Nilson Ribeiro: Deuses do futebol tiraram a magia de Neymar

Sem o futebol diferenciado do craque, o Brasil é tão comum como a seleção mexicana

Os deuses do futebol são caras engraçados. Como não fazem nada de realmente vital, não salvam vidas.

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Os deuses do futebol são caras engraçados. Como não fazem nada de realmente vital, não salvam vidas, não se importam com o perrengue geral dos humanos, podem ficar por lá, se divertindo com a tola emoção dos torcedores.

Assim, acordaram mais sarcásticos que o de costume na terça-feira e decidiram que Neymar não ia jogar. Tudo bem entrar entrar em campo. Mas nada de jogar. E foi assim. O “cara” do Brasil teve uma atuação comum. Correu, tentou, chutou…. Mas sem a benevolência dos ociosos deuses do futebol, passou longe de seu melhor futebol.

E foi por isso que a Seleção Brasileira se tornou um time assim…. comum. Totalmente dependente da atuação de seu maior craque, o selecionado, sem inspiração, não conseguiu passar pelo time mexicano, taticamente disciplinado e muito motivado para não sair do campo com uma derrota.

Os deuses abandonaram Neymar Júnior contra o México. E, como sem Neymar o Brasil é, no máximo, um México, nada mais justo que um empate sem gols.Vão por aí falar que o goleiro mexicano fez grandes defesas… Não acho. Três boas defesas em bolas que foram exatamente onde o cara estava. Talvez exceção feita à cabeçada de Neymar no primeiro tempo. Mas essa também não foi “aquela” defesa. Qualquer bom goleiro poderia executa-la. Um goleiro de seleção, certamente teria a obrigação de defender tal bola.É preciso reconhecer que o Brasil tem uma séria dependência do futebol de Neymar. E talvez de Oscar, quando eventualmente ele brilha. Fora isso, temos um time bom e comum.

0002050004089 imgMuito longe da coletividade que se vê numa Alemanha, numa Holanda ou até num México, para falar dos padrões atuais. Isso é perigoso no sentido de que, coletivamente, o Brasil é frágil. Depende do brilho de sua maior estrela, da mesma maneira que Portugal depende de Cristiano Ronaldo e a Argentina de Lionel Messi.

Contudo, qualquer um desses times podem acabar coma faixa de campeão. Mas vai depender do humor dos deuses de futebol. Enquanto que Alemanha e Holanda mostraram um futebol de conjunto, onde seus craques são apenas peças de um esquema inteligente e funcional.

Também isso, da mesma forma, não permitem cravar que serão campeões. O futebol tem muitos mistério. Não foi o dia de Neymar. E é bom que ele saiba reconhecer isso. Me lembro de uma boa história vietnamita.

Um plantador de arroz, solitário, sem família ou filhos, num dia qualquer, pela manhã chama um sobrinho e diz: “Vá e avise as pessoas que os deuses me incumbiram de curar. Sonhei com isso. Diga a elas que podem vir à minha tenda.” Durante 30 anos ele curou pessoas, com ervas, imposição das mãos, sopro e oração. Um dia, depois desses trinta anos, saiu à porta da tenda e avisou o pessoal que fazia fila na sua porta: “Podem ir embora. Vão procurar outro curandeiro.

Os deuses me disseram que minha missão acabou. Sonhei com isso”. E voltou a plantar arroz, da mesma maneira que fazia antes, sem nenhuma riqueza. Só aceitava, durante os trinta anos, alimentos em troca de seu trabalho, e se algo lhe sobrava, levava para os moradores mais necessitados.

É difícil reconhecer que os deuses nos abandonam às vezes. E os deuses, muito espirituosos, tiraram o futebol moleque de Neymar no jogo contra o México. Pura traquinagem. Eles gostam dessas coisas. Baixar a bola do bonitão Cristiano Ronaldo, ou dar uma reprimenda na esquadra espanhola, campeã mundial… Depois eles podem devolver tudo. Ou não. Tudo é só uma questão de humor.

E a gente aqui… Se esgoelando, contra ou a favor da seleção, do título de campeão, do sucesso da Copa. Os deuses do futebol se esborracham de rir com nossa inocência…