Nilson Ribeiro: Fair play versus vale tudo: o dilema do futebol brasileiro

Simular faltas, fazer cera, meter o cotovelo na cara do adversário: é do jogo?

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Os praticantes e admiradores do Rugby costumam dizer que esse é um esporte bruto praticado por cavalheiros, enquanto o futebol é um esporte de cavalheiros praticado por brutos. Certas cenas que o torcedor vê cotidianamente nos jogos do Campeonato Brasileiro – em todas as séries – ratificam completamente esse parecer. É verdade que no Brasil o jogo justo e leal nunca foi o forte das agremiações e de boa parte dos atletas.

Mas tem piorado muito. E, o que é ainda mais triste, é possível ver os maiores absurdos já nas categorias de base. Sinceramente, não vejo nenhuma solução simples ou a curto prazo para combater essa praga que devora parte da graça do nosso futebol. Talvez uma ação mais enérgica dos juízes. Mas, em certas situações, entendo que até os árbitros ficam de mãos atadas, sem poder provar que no rosto do artista caído no chão o que se vê não é verdadeiramente dor, mas apenas uma boa simulação. Mas quando flagrado descaradamente, o artista deveria ser severamente punido para servir de exemplo. Pulou na área para cavar o pênalti? Chuveiro!

Nosso Pelé, craque acima de qualquer suspeita, historicamente também distribuiu suas cotoveladas e jogadas mais violentas. E a cotovelada de Leonardo na Copa dos Estados Unidos jamais será esquecida, e marcou negativamente a carreira de um grande jogador que foi sempre muito leal em campo. Se isso pode acontecer com os craques, o que dirá da legião de voluntariosos “jogadores operários” que prolifera hoje pelos campos brasileiros?

É sabido que na Europa os torcedores não costumam poupar os enganadores de plantão. O próprio Neymar está sofrendo com sua fama de “cai-cai”. O Jogador se defende afirmando que cair, no seu caso, é apenas uma atitude “preventiva”. “Ou caio, ou quebro”, dize ele. Não vou julgar esse mérito. Não estou na pele do garoto para saber o quanto dói a botina dos zagueiros desacinturados que ele precisa enfrentar com frequência. Mas exatamente pela pressão da torcida, esse tipo de atitude é menos recorrente no velho mundo.

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Já no Brasil, cansei de ver técnico mandar jogador desabar em campo para ganhar tempo na hora da substituição, como se isso fizesse parte do jogo. “Fair play” é muito mais que jogar a bola fora de campo para que algum atleta possa ser atendido, ou devolver a bola que amigavelmente foi colocada fora de jogo. A palavra inglesa “fair” dignifica muitas coisas: leal, justo, honrado, belo, bonito, moderador…e vai por aí. De seu significado podemos imaginar que praticar “fair play” é jogar de modo leal, honrado, justo. Despencar no campo para ganhar minutos preciosos não me parece muito “honrado”. Meter o cotovelo na cara do adversário não é o que eu chamaria de “bonito”. Simular uma falta para tirar vantagem no lance fica longe de ser “justo”, ou “leal”.

O distinto amigo vai me mandar assistir tênis ou algum excitante campeonato de xadrez. Quisera eu que no futebol brasileiro houvesse uma mínima porcentagem do “fair play” tão comum nas quadras de tênis, onde o próprio adversário aponta um erro da arbitragem, oferecendo a vantagem ao oponente. Ou me surpreender com técnicos do futebol brasileiro apresentando estratégias inovadoras e inteligentes, tão necessárias para se alcançar a vitória nas disputas enxadristas de alto nível.

Não imagino, numa partida de xadrez, um dos oponentes aguardando uma distração do adversário para esconder uma torre inimiga nas mangas. Mas vejo isso todo dia no futebol. Já passou da hora de banir definitivamente dos nossos campos a tal da “Lei de Gerson” e substituí-la por um verdadeiro “fair play”, onde o resultado é decidido na bola, com a sempre bem-vinda interferência dos deuses do futebol, que resolvem, ao bel prazer, fechar completamente um gol, submeter um grande goleiro a um frango memorável, fazer o grande goleador isolar a bola debaixo do gol. Isso sim, coisas do jogo, que fazem a boa e encantadora mágica do futebol.