Nilson Ribeiro: Uma Ponte entre o céu e o inferno

Macaca prioriza Sul-Americana e agora vai disputar Série B. Vale a pena o purgatório dos torcedores?

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Jurei não comentar as causas políticas ou as jogadas obscuras de bastidores, assuntos muito mais familiares ao conhecimento de meu amigo Élcio Paiola. Nem devo escarafunchar preferências táticas, prato do dia de meu mestre Ariovaldo Izac, craque nessa seara. Prefiro a poesia. O torcedor da macaca vive uma situação ímpar. Quer comemorar um título importante, internacional, ver a macaca vencer o Lanus e escrever seu nome na história como campeã da Sul-Americana. E conquistar o direito de disputar a Libertadores.

Mas há um travo de amargura.

A campanha arrastada e irregular no Brasileiro levou o time à “Série B”. A possibilidade de levantar a taça na outra competição cria uma névoa em torno da frustração do descenso. E eu, sinceramente, torço para que a Macaca levante o título. Porque, sem tal conquista, a ressaca será muito amarga.

O Campeonato Brasileiro é difícil, mesmo nivelado por baixo. Talvez até por isso. Mesmo com um Grêmio retranqueiro como vice. Como disse Walter, o robusto centroavante do Goiás, “os times brasileiros de hoje têm muitos atletas e poucos jogadores do futebol”. E a Ponte Preta sucumbiu.
Elenco? Esquema tático? Força nos bastidores?

Sem recorrer aos inconclusivos fatores políticos, como podemos explicar que o mesmo time chegue a uma final internacional e fique em penúltimo lugar no campeonato nacional? Meu amigo alvinegro Good Wilke diria que o time foi prejudicado pela arbitragem no Brasileiro. Outro amigo, também torcedor da Ponte, o publicitário Wagner Bastos, diria que a diretoria vacilou e não contratou direito. Ainda outro prontepretano de carteirinha, Gunther Loffler, certamente vai tentar me convencer que o título da Sul-Americana é muito mais importante para o clube que a “Série A” do Brasileiro. Em resumo, explicações nunca faltarão…

Eu tenho a minha própria teoria. O fator chave é “motivação”.

Desde que me lembro, a centenária Ponte Preta disputa o Campeonato Brasileiro com um único propósito: não cair. É assim como quem vai ao hospital diretamente para se internar na UTI. Há sempre uma boa chance de fazer um campeonato razoável, conseguir se instalar na tabela naquela zona intermediária, sem disputar muita coisa e com certa folga em relação ao rebaixamento. Mas é sempre apenas uma possibilidade. Como numa UTI, a chance de sucumbir também é sempre grande, como aconteceu neste ano. É uma motivação precária, pobre, insuficiente.

Por outro lado, a disputa de um campeonato internacional como a Sul-Americana, com poucos jogos e no sistema mata-mata, me parece um desafio que se configura mais interessante e acessível ao clube, aos jogadores, à direção técnica. Como passou da primeira fase, a Ponte Preta sentiu que poderia seguir em frente. Colocou a faca entre os dentes e assim se manteve viva até agora na competição.

Se comportou de maneira impecável nas duas partidas contra o São Paulo. Fez a lição de casa no primeiro jogo e colocou o regulamento debaixo do braço para arrancar um empate e a vaga na final, num jogo sem sustos diante da torcida em Mogi Mirim. E é dessa forma que pode acabar levando a taça.

Não sou um expert em esquemas táticos. Vejo futebol como espetáculo, show. Não conheço suficientemente o Lanus, da Argentina, para dizer quem tem mais chance, em campo, de vencer o torneio. Mas uma coisa é certa. O técnico Jorginho e seus comandados sabem que esse título é a única maneira de levar algum consolo ao sofrido torcedor da rebaixada Ponte Preta.

E, se de alguma forma, jogadores, comissão técnica e direção do clube construíram juntos essa ponte entre o inferno do rebaixamento e o céu da conquista internacional, é porque de certo tinham a convicção que poderiam levar seus torcedores direto ao paraíso, ainda que com algum amargo sabor do rebaixamento na bagagem.

Por enquanto, nos próximos dias, os torcedores vão continuar roendo as unhas e sonhando. Em pleno purgatório.

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