O burrinho Pedrês e a falta de uma Aletheia

Às vezes, na vida, entramos em algumas empreitadas sem conhecer as saídas e, na hora de nos livrarmos, o trabalho é muito maior.

O Corinthians procura as saídas para sair da encalacrada com o Itaquerão, uma dívida impagável.

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O burrinho Pedrês se faz presente em um conto de Guimarães Rosa, e mostra que ele era diferenciado porque só entrava em lugares depois de encontrar a saída, para não sofrer contratempos na hora de ir embora. Às vezes, na vida, entramos em algumas empreitadas sem conhecer as saídas e, na hora de nos livrarmos, o trabalho é muito maior.

Isto é apenas semântica para que se possa entender bem a situação de quem entrou nessa história de construção de estádios da Copa passada. O Corinthians procura as saídas para sair da encalacrada com o Itaquerão, uma dívida impagável. Na última reunião do Conselho Deliberativo várias saídas foram apontadas, porque os números são preocupantes e não se teve antes a perspicácia do burrinho Pedrês de Guimarães Rosa.

Mas antes de nos aprofundarmos nas questões gerais é preciso recomendar ao Corinthians uma Operação Aletheia – a busca da verdade, coisa que ninguém fez na hora de fechar o contrato, muito menos agora quando a conta para ser paga chegou.

EM SITUAÇÃO DELICADA
Faltar com a transparência, quando se trata de interesse público, resulta em situações complicadas. Na reunião do Conselho, o próprio Andrés Sanches disse que a situação é delicada. Lembro-me de uma declaração do presidente do clube na época, ao responder a uma questão sobre a dívida que ficaria para o clube, Andrés respondeu:

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“Dívida não é problema. As maiores empresas do Brasil, entre elas a Votorantim, deve bilhões, sem problemas”.

Certo, só que a Votorantim tinha no seu comando Antonio Ermírio de Moraes, que nunca fez besteira ou entrou em aventuras.

Comparar o império dos Ermirios com o Corinthians é pura demagogia. É só comparar o dinheiro e o patrimônio de cada um. Mas isso passa a ser uma questão menor. E outro dia, o ex-presidente do Corinthians misturou alhos com bugalhos ao dizer que tem gente querendo a Operação Lava Jato no Corinthians.

De um certo modo, não é demais lembrar que Alexandrino Alencar, um dos homens que trabalhou na construção do Itaquerão, deve saber muita coisa porque trabalhou junto com Frederico Barbosa, engenheiro das obras do estádio. É bom não mexer com jararacas.

FALTOU TRANSPARENCIA
O que aconteceu nessa história do Itaquerão é que faltou transparência. Por exemplo: discute-se o custo do estádio. O ex-presidente garante que o Itaquerão foi mais barato do que os estádios do Rio e Brasília. O Itaquerão saiu por 985 milhões, mas é claro que aí não entrou o custo financeiro. Aí, sim, é fogo na jararaca, se a remuneração for acrescida da TJLP, hoje em torno de 7% ao ano.

Na reunião do conselho, as colocações foram no sentido de que o clube vai pedir a renegociação de todos os contratos. Além disso, o clube conta os naming rights, que deverão ser vendidos até o fim deste mês, e com a liberação dos certificados de investimentos da Prefeitura, em torno de 420 milhões. Até agora só venderam 30 milhões desses papéis. Os naming rights, se forem 320 milhões em 20 anos, a receita anual será de 16 milhões.

Emerson Piovesan, diretor de finanças do Corinthians

Emerson Piovesan, diretor de finanças do Corinthians

Ora, se as previsões de Emerson Piovesan, vice de Finanças, se confirmarem, teremos o seguinte quadro: 16 milhões de naming rights , 70 milhões da Arena (rendas de jogos, TV, etc), mais 127 milhões de outras receitas, um total de 213 milhões.

Por tudo isso será necessário uma geração de caixa bem maior se considerarmos que no ano passado (repetimos aqui, o que já publicamos, até como precaução) a Arena teve as seguintes receitas: renda bruta – 73 milhões, e outras receitas :31 milhões. Os números são bons, mas as despesas também são altas, a saber – Despesas de borderô – 31 milhões; e despesas da Arena – 19.800 mil. As despesas somaram 66.600 mil. Sobraram (descontando-se mais 3.300 mil do habite-se) 31.400 mil.

FALTA MUITO DINHEIRO NO CAIXA
Para refrescar a memória, em 2015, toda essa receita – 30 milhões – deu para pagar 6 meses ao fundo de investimento, já que o custo mensal do financiamento é de 5.700 mil. E esse número não é fixo e tem as correções da TJLP – Taxa de Juros de Longo Prazo. Com 113 da receitas só se pagam 6 meses ao fundo. E o resto ?

Se considerarmos que este ano a crise chegou para todo mundo, imaginem no futebol. Se os contratos não forem modificados, a situação vai ficar muito complicada. E tudo isso porque faltou transparência. Os contratos, não é só no Corinthians, são aprovados na base do levanta e senta. Agora só resta convocar o burrinho Prenhês, de Guimarães Rosa. Quem sabe, ele possa descobrir uma outra saída. E uma Aletheia nunca é demais. Se tivesse falado toda a verdade, talvez não se chegasse à atual situação. Em última instância, chame o FMI.