NILSON RIBEIRO: Pato Expiatório

Atacante não deve ser crucificado sozinho pelo fiasco da temporada do Corinthians

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Quando vi pela tevê o pênalti mal cobrado por Pato, desliguei o aparelho e pensei: “coitado. Vai virar bode expiatório e pagar sozinho os pecados do time todo”. No dia seguinte as redes sociais não me deixavam mentir. Os sites esportivos e os programas televisivos faziam coro com os torcedores mais exaltados, abrindo a “caça ao pato”, sem misericórdia.

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OK. O menino foi mal. Muito mal. Um pouco pior que Danilo e Edenilson, que não foram também aquela maravilha. Mas Pato abusou. Afirmou ter treinado a cobrança daquela maneira. Mas abusou. Nem por isso é o único culpado da desastrada temporada do Timão. Vamos voltar um pouco no tempo.

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Corinthians chegou à disputa de pênaltis porque praticamente escolheu esse desfecho. Jogou na defensiva contra um time que também é especialista em se defender. Levou o jogo no zero a zero como se fosse o único resultado possível de se alcançar. Não ousou. Não tem ousado há muito tempo. Tite não é ousado. Em São Paulo, o jogo contra o Grêmio também terminou sem gols, como era de se esperar de dois times que abandonaram o gosto pelo ataque, pela ousadia, pela arte da criação que leva à vitória.

Confesso que não iria assistir ao jogo. Mas como estava sem sono, resolvi ligar a tevê para ver o segundo tempo, na certeza de um jogo chato, que me levasse rapidamente a dormir. Não deu outra. Dez minutos e eu apaguei. Jogo truncado, de meio de campo, todo mundo desarmando e ninguém criando nada de interessante. Truculência, faltas, discussões e nada de futebol. Acordei no início da cobrança dos pênaltis. E desliguei a tevê logo após a cobrança de Pato. Fui para a cama penalizado com o atacante. Era claro que iria sobrar para ele.

Meus muito queridos amigos Capitão, Lima, João Paulo Reis, Beto Rivas e Newton Cano, todos alvinegros de carteirinha, devem estar se perguntando: De quem é a culpa? Tenho certeza de que, como são muito esclarecidos, não vão jogar toda cruz nas costas de Pato. Estão fulos com o rapaz, mas sabem que ele foi apenas o responsável pela pá de cal na temporada do Corinthians.

Eu digo a eles: talvez não exista um culpado. Há um desgaste natural em tudo. Nenhum império dura para sempre. Que me dirá um time vencedor. O Tite não desaprendeu a treinar, o Pato não desaprendeu a fazer gols, o Danilo e Douglas não emburreceram de um dia para o outro, e o Sheik…. Deixemos o Sheik pra lá… Não é a ausência do Paulinho nem a contusão do Guerrero. É que no futebol, como na vida, há bons e maus momentos. E o Corinthians, todo campeão do mundo ainda ontem, experimenta a natural curva descendente que ninguém nem nada pode escapar. É a ordem natural das coisas. Está acontecendo também com o Atlético Mineiro e pode acontecer a qualquer momento com o grandioso Barcelona.

Contudo, talvez seja mesmo a hora do Corinthians renovar seu elenco e buscar sangue novo. Mas não porque seus atuais jogadores não valem mais nada. Na verdade, esses mesmos jogadores (quase todos, porque o Sheik…) vão voltar a brilhar em outras equipes, com desafios renovados e novas motivações. E o Tite, para quem gosta de futebol operário, feio, defensivo, mas eficiente, é o treinador ideal, perdendo no momento apenas para o “genial” Renato Gaúcho.
Mas para os românticos amantes do futebol-arte, o melhor a fazer é continuar assistindo à Copa da Uefa.