Opinião Edgard Soares: Pedido de desculpa esfarrapado
Mário Moraes, “o mais famoso comentarista esportivo do país”, como era apresentado pelos seus colegas de emissoras de rádio, cunhou uma frase lapidar ao se referir a alguém que tivesse falado uma grande bobagem. Ele dizia:
“Fulano perdeu uma ótima oportunidade de ficar quieto”.
De tão boa, a expressão passou a ser utilizada por outros jornalistas até que, com o passar do tempo, ninguém mais deu o crédito a Mário Moraes pela sua criação.
Pois o diretor de futebol do São Paulo, Carlos Barros e Silva, o tal de Leco, se superou.
Perdeu esta oportunidade a que Mário Moraes se referia, por duas vezes.
Primeiro, ao declarar na coluna Painel F.C. da Folha de São Paulo que “no tempo em que era jogador, Ronaldo não fazia isso”.
Leco se referia à entrada que Ronaldo deu logo nos primeiros minutos de jogo em André Dias no primeiro confronto pelas semifinais do Campeonato Paulista entre Corinthians e São Paulo.
A gozação do sãopaulino saiu (forte) pela culatra. A declaração motivou não só o time do Corinthians, que está unido em torno de Ronaldo, como especialmente o próprio Fenômeno.
Resultado: Ronaldo foi fundamental no segundo jogo, dando passe para o primeiro gol e fazendo, ele próprio, o segundo. E com um detalhe: ganhando na corrida do zagueiro sãopaulino Rodrigo. Coisa que um ex-jogador não conseguiria fazer.
Ronaldo não perdoou a frase de Leco e, ao término da partida, ainda em campo, retribuiu a provocação, referindo-se ao diretor tricolor, diante de inúmeros microfones, como “um babaca”.
Como quem não sabia da frase infeliz de Leco ficou sabendo pela divulgação dela pelo próprio Ronaldo, o dirigente resolveu distribuir uma Nota Oficial cujo objetivo seria se desculpar perante Ronaldo e toda a opinião pública.
Foi aí que, mais uma vez, Leco pisou na bola. E perdeu a segunda oportunidade de ficar quieto.
Demonstrando, num texto muito cauteloso, que, no fundo, não havia se arrependido do que dissera, mas apenas estava tomando uma atitude para aliviar a barra para o seu lado, o cartola escreveu: “Ronaldo sabe bem que todos podemos errar na vida…”
A iniciativa na Nota Oficial de lembrar a todos que Ronaldo também já tinha se exposto em algumas oportunidades e sofrido críticas da imprensa, foi absolutamente desnecessária. Pior que isso: revelou falta de grandeza do dirigente.
Se queria, verdadeiramente, se desculpar bastaria a Nota Oficial dizer: “Errei. E peço desculpas publicamente pelo erro”. Seria digna de elogios.
Ao invocar possíveis erros de Ronaldo, que nada tinham a ver com o episódio, Leco quis dizer e disse: “assim como você, Ronaldo, eu posso errar…”
Ficou feio. Desculpar-se, principalmente em público, é um ato que requer dignidade e uma dose de humildade muito grande de quem se dispõe a tomar tal atitude. O sãopaulino não teve nem uma nem outra postura. Lamentável.
O epísódio é importante também por outro aspecto.
A contratação de Ronaldo que, a princípio, todos elegiaram como “estratégia de marketing”, mas levantava dúvida quanto ao real aproveitamento em campo do jogador, sofreu uma inversão de avaliação.
A performance de Ronaldo, no sentido prático, é impressionante: 8 jogos pelo Paulista, 6 gols, média de 0,75 gols por partida. Sendo que só em duas Ronaldo ficou os 90 minutos em campo.
Nem mesmo no auge de sua carreira, Ronaldo alcançou esta média, realmente excepcional.
É bem verdade que a amostra é ainda pequena. Apenas 8 jogos. Mas, média é média. E esta 0,75 gols por apresentação, entrará para a história.
Além disso, os gols que Ronalfo já fez, não foram gols comuns, corriqueiros. O primeiro, contra o Palmeiras, foi fundamental. E de cabeça, que nunca foi o forte do Fenômeno.
O gol contra o São Caetano, mostrou dominio perfeito do tempo de bola. Um bate-pronto dificílimo de acertar. O contra a Ponte Preta, rapidez de raciocínio, ótimo drible em curto espaço físico e excelente finalização de pé esquerdo. E o contra o São Paulo, explosão em cima de um zagueiro bem mais jovem. Ou seja, gols que reuniram diversos fundamentos.
O curioso na trajetoria até aqui de Ronaldo nesta sua nova “volta ao futebol” é que, do ponto de vista técnico, surpreendendo muitos, ela está sendo um sucesso.
Já do ponto de vista de marketing, em que todos apostavam, ela até aqui foi uma decepção. Fala-se aqui, evidentemente de marketing como este deve ser entendido, ou seja, como ferramenta, como fonte de arrecadação para o clube.
Para que fique claro: como divulgação da marca Corinthians, do clube, inclusive no exterior, nota dez pela contratação. Porém, visibilidade não é marketing. E marketinmg não é só visibilidade.
Como elemento catalizador de verbas, de patrocínio, de receita para o Corinthians, a contratação ainda deixa a desejar.
Claro que isto não é responsabilidade de Ronaldo. A sua parte, ele está fazendo. Até aqui, muito bem.





































































































































