco pode ser explicado somente pelo resultado diante do Cuiabá. Ele foi construído ao longo de meses de atrasos, decisões frustradas e abandono do futebol. O jogo deste sábado apenas transformou o colapso em matemática.

Ponte Preta na Série B de 2026

  • Posição: 20ª;
  • Pontos: 13;
  • Jogos: 31;
  • Vitórias: 3;
  • Empates: 4;
  • Derrotas: 24;
  • Gols marcados: [ATUALIZAR];
  • Gols sofridos: [ATUALIZAR];
  • Saldo: [ATUALIZAR];
  • Aproveitamento: 14%;
  • Maior jejum: 22 partidas sem vencer;
  • Maiores derrotas: 6 a 0 para Vila Nova e Londrina;
  • Rodada do rebaixamento: 31ª;
  • Antecedência: sete rodadas.

Confira também: