Palmeiras é maior que sua crise

Processo de mudança do time não pode ser abortado pela paixão imediatista dos torcedores

É preciso e fundamental dar-se tempo ao treinador e saber que milagres não serão feitos de uma rodada para a outra.

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A grandiosa Sociedade Esportiva Palmeiras, clube que meu saudoso e amado pai me ensinou escolher, amar e torcer, vive uma crise que já vem se arrastando por vários anos. Tenho visto, com certo orgulho, a propaganda institucional do clube no lançamento da campanha que tenta angariar novos torcedores sócios, o ‘Avanti, Palmeiras’. Em trinta segundos, a propaganda mostra os grandes momentos históricos do clube, os títulos, o time da Academia (com o inesquecível e inigualável “Divino” Ademir da Guia), São Marcos, que ainda é referência para todos nós como identificação com a matiz alviverde.

Conheço muitos palmeirenses que estão de cabelo em pé com a fraca campanha do time no certame nacional e a real possibilidade de um ‘deja –vù’ incômodo. Porque não se descarta a possiblidade da volta do time à Série B. Minha posição pessoal é “que seja.”

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Algumas vezes precisamos começar do zero. Remendar tecido puído não dá bons resultados. Esta fase intermediária, quando o novo treinador Ricardo Gareca vai montando sua equipe, é mesmo arriscada. Um risco que o clube e os torcedores devem assumir juntos.

Pedir a cabeça de Brunoro ou atacar o presidente Paulo Nobre, sob meu ponto de vista, não ajudará em nada. Brunoro e Nobre não desaprenderam a comandar um clube. Assim como Gareca não esqueceu como se monta um time competitivo. É preciso e fundamental dar-se tempo ao treinador e saber que milagres não serão feitos de uma rodada para a outra. O Palmeiras, óbvio, precisa lutar bravamente para tentar manter-se no grupo de elite. Mas, sinceramente, isso não é o mais importante.

Como torcedores costumamos ser imediatistas. Queremos resultados já, títulos ontem, soluções para a próxima rodada. Fôssemos menos apaixonados e um pouco mais astutos, adicionaríamos mais paciência e menos frustração a essa receita para se formar um bom time que possa manter-se em bom nível competitivo por várias temporadas. Assim acontece com o São Paulo, o Cruzeiro e outros clubes. Nem todos jogando o fino da bola, mas conseguindo respirar com tranquilidade na superfície do oceano do pobre e chato futebol brasileiro.

Por vezes nos esquecemos que nosso futebol está nivelado por baixo. Esquecemos rapidamente de um certo 7 a 1 que ainda arde em nossos pesadelos. Nosso futebol está ruim, mal das pernas. Há uma certa brisa fresca em alguns momentos lúdicos do Cruzeiro, num passe de Ganso, numa jogada de Robinho ou na lucidez de Kaká. Mas é migalha. O banquete do futebol de resultados, onde se fartam os jogadores voluntariosos e multifuncionais, onde medra o forte tempero do medo da derrota e onde o velho troca-troca de treinadores é servido como vinho estragado, tal banquete ainda é a refeição preferida da cartolagem, que adora arrotar caviar enquanto come lama.

Por estarmos vivendo um momento tão degradado do futebol, é possível que o glorioso Palmeiras consiga se recuperar mais rapidamente, porque não existe um grande número de times com futebol acima da média. Quase todos estão na média. E a média é bem ruim.

Não me importa que nosso glorioso alviverde atravesse mais este período no purgatório. Nem me incomoda se, eventualmente, disputemos a série B mais uma vez (que por sinal, tem apresentado jogos muito mais interessantes que a série A). Desde que este processo iniciado talvez num momento delicado (contudo, antes tarde do nunca) não seja precocemente abortado pela pressão da torcida passional daqueles que só sabem enxergar dois palmos a frente do nariz.

Avante, Palestra! Eu acredito!