Nilson Ribeiro: Sobre bando de loucos, arenas e religiões

Minha filha é corintiana. De tal maneira que simplesmente não consigo sentir aversão ao Timão.

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Não sou corintiano. E talvez seja o único palestrino que também não se considere anti-corintiano.
É só uma questão de amizade.

Tenho muitos amigos alvinegros, e até uma filha que se diz torcedora do Corinthians. De tal maneira que simplesmente não consigo sentir aversão ao Timão. Confesso que torci muito para que o Corinthians conquistasse aquele mundial interclubes. Foi coisa bonita de ver.

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É óbvio que alguns torcedores alvinegros superam todos os limites do bom senso e da sanidade. Tudo bem. Eles mesmos se consideram “um bando de loucos”. E realmente fazem jus ao predicado. Alguns deles são irreversivelmente fanáticos.

Todos os clubes possuem seus torcedores fanáticos. Mas no Corinthians isso parece ser a regra, não a exceção. Esse comportamento costuma causar a crítica dos demais torcedores.
Vejo nisso um tipo de desprezo que beira a inveja. Nenhum clube brasileiro possui tantos apaixonados insanos e exageradamente adoradores de suas cores e história como o Corinthians.

Há algum tempo venho meditado sobre esse assunto. Ser corintiano é quase uma religião. Não há um “Deus” declarado. Mas a própria mística do clube é sacralizada pelos torcedores.
No fundo, pessoalmente acho esse comportamento algo bobinho, diante de tantos outros desafios do mistério da vida, tão mais profundos. Mas é exatamente isso que torna a questão mais adorável.

Assim como as novelas, o sexo, as drogas, o sucesso, o poder, a grana, as diversões eletrônicas e computadorizadas, e tantas outras rotas de fuga, o futebol também se constitui numa ilusão gritante, que tende a captar a atenção e desviá-la do que realmente afeta a vida.

O futebol já foi utilizado por governos para atenuar as agendas sociais não cumpridas. Já foi ferramenta de militares – em muitos países – para iludir o povo. Já foi – e continua sendo – bolsa de investimento para enriquecimento de políticos, dirigentes, bem e mal intencionados. É ópio.

O futebol já foi comprovadamente manipulado por todo tipo de gente mal intencionada. Árbitros ganharam grana, jogadores foram corrompidos, resultados foram armados. E ainda sim, apesar dos pesares, as pessoas continuam acreditando, torcendo, vibrando, chorando, matando pelas cores de seus clubes.

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A inauguração da “Arena Corinthians” foi um capítulo à parte. Torcedores levaram suas faixas para comemorar “a casa nova”, “nossa casa”, “nosso lar”, “minha vida”… Uma arena que abriga um time e uma torcida em dias de jogo não pode ser “casa, lar, vida” de ninguém. É apenas um circo montado.

Mas essas pessoas acreditam verdadeiramente nisso. Elas precisam acreditar nisso. Como se acredita em um ou muitos deuses. Isso parece dar sentido à vida dessas pessoas. É assim que também funcionam as religiões.

Nada que se diga, nada que se prove, nada que venha a pública para desmascarar essa arapuca financeira que se tornou o futebol poderá arrefecer a paixão desse povo. É impossível demover tais torcedores de sua paixão.

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E, em verdade, tirando o fato de que isso não torna ninguém mais lúcido, sábio, ou conhecedor de si mesmo, não há nada de errado com esse tipo de felicidade. Boba, mas felicidade. Desde que a o fanatismo não se torne razão para violência e atos insanos contra a felicidade do outro.

Em tempo
Ganso foi o destaque da última rodada… É o jogador brasileiro mais inteligente da atualidade, e vai fazer falta na Copa. Insisto, apesar de respeitar as opiniões contrárias. Nossa seleção pode até ir longe nessa Copa, com seu futebolzinho morno (coisa eu realmente duvido!). Mas vamos ter que torcer muito para que Neymar seja o Romário da vez… Falta uma cabeça pensante, lúcida, inteligente.