Paulista A3: Itapirense leva a maior goleada de sua história e segue sem perspectiva

Dirigentes sem cargos definidos, parceria enrolada e apenas 14 jogadores inscritos indicam que a Vermelinha terá mais um ano díficil

Dirigentes sem cargos definidos, parceria enrolada e apenas 14 jogadores inscritos indicam que a Vermelinha não aprendeu nada com os vexames dos últimos dois anos.

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Itapira, SP, 11 – Foram quatro rodadas e apenas 14 jogadores inscritos. Ao mesmo tempo que os clubes do interior clamam por mais apoio e a manutenção das competições estaduais, a desorganização interna toma conta e permite que um treinador seja obrigado a levar a campo uma escalação que não treinou e sequer estava nos planos na pré-temporada. Motivo de orgulho da cidade de Itapira há três anos, a Itapirense se tornou a vergonha do Campeonato Paulista da Série A3 de 2016.

Na última quarta-feira, pela quarta rodada da competição, a Vermelinha sofreu a sua maior goleada desde que voltou ao profissionalismo, em 2006. Diante do Atibaia, no estádio Ítalo Limongi, em Indaiatuba, o time de Itapira levou um sonoro 5 a 1 e segue sem saber o que é vencer no campeonato.

A última vez que a Itapirense havia perdido uma partida por quatro gols de diferença foi na Série A3 de 2011, quando lutou contra o rebaixamento e levou um 4 a 0 do Juventus em pleno estádio Coronel Francisco Vieira, em Itapira. Contra o Atibaia foi pior: levou cinco gols. Mais um vexame para a campanha da Vermelinha em 2016.

A goleada é apenas mais um indício do poço fundo que o clube entrou a partir de 2014, justamente na primeira vez que o time teve a oportunidade de disputar a Série A2 do Campeonato Paulista. A situação é tão crítica, que a Itapirense não vence um jogo como visitante há quase dois anos. A última vez que isso aconteceu foi diante do São José – vitória por 3 a 1 – no dia 1º de março de 2014. Vale lembrar que a partida aconteceu no estádio Stravos Papadopoulos, em Jacareí, já que o time de São José de Campos foi impedido de atuar no Martins Pereira, que estava em reforma.

De lá para cá foram 13 partidas fora de casa, com oito derrotas e cinco empates. Talvez mais humilhante do que o 5 a 1 contra o Atibaia, foi o empate por 2 a 2 com a Francana na penúltima rodada da Série A3 de 2015, quando o time de Franca já estava matematicamente rebaixado e precisou atuar com um goleiro como jogador de linha.

Na última quarta-feira, a Itapirense perdeu por 5 a 1 para o Atibaia. (Foto: Fábio Gianelli/ SC Atibaia)

Na última quarta-feira, a Itapirense perdeu por 5 a 1 para o Atibaia. (Foto: Fábio Gianelli/ SC Atibaia)

Acesso em 2013 e o começo da desorganização

Depois de bater na trave do acesso duas vezes consecutivas na Série A3, a Itapirense apostou na chegada de um investidor, que daria uma nova cara ao time que disputaria a competição de 2013. O empresário Adilson Brito convenceu nomes fortes para a divisão, como o atacante Ray, o lateral Grafite e o meia Diego Costa a vestirem a camisa da Vermelinha e sob o comando do treinador João Batista – também trazido pela investidora – conseguiu se manter na zona de classificação. Divergências com o então presidente Flávio Boretti tiraram o empresário do clube, mas com a permanência dos jogadores, o time de Itapira conseguiu pela primeira vez o acesso à Série A2 do Campeonato Paulista.

Com a saída de Adílson Brito, Flávio Boretti foi obrigado a buscar recursos com empresários locais e Luiz Marco de Paula, o Marcão, proprietário de uma indústria de produção de bombas, passou a ser o principal investidor do clube e, não por acaso, virou o presidente da Itapirense a partir de 2014.

Na época, Flávio Boretti alegou problemas de saúde. Presidente desde o retorno da Itapirense ao profissionalismo – em 2006 – ele deixava o cargo pela primeira vez, deixando o comando do clube para o investidor que havia colocado recursos na manutenção do time que conquistou o acesso. Um ano depois, porém, Flávio, que também era secretário de esportes e lazer de Itapira, foi acusado pelo prefeito da cidade, José Antonio Paganini,em uma entrevista à Rádio Clube, de desviar dois cheques de R$ 10 mil cada um, dados a título de patrocínio à Vermelinha, para as contas do SAAE (Serviço de Abastecimento de Água e Esgoto), o qual o seu irmão, Dado Boretti, era presidente. As acusações, na época, levaram Dado a ser cassado e a perder o cargo no SAAE, bem como o de vice-prefeito.

