Nilson Ribeiro: Futebol - teatro, ilusão e encantamento

Um tentativa de explicar à minha filha de 10 anos porque alguns torcedores brigam, se agridem e até matam

Dia desses, após acompanhar assustada pela tevê as deploráveis imagens de mais um confronto entre torcedores de dois times de futebol brasileiros, milha filhota Malula, de 10 anos, disparou: “Papai, por que essas pessoas estão brigando?”.

0002048113491 img

Dia desses, após acompanhar assustada pela tevê as deploráveis imagens de mais um confronto entre torcedores de dois times de futebol brasileiros, milha filhota Malula, de 10 anos, disparou: “Papai, por que essas pessoas estão brigando?”. Naquele hora optei por uma resposta simples e genérica: “É gente boba, minha filha”. Na mesma hora percebi que a resposta não satisfez nem a ela (que é muita esperta) nem a mim (que sou mais exigente que isso). Vai por aqui a resposta, então.

Filha minha, alguns torcedores brigam porque se esquecem de algo muito básico. Futebol é apenas entretenimento, diversão, ilusão. É como um teatro, um filme, uma novela. É ficção. Não é vida real. Mas há certas pessoas que, por não encontrarem um outro sentido em suas vidas, resolvem fazer do ato de torcer sua profissão e sua razão de viver. Então elas se esquecem (ou fazem questão de esquecer) que tudo não deveria passar de uma grande brincadeira para as pessoas se divertirem, se encantarem, se emocionarem.

0002048113491 img

Filha minha, não se engane. Esses jogadores que defendem o seu clube no campo não torcem de verdade para sempre pelo seu time. Pode até acontecer uma vez ou outra. Mas eles estão defendendo como podem seus empregos e seus salários. E se um outro time pagar mais, quase sempre eles vão embora e vão jogar, se empenhar e vibrar pelas cores do novo clube.

Como se fossem atores. Porque, na verdade, eles são apenas trabalhadores, como os técnicos, que um dia estão aqui e o outro dia estão acolá. Depois de um tempo, voltam pro mesmo time que foram escorraçados como se fossem os salvadores da pátria. É até engraçado. Porque os torcedores se esquecem que pediram para a pessoa sair e ficam gritando e festejando de novo o nome dela quando eventualmente volta.

E mesmo os jogadores se esquecem por vezes que são atores e acabam agredindo os amigos de profissão dentro de campo. Muito feio, péssimo exemplo. Isso não deveria fazer parte do roteiro dessa ficção sem censura para todas as idades.

Filha minha, os dirigentes dos times estão preocupados com suas carreiras políticas, com sua imagem, em não perder (e se puder, ganhar) muito dim-dim. Como geralmente se esquecem que tudo é uma grande brincadeira, algumas pessoas investem muito dinheiro e então, o que era pra ser diversão vira um negócio muito arriscado. E daí, acaba acontecendo fora do campo – que o pessoal de futebol chama de bastidores, igual no teatro – muitas coisas que interferem no que acontece dentro do campo. Mas alguns torcedores fazem de conta que não sabem disso e continuam levando tudo muito a sério. Como se realmente fosse sério.

0002048113493 img

Mas, minha querida, quando seu time perde, tudo bem você ficar chateada e praguejar: “Droga,puxa vida!”. E pronto. Depois disso sua vida continua igual, com seus deveres da escola, suas aulas e suas brincadeiras. Quando seu time ganha, tudo bem você ficar alegre e soltar um “eeeba, que legal!” Mas depois a vida não muda nada. Mesmo em jogos de Copa do Mundo deve ser assim. Porque as pessoas também se esquecem que essa coisa de fronteira, de limites entre países, é tudo ilusão. Estamos todos no mesmo barquinho navegando pelo universo.

Por isso, se algum amigo ou torcedor quiser discutir com você sobre futebol, saiba que é como falar de uma novela, de um livro de ficção que você está lendo. Não leve muito a sério. Por que alguns torcedores – não todos, filha, não todos -, aqueles que eu falei que fazem dessa novela sua razão de viver, por estarem muito tristes por dentro, acham que a derrota ou o rebaixamento de seu time é insuportável demais, e por isso se tornam violentos, e acabam brigando, agredindo e (parece inacreditável, mas é verdade, infelizmente, filha) até matando pessoas.

Alguns, mais covardes, precisam se juntar a outros torcedores para promover a bagunça toda. Eu estava enganado, minha filha. Não é gente boba. É gente triste, que se esqueceu que a graça de viver é muito maior do que uma camisa ou as cores de um time de futebol. Ouça seu pai: fique longe desses, filha minha, tanto quanto puder. Daí você pode se divertir com as vitórias de seu time e praguejar com as derrotas. Porque futebol nasceu para ser encanto, mágica, uma vibrante e emocionante ilusão. Mas torça sempre com um leve sorriso de quem sabe que nada disso muda o que realmente vale a pena na sua vida.