Nunca houve goleiro como Gylmar. E bastante provável que jamais haverá outro igual.
Gylmar dos Santos Neves, 83 anos, natural de Santos, nos deixou neste final de semana, vítima de um enfarto
Gylmar dos Santos Neves, 83 anos, natural de Santos, nos deixou neste final de semana, vítima de um enfarto. Há muito, porem, o velho ídolo de Corinthians e Santos, os clubes pelos quais jogou, além do Jabaquara, estava doente.
Campinas, SP, 26 (AFI) – Gylmar dos Santos Neves (foto), 83 anos, natural de Santos, nos deixou neste final de semana, vítima de um enfarto. Há muito, porem, o velho ídolo de Corinthians e Santos, os clubes pelos quais jogou, além do Jabaquara, estava doente. Um traiçoeiro AVC o tinha deixado com graves sequelas desde ano 2000, quando pelos padrões atuais, ele não estava tão idoso assim.
Gylmar chegou ao Corinthians com apenas 21 anos de idade e sua contratação era apenas um adendo, um contra-peso a compra de Cicia, um centro-médio franzino, negro, que vinha com fama de craque para o Mosqueteiro. Mas Cicia fez apenas alguns jogos, não vingou e Gylmar tornou-se primeiro titular e depois idolo do Corinthians. Foi bicampeão do Torneio Rio-São Paulo e o grande goleiro da conquista do marcante Campeonato do IV Centenário, em 1954.

E por que Gylmar era muito mais do que apenas um excepcional goleiro? Porque ele tinha uma personalidade impar, um postura diferenciada dentro e fora do campo. Gylmar era elegante para jogar, para se vestir, para falar com os repórteres. Além disso, inspirava confiança nos companheiros de time e na torcida. Todos os garotos que jogavam no gol nas peladas de rua ou de campinhos improvisados, ate os não corinthianos, queriam ser Gylmar.
E inúmeros pais batizaram seus filhos com o nome do jogador, mesmo com o i substituindo o y na certidão de nascimento. Dois chegaram a ter momentos de fama, os Gilmares de Palmeiras e São Paulo nos anos 70 e 80. Gylmar foi talvez o primeiro jogador famoso que teve lances de sua vida pessoal acompanhada pela imprensa esportiva e pela torcida. Com a diferença que foram episódios românticos, ao contrario das confusoes em que os craques costumavam e costumam se envolver.
Baltazar, por exemplo, o cabecinha de ouro, companheiro de Gylmar no Corinthians era conhecido por gostar da noite, das baladas de então que, alias, não tinham este nome. Foi famoso o desastre que sofreu na Via Dutra quando o seu Oldsmobile ultimo tipo, como se chamavam os carros zero quilometro naquela época, pegou fogo na estrada.
Prestígio
Baltazar tinha tanto cartaz e prestígio que quando chegou a São Paulo vindo do Rio, um Cadilac mais bonito que o Oldsmobile, novinho em folha, o esperava. Gylmar, ao contrario, era o que se considerava um bom moco naqueles dias e se apaixonou por Rachel, uma descendente de sírios, filha de família de classe media alta em São Paulo. Os pais de Rachel não queriam o namoro, mas a insistência de Gylmar e até mesmo a revelação do caso pela imprensa, alem do apoio integral da torcida corinthiana na causa, o ajudaram a dobrar seus sogros.
Mesmo na sua posição de unanimidade como jogador, Gylmar foi vendido pelo Corinthians a seu rival, o Santos. Como sempre, resultado de uma briga interna e política no Corinthians. Em 1961, Vadi Helu ganhou as eleições no alvinegro do Parque São Jorge. Era um dirigente extremamente intempestivo e numa briga com o jogador, colocou-o a venda.Gylmar não era mais nenhum menino, já tinha 31 anos de idade. E Vadi julgou que ele estava em fim de carreira.
Mas Gylmar viveu no Santos, momentos de gloria tão intensos como no Timão. Coincidiu sua ida com a ascensão vertiginosa do Peixe que, alem de tudo, desde 1958 tinha Pele como titular e o resto você e capaz de adivinhar. Gylmar foi titular absoluto nas Copas de 1958 e de 1962, atuando em todos os jogos. Como ele, somente Didi e Nilton Santos.Para um goleiro, posição tão vulnerável, e um marco.
Na confusa seleção de 1966, que disputou a Copa da Inglaterra, Gylmar ainda estava entre os convocados. Mas a bursite crônica em seu braço direito o tirou das partidas apos a estreia. Manga, o seu substituto, embora bom goleiro, foi muito mal e a seleção, desorganizada ao extremo, acabou desclassificada por Portugal.
A imagem de Gylmar, porem, permaneceu intacta. Afinal, enquanto ele pode jogar, o Brasil estava no páreo naquela Copa vencida pela Inglaterra. Aos 38 anos de idade, Gylmar encerrou a carreira, ainda no auge do super time do Santos. Chegou a ser Supervisor da Seleção Brasileira, numa época em que a briga entre cariocas e paulistas pelo comando do escrete era intensa.
Gylmar também foi dono minoritário de uma revenda de automóveis Chevrolet em São Paulo, chegou a ser brevemente comentarista de radio e TV e era muito bem recebido na Federação Paulista de Futebol. Cheguei a presenciar inúmeras vezes, quando fui Vice-Presidente da entidade, dirigentes do interior que se encontravam com ele, declaravam-se seus fãs, pediam autógrafos e sempre tinham uma historia a contar a seu respeito. Normalmente, uma defesa incrível num jogo inesquecível que tinham presenciado.
Consagrado
Quando voltou da Copa do Mundo de 1958, consagrado e amado, Gylmar fez um pedido aos politicos que receberam os jogadores campeões em intermináveis recepções, festas e atos de homenagem.
Gylmar queria uma emprego publico, que lhe desse estabilidade financeira, quando parasse de jogar. Acabou atendido e trabalhou por alguns anos na Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo.
Gylmar, nesta altura, tinha sido ou se tornaria bi-campeão paulista pelo Corinthians, bicampeão do Rio-São Paulo também pelo Corinthians, outra vez Campeão pelo Corinthians no IV Centenário, nove vezes campeão paulista pelo Santos pelo qual foi também tricampeão paulista três vezes, cinco vezes campeão da Copa do Brasil, bicampeão mundial interclubes, bicampeão o mundial pela Seleção Brasileira.
E no auge de sua fama, em 1958, aclamado pela torcida, desfilando em carro de bombeiro pelas ruas de São Paulo, o que ele almejava era um emprego publico quando parasse de jogar. Nunca houve um goleiro como Gylmar. Com certeza, ao invés de provavelmente do inicio desta crônica, nunca haverá um goleiro como Gylmar.





































































































































