O Adeus ao Jornalista Paulo Matiussi
O jornalista Paulo Antônio Matiussi, que atuou vários anos na crônica esportiva, faleceu na última segunda-feira em São Paulo. Seu último trabalho envolvendo o futebol foi quando elaborou um o livro “O Milagre da Vida” sobre o narrador de futebol Osmar Santos.
Edgard Soares, colunista do Futebol Interior e apresentador do Estação Futebol, faz uma emocionante crônica em homenagem a Paulinho Matiusi.
O Adeus a Paulo Matiussi, por Edgard Soares
Conheci Paulinho Matiussi na redação da Folha da Tarde, no mesmo prédio onde ainda hoje funciona a Folha de São Paulo.
Já na época o prédio da Folha era um edifício extremamente cafona, com pastilhas coloridas nas paredes e nas imensas colunas internas, instalado na Alameda Barão de Limeira. De dia, uma rua onde os “puxadores” de automóveis usados faziam ponto e trabalhavam para as lojas que preenchiam todos os espaços térreos de vários quarteirões. De noite, as prostitutas ocupavam os lugares daqueles homens que passavam o tempo todo repetindo um estranho gesto de esfregar o dedo indicador contra o polegar e dizendo milhares de vezes: “vende, vende?” para quem passava de automóvel por ali.
Lembro-me perfeitamente como Paulinho chegou à redação. De calça jeans, sandálias brancas nos pés, camiseta para fora da calça e longos e já ralos cabelos caindo nos ombros. Tinha a cútis muito alva, o rosto redondo e era gordinho. Apesar de seu jeito absolutamente descontraído e à vontade, era, como eu, pouco mais que um menino, com seus 16, 17 anos de idade.
Paulinho era extremamente precoce. Tinha um irmão mais velho, Dante Matiussi, que já possuía um certo nome e trabalhava no mais charmoso diário da cidade, o Jornal da Tarde. Hoje, Dante é um dos braços direitos do marqueteiro Duda Mendonça.
Celso Brandão, na casa dos 30 anos, era nosso chefe e editor de esportes na Folha Tarde e contratou Paulinho a pedido de Dante. Faziam parte da equipe Odair Pimentel, já falecido e o carioca Joaquim Balbino, que também já se foi. Miguel Terra e Pio Pinheiro, também menino e filho do já consagrado fotógrafo de O Estado, Domício Pinheiro, completavam o time. Roberto Avalone passou por lá, mas não ficou. Narciso James, também.
Paulinho e eu nos demos bem logo de cara. Éramos completamente apaixonados pelo jornal e chegamos a fazer edições inteiras da Folha da Tarde Esportiva, dominical, com mínimo de 24 páginas, sozinhos. Paulinho, Castro Filho (atual diretor de jornalismo da TV Cultura) e eu. Varávamos noites, saíamos invariavelmente de madrugada da redação.
Foi Paulinho que me levou à primeira boate. Era menor de idade como ele, mas Paulinho conhecia todos os maitres, leões de chácaras e, principalmente, todas as garotas de programa que trabalhavam nas casas da Rua Major Sertório, então a boca de luxo e que nada tinha da decadente região em que se transformou hoje.
Paulinho e Pio Pinheiro me levaram ao elegante Charmant, onde suas namoradas trabalhavam. Eles me ensinaram que, enquanto estavam na casa, as meninas não atendiam clientes, tinham que ficar com eles, sentadas tomando um drinque ou dançando. Naquele tempo as pessoas dançavam juntas.
Fiquei horrorizado quando Paulinho e Pio me contaram que, no final da noite, suas namoradas pagavam para eles o pernoite no Hotel Buenos Aires, o melhor do pedaço, na Rua Rego Freitas.
Mas aprendi rápido com meus professores e logo estava pernoitando de graça lá também.
Paulinho e Pio me apresentaram também outras novidades não tão, digamos, românticas e inofensivas: as drogas. O primeiro cigarro de maconha, a primeira picada, que o Pio, já experiente, preparava com Perventin, diluído em água e aplicava com destreza.
Experimentei e, felizmente, não gostei. Como já tinha mostrado “coragem” suficiente e recusei as demais ofertas, eles não se importaram muito com minha meia caretice e continuamos amigos.
