Nilson Ribeiro: O exemplo de Boston

As ações perversas costumam chamar mais a atenção, mas o ser humano nasceu para o bem!

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Muita coisa aconteceu no mundo esportivo durante este final de semana.

Todos ficamos órfãos da voz de Luciano do Valle, tão familiar aos nossos ouvidos e corações. O esporte certamente perdeu um dos principais ingredientes no caldeirão de emoções.

O Campeonato Brasileiro teve início e pudemos constatar que pouca coisa, muito pouca coisa mudou em relação ao último entediante torneio nacional.

Palmeirense por tradição, fiquei indignado com o futebolzinho ruim do time diante do Criciúma, e mais ainda com a péssima arbitragem que beneficiou o alviverde. Gostei de ver o São Paulo dar certo contra um Botafogo ainda muito mal formado. O Fluminense reascendeu a chama de sua torcida depois de ficar no Brasileirão no tapetão. E, olha… foi só. Atlético Mineiro e Corinthians foi ótimo pra dormir na Páscoa…

Mas o grande alento veio de longe, mais precisamente de Boston.

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Para quem não se lembra, uma bomba matou três pessoas e deixou 250 feriadas no ano passado durante a Maratona de Boston. O que se viu neste ano foi de emocionar. A cidade, sob o slogan “Boston Strong” (Boston forte), se recuperou da tragédia, deu a volta por cima, aumentou a segurança e colocou 35 mil participantes no evento, um número muito maior do que aquele do ano da tragédia. Uma superação das pessoas de bem.

Diariamente nos acostumamos a acompanhar pelas tantas mídias dezenas de atos perversos praticados por seres humanos que nos assombram, nos envergonham e nos assustam. Desde pequenos furtos, atos de covardia entre torcidas, corrupção nos postos de comando, até crimes hediondos, atos de terrorismo, guerras sem fim. Assim, olhando rapidamente para esse quadro, podemos nos enganar e achar que tudo está perdido e que a raça humana é destinada a praticar o mal.

Não é verdade.

Para um terrorista em Boston, temos milhões de bons cidadãos reconstruindo a estima da cidade, mais que isso, demonstrando que o ser humano pode ser acolhedor, pacífico, ordeiro e basicamente bom.

Conheço grandes mestres que defendem a “bondade básica” de cada ser humano, que pode ser facilmente verificada nos seus atos de generosidade, de altruísmo, de solidariedade.

Mas essas coisas costumam não dar notícia, e então ficamos com aquela impressão de que o cara do lado pode esconder uma bomba na mochila. Jamais imaginamos que ele pode, na verdade, ocultar muita poesia no coração.

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Algumas pessoas concluíram a prova de Boston aos prantos. Todas com algum bom motivo. Muitas delas não puderam concluir a prova em 2013, interrompida depois da bomba. Outras certamente pranteavam algum amigo ou parente morto ou gravemente ferido no incidente. Algumas talvez estivessem emocionadas com a demonstração de carinho da população, que se aglomerou em todo o trajeto para aplaudir os participantes, dando um recado claro: “nós estamos aqui e confiamos na bondade humana”.

Confesso que também me emocionei ao assistir daqui, de longe, essa demonstração de superação do povo de Boston e dos corredores que participaram da competição. Não importa que ganhou a medalha e os lugares no pódio. Ao final da corrida, a categoria humana fez por merecer um degrau a mais na escada da sabedoria.

Somos seres humanos. Todos enfrentamos, de uma forma ou de outra, nossas próprias confusões, nossas dúvidas angustiantes, nossos medos entremeados de algumas esperanças. Mas, eu acredito, basicamente somos bons, ainda que cambaleantes em busca dessa coisa chamada felicidade (que há alguma tempo já substituí por algo chamado serenidade).

Diz um grande mestre: “Quando sei que sou nada, isso é sabedoria. Quando sei que sou tudo, isso é amor. Entre esses dois vales, flui de algum modo a minha vida”.