(In) Gestão Luiz Marco de Paula

Em seu primeiro ano como presidente, Marcão conseguiu trazer bons jogadores para a disputa da Série A2, mas a inexperiência em gestão falou mais alto. Atletas já consagrados, como o atacante Finazzi (ex-Ponte Preta e Corinthians), o meia Valdeir (ex-Grêmio e Guarani) e o goleiro Adinam (ex-Coritiba e Portuguesa) chegaram, mas os problemas extra-campo, somado a dificuldade de vencer fora de casa, levaram a Itapirense de volta para a Série A3.

Durante a Série A2, a Vermelinha trouxe mais duas vergonhas para a sua torcida além do rebaixamento. O time foi personagem no fatídico “jogo do cai-cai”, quando teve três jogadores expulsos e outros atletas caíram, alegando lesões, para que o árbitro encerrasse a partida diante do Santa André antes do tempo regulamentar.

No mesmo ano, Marcão demitiu o técnico Paulo Silva, o Paulinho Ceará, contratou Ruy Scarpino e rodadas depois, voltou a anunciar Paulo Silva no comando, para a ira da torcida. Resultado: Itapirense de volta à Série A3.

Em sua gestão, Marcão não conseguiu colocar a Esportiva nos trilhos. (Foto: Jornal do Guaçu)

Em sua gestão, Marcão não conseguiu colocar a Esportiva nos trilhos. (Foto: Jornal do Guaçu)

O sonho do retorno em 2015 morreu antes mesmo do início da Série A3. A Itapirense foi um dos últimos times a anunciar o seu treinador para a competição, atrasando o planejamento e chegada de novos jogadores. Mais preocupado com sua empresa do que com o clube que assumiu um ano antes, Marcão deixou todas as responsabilidades do futebol nas mãos do gerente Sandro Candreva, responsável pelas contratações, renovações de contrato e pagamento dos salários.

Sem que os jogadores recebessem os salários durante toda a competição, a Vermelinha lutou contra o rebaixamento até a última rodada, se livrando com uma goleada em casa por 3 a 0 sobre a já rebaixada Santacruzense. O time de Itapira foi o 14º colocado.

Com uma média de 200 pagantes em suas partidas em casa, a Itapirense viu a cidade desistir do clube diante dos vexames. A Rádio Clube, única rádio de Itapira, deixou de fazer as transmissões dos jogos, preferindo cobrir os times de São Paulo. O aviso foi dado, mas não ouvido.

2016: O ano do ápice da vergonha

A vergonhosa campanha de 2015 não serviu de nada para que os gestores da Itapirense mudassem a atitude. Se no ano anterior tudo foi complicado, ficou ainda pior em 2016, mesmo com todos sabendo que seis times serão rebaixados para a Segunda Divisão (quarta do Campeonato Paulista). Luiz Marco de Paula segue como presidente, trouxe o ex-treinador Claudemir Peixoto como coordenador técnico, mas não abriu mão de continuar com Sandro Candreva, mesmo que os dois ficassem com as mesmas funções. Pior do que isso, ele ainda fez questão da contração de Paulo Silva como dirigente. Ou seja: todos os profissionais que estiveram nas duas últimas campanhas sob a gestão de Marcão seguem no clube, mas agora como diretores, gerentes ou cargos que ninguém entende.

Quem manda, na verdade, é Edivaldo Pires, um dos donos da Itaquerão Soccer, empresa de gestão em futebol, que prometeu jogadores de qualidade à Itapirense e que por divergências com a presidência, não conseguiu inscrever mais do que 14 jogadores com quatro rodadas já decorridas na Série A3.

O técnico Mirandinha teve o respaldo de Edivaldo Pires para avaliar 28 jogadores na pré-temporada. Treinou um time, escolheu os seus jogadores e conta com apenas 14 daqueles escolhidos entre os inscritos. Todo o seu trabalho foi jogado no lixo pelo clube e pela Itaquerão Soccer.

A empresa de Edivaldo Pires é a mesma envolvida na contratação do zagueiro Iago Maidana pelo São Paulo. No ocorrido, o Tricolor Paulista foi julgado no STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) após acusações de utilização de terceiros para tirar talentos de clubes menores, o que é proibido pela Fifa.

Mirandinha se esforça. A cada dia recebe uma promessa de novos jogadores inscritos, mas na véspera das partidas, é obrigado a viajar com os mesmos 14. Com apenas um ponto, a Itapirense ocupa a penúltima colocação da Série A3, atrás apenas do Grêmio Barueri, outro time com problema de inscrições.

Enquanto os dirigentes não se entendem com a parceria, o clube agoniza dentro de campo. As rádios já abandonaram. Os torcedores, aos poucos, vão sumindo, e a cidade que trouxe o inesquecível Bellini para o futebol vai perdendo uma de suas grandes alegrias. De bom no “Chico Vieira” atualmente, só mesmo as dedicatórias ao eterno capitão da Copa do Mundo de 1958.