Pio e Paulinho eram nada menos que brilhantes. Excelentes textos, sensibilidade à flor da pele. Eram também inteligentes, atualizados, conheciam as bandas norte-americanas da moda, sabiam de cor suas músicas. Não eram muito ligados em livros, tinham abandonado a escola tradicional muito cedo, mas podiam aprender tudo o que quisessem, sem dificuldade.
Paulinho passou logo a diagramar as páginas de jornal e era um diretor de arte nato. E talentoso.
Nosso contato foi intenso na Folha da Tarde, mas curto demais. Pio e Paulinho caíam cada vez mais no mundo nebuloso das drogas, numa época em que o mundo nos parecia estar de pernas para o ar. Era o final dos anos 60, o início dos anos de chumbo. Eu estava engajado na luta contra a repressão, Paulinho e Pio não se interessavam por política. Nossos caminhos se separaram.
Alguns anos depois, fui visitar uma vez Paulinho numa lanchonete que ele havia comprado na Rua Major Sertório. Era um local moderno e agradável que servia um ótimo hamburger para os boêmios. Na alta madrugada, porém, ele e seus sócios cerravam as portas de aço e se picavam praticamente até entrar em transe total. Vi Paulinho se aplicar nas veias do pé, porque seus braços estavam por demais roxos e doloridos. Naquela visita, a única que fiz à lanchonete que, naturalmente, teve duração comercial curta, pela primeira vez, temi seriamente pelo futuro de meu amigo.
Tive a nítida impressão de que ele não viveria muito tempo. Errei, Paulinho viveu até os 57 anos. Faleceu, totalmente debilitado, só, num quarto do Hospital do Servidor Público, no último dia 8. Foi enterrado no Cemitério do Chora Menino, com pouca gente o acompanhando no adeus final.
Paulo Antônio Matiussi fez de tudo no jornalismo. Repórter, redator, editor de esportes em jornal. E produtor e diretor em rádio e televisão.
Criou o Balancê, emblemático programa esportivo na Rádio Excelsior, hoje CBN, inicialmente apresentado por Osmar Santos e Juarez Soares e depois por Fausto Silva, o Faustão.
Foi também diretor da TV Bandeirantes, do lendário Show do Esporte, nada menos que oito, nove horas no ar aos domingos.
Comandou a equipe da TV Bandeirantes na Copa dos Estados Unidos, em 1994.
Poderia ter sido um gênio reconhecido da TV – em muitos momentos o foi – caso a sua dependência química não fosse tão acentuada.
Por três vezes, Paulinho trabalhou em minha Agência de Propaganda, entre as décadas de 80 e 2000.
Na primeira, coloquei-o para atender ao então diretor da comunicação da Tupi, João Doria Jr., este mesmo que você vê aos domingos na TV e que virou milionário.
Na última, ele editou um maravilhoso jornal tablóide chamado “Futebol Paulista”. Levou para lá nomes como os de Jose Luís Datena e Osmar de Oliveira. Eles o respeitavam e gostavam muito dele.
Nos últimos anos, doente e sem oportunidade de trabalho, ele encontrou amparo no seu primo Narciso James e em Flávio Adauto.
Flávio, amigo dos primeiros tempos, o amparou materialmente até os últimos momentos. Era seu fã.
Paulinho perdeu sua batalha contra o vício, que lhe corroeu fisicamente e acabou lhe tirando a vida.
Poderia ter ficado famoso, rico, ter escrito livros (aliás escreveu um, sobre Osmar Santos), ter dado palestras, usado sua inteligência para, hipocritamente, cagar regra em colunas de jornal, ser comentarista, por exemplo, da ESPN ou apresentador de programa esportivo da CBN, onde até malandro e incompetente têm espaço.
Mas optou, optou? por viver seu carma, desde muito jovem. Parecia não ter forças para combater o problema.
Recebeu conselhos, avisos, mas sempre caía novamente.
Foi uma vida de muitas emoções, sem dúvida. Mas uma vida de muitas lutas, dificuldades, perdas e tristezas também.
Que estranho fascínio suas loucas e auto-destrutivas viagens possuíam é um segredo que Paulinho levou com ele.
Descanse em paz, meu amigo.
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