O Guarani do Manoel Marques Paiva
O Guarani do Manoel Marques Paiva
Nos anos 60, em 66 prá ser mais preciso, o Guarani estava numa situação tão difícil, mais tão difícil que não tinha presidente, jogadores e muito menos materiais esportivos: camisas, meias, calções, etc. Foi ai que surgiu MANOEL MARQUES PAIVA, um português de baixa estatura, vivo que só o diabo e que havia acabado de vender a sua indústria de doces: “A Campineira”, que ainda funcionava no bairro do Cambuí. O Paiva começou ali comprando e mascateando os produtos. Pouco tempo depois já éra o proprietário e, a sua grande tacada foi lançar o pirulito ZORRO, em campanha nacional veiculada pela Tv. O sucesso foi tão grande que a Campineira passou, em pouquíssimo tempo, a ser considerada uma das maiores fábricas de guloseimas do País. A venda da Campineira, por uma fortuna, (e poe fortuna nisso) foi feita para o Sr. Armindo Dias.
Como dinheiro não era problema, o Paiva pagou contas atrasadas, equipou o almoxarifado com novos e vistosos uniformes, meias, chuteiras, cotoveleiras, joelheiras, luvas, enfim, tudo que éra preciso. Arrumou o Departamento Médico, levando para lá o Dr. Zito Meloni. Também cuidou de arrumar a cozinha, o restaurante e as acomodações dos atletas. Seus companheiros de confiança eram Emílio Porto, Hermínio Garbelini, Anselmo Zini e o Jóca. Sua grande tacada foi colocar seu patrício e também fabricante de doces, Leonel Martins de Oliveira, no Departamento Social. Foi Leonel o responsável pela expansão do quadro associativo do Bugre, o que ajudou muito na arrecadação financeira para melhorias no Parque Social e Aquático. Enquanto Leonel estruturava a parte social, o Paiva foi às compras.
Trouxe, de Presidente Prudente, o técnico Aparecido, talvez o primeiro técnico de futebol brasileiro formado em Educação Física. Sim, todos os outros técnicos, em sua maioria, eram ex- atletas ou argentinos, uruguaios… Numa pancada só o Paiva trouxe para o Brinco de Ouro: Tobias, Bezerra, Miranda, Tarcísio, Hélio Giglioli, Milton, Parada, Zé Roberto, Osvaldo, entre outros. Parada e Zé Roberto não eram “flôres que cheiravam”. A concentração deles era na “Boate El Cairo”, que funcionava na Barão de Jaguara esquina com a Benjamin Constant. Só que tinha uma coisa: eles se destacavam como os melhores da equipe. Uma ocasião alguns conselheiros bugrinos procuraram o Paiva e deram-lhe uma prensa para dispensar os dois jogadores. Paiva foi curto e grosso: “enquanto eles tiverem ganhando jogo, vão ficar no Guarani”.
A gloria aconteceu num jogo Palmeiras e Guarani, no Palestra Itália, às 9,30 da manhã. Foi uma experiência da Federação. Não tenho certeza se o presidente era o Alfredo Metedieri , um rico empresário de Sorocaba que andou botando ordem na FPF. A verdade é que o Guarani deu um show de bola, ganhou do Palmeiras e saiu de campo vivamente aplaudido, sendo Zé Roberto e Parada considerados pela imprensa os melhores em campo. Nesse dia, eles sairam da “El Cairo” às 5 horas da matina. Foi o tempo de chegar ao Brinco, tomar banho, trocar de roupas, tomar café e subir no ônibus com destino ao Palestra Itália.
Num outro jogo em Santos, contra o Santos de Pelé e Cia, o Guarani, embora perdendo, deu show de bola. Teve até um gol do Zé Roberto que só Armando Marques viu. O Zé, num melê na área santista, cabeçeou forte, Ramos Delgado tirou de bicicleta. Só que o Armando estava enconstado à trave e viu que o zagueiro tirou a bola já dentro do gol. Foi uma loucura. A torcida do Santos quase derruba o estádio. Entretanto, à noite, a TV Tupi, com Valter Abraão , através do replay, mostrou que o juíz estava certo. Gol legitimo do Bugre.
Na saída do Estádio Urbano Caldeira, os torcedores santistas revoltados com as provocações em campo de alguns jogadores bugrinos, cercaram o ônibus na avenida. Paus, pedaços de tijolos, paralelepípedos e até rojões foram atirados no ônibus que teve os vidros totalmente destruídos. Todos nós, sim eu estava no ônibus, deitamos no assoalho. Para nossa sorte, ou azar, sabe-se lá – o Parada, que só andava armado, tira a arma e dá um tiro para fora do ônibus. A bala pega de raspão num torcedor. A polícia chega e leva toda a delegação bugrina para a delegacia, com todo mundo preso em uma cela minúscula. Ninguém conseguia nos libertar por que o delegado queria a arma. Acontece que a caminho da delegacia, o Parada atirou o revolver no canal 1 da avenida Pinheiro Machado.
Nessa época não havia celular e o proprio telefone fixo era horrível, só melhorando muito no Govêrno do Presidente Geisel, quando foi Ministro das Comunicações, o grande Comandante Euclides Quandt de Oliveira, que criou o DDD, DDI, TV A CORES, Rádio FM, entre outros benefícios para o País, como a Embratel, por exemplo. Eu, que tenho (e ainda está lá) um irmão, Yussif Slaiman Kanso, casado com a irmã do até então melhor advogado criminalista da baixada, Dr. Valter Carvalho, e sobrinha do Presidente da Câmara Municipal e Conselheiro do Santos, Noé de Carvalho, precisava urgentemente pedir socorro à eles. Depois de muita luta e ajuda de alguns companheiros da imprensa santista, conseguí falar com o mano e, graças à ele, ao cunhado e ao tio da esposa, fomos libertados quando, praticamente, já estava amanhecendo a segunda feira.
Em 67 os bingos nos estádios estavam no auge. Todos os estádios eram lotados por compradores de cartelas que sonhavam com os vários carros, todos zéro quilômetro. Aí, o Manoel Marques Paiva, já cansado da missão e vida de cartola, vejam só, resolveu fazer um bingo no Brinco de Ouro para se ressarcir do dinheiro que ele havia investido no Guarani. Muitos dos diretores e torcedores acharam justo, até por que, quando ninguém queria saber do Guarani, foi ele que investiu seu proprio dinheiro vivo no clube. Porém, para uma minoria, aquela que só critica e não ajuda, o Paiva errou. Bem, o importante é que não se pode falar do Guarani sem falar do português Manoel Marques Paiva. Outra coisa, naquela época, não tinha essa de se ganhar dinheiro comprando e vendendo jogadores, como fazem hoje os dirigentes.
Ah, prá terminar: o pai do rapaz que levou o tiro de raspão dado pelo Parada, fez um longo acordo na Justiça com o Guarani, acordo este que acabou quitado na gestão do já presidente Leonel Martins de Oliveira.





































































































































