Histórias Bugrinas - Maqueiros Delicados
Histórias Bugrinas - Maqueiros Delicados
O Guarani de Campinas, nos anos 60-70, tinha dois funcionários: o José Luiz e o Índio. Cabiam a eles as funções de manutenção elétrica, pequenos reparos hidráulicos, demarcar o gramado em dias de jogos e atuavam também como MAQUEIROS.
Sim, eles é que conduziam os jogadores contundidos para fora do gramado para que pudessem ser atendidos pelos médicos. Em situação normal, os dois eram por demais eficiêntes e até delicados com os atletas. Porém, quando se tratava de jogador que queria fazer “cera” para prejudicar o Bugre, o tratamento era totalmente ao contrário: eles colocavam a padiola no chão, pegavam o atleta, levantavam até uma certa altura e soltavam.
Depois, o maqueiro que ficava com a cabeceira, dava um “bico” na cabeça do jogador com o bico do tênis. Se o jogador tivesse longos cabelos, o maqueiro pisava sobre o cabelo solto e bruscamente levantava a maca… Temendo novas agressões, raramente o jogador chegava até a lateral do campo. Ele pulava da maca e saia correndo. Jamais o jogador que recebia os “carinhos” dos maqueiros bugrinos, voltava a simular contusões.
MINGO, O QUERIDO DO ARMANDO
Mingo era um ponteiro esquerdo do Guarani que tinha uma pancada muito forte de perna esquerda, embora ruim de pontaria. Não havia goleiro que não pedia barreira em suas cobranças de faltas. Quantos jogadores, na barreira, ele derrubou…
Quantas bolas ele mandou para longe… muito longe do gol adversário. O Mingo, boa pinta e malandro como ele só, em um jogo apitado pelo Sr. Armando Marques, numa disputa de bola tromba com um zagueiro duas vezes maior que ele. Embora tenha sido um lance sem nenhuma maldade e corriqueiro, o Mingo levou a pior e saiu do lance com o nariz sangrando. Olha para o árbitro e díz:
“Meu querido, veja só o que aquele cavalo fez comigo, veja…” O Armando olha o sangramento e o tranquiliza:
“Deixa comigo, meu amor…” e expulsa o zagueiro que nada havia feito.
JOGADOR PRESO
Aliás, o Sr. Armando Rosa Castanheira Marques (foto), o melhor árbitro de futebol que o Brasil conheceu, jamais entrou em campo para arbitrar sem antes fazer a barba, tomar um belo banho e se perfumar. O cabelo muito bem penteado com gel. A chuteira devidamente engraxada. Seu uniforme era impecavelmente limpo e bem passado.
Tinha fina educação e sempre tratava as pessoas de “senhor”, fossem jogadores, diretores, técnicos, maqueiros, gandulas, jornalistas e radiaslistas.
O Guarani tinha um jogador tratado de “Rei da Capoeira”. É que ele não pensava duas vezes em dar um “rabo-de-arraia” em quer que fosse. Em um jogo no Brinco de Ouro, esse jogador, no seu primeiro lance, deu uma “voadeira”, que na luta livre é chamado de “drapp”, no jogador adversário.
Armando Marques, incontinente pára o jogo, vêm até a lateral do campo, chama o chefe do policiamento e dá ordens de prisão ao atleta bugrino. Ao final do jogo díz o Armando: “O lance não foi para advertência e muito menos expulsão: Foi mesmo caso de prisão”.
ÁGUA PARA TEMPERAR…
O Guarani tinha um ponta direita chamado Lindóia. Tratava-se de um garoto bastante humilde, com pouquíssima instrução, mas de grande promessa futebolística. Num domingo, o Guarani jogaria contra a Portuguêsa Santista, em Santos.
Depois do último treino, antes da viagem, Lindóia pergunta para o
goleiro Tobias (vejam só para quem ele foi perguntar) se realmente a água do mar era salgada. Tobias confirmou e pediu que ele levasse um garrafão vazio para trazer água do mar para a Sra. sua mãe, em Minas, preparar saladas.
Na Pensão Paulista, onde o Guarani se hospedou, de frente para o mar, no bairro Gonzaga, logo depois do café da manhã, humildemente, segurando um garrafão de cinco litros na frente de todos os companheiros, Lindóia pede permissão ao técnico Aparecido para ir até o mar encher o garrafão de água salgada para sua mãe temperar saladas.
“É só atravessar a avenida, eu encho o garrafão e volto, seo Aparecido”, disse Lindóia. Foi uma gargalhada só. Aparecido, técnico de grande vivência e louco para saber o autor da brincadeira maldosa, chamou Lindóia de lado e explicou que ele havia sido alvo de uma brincadeira maldosa por parte do Zé Roberto, ou foi o Parada? perguntou.
“Não foram eles não, senhor. Foi o Tobias”, entregou.
Na frente de todos, ainda na mesa do café, Aparecido falou o bicho para o goleiro, exigindo mais respeito com os novatos.
Lindóia, ainda neste ano, arrebentou como ponteiro direito, tendo sido considerado um dos principais jogadores formados na escola de base do Brinco de Ouro, ao lado de Flamarion, Washington, Ricardo Coscorão, Alfredo, entre outros tantos revelados pelo grande Clarindo Constantino, o glorioso Godê. Depois de dispensado pelo Guarani, foi para a Portuguesa de Desportos, onde em pouco tempo entre outras descobertas revelou Ivair, o Príncipe, que além da Lusa, jogou pelo Corinthians e Seleção Brasileira. Ivair foi considerado pela imprensa , o novo Pelé.
Nesta época o Guarani mantinha sempre três times: o amador, o aspirante e o profissional. A cada dois anos havia a seguinte promoção: os profissionais eram vendidos, os aspirantes subiam para o profissional e os amadores passavam a aspirantes. Devo lembrar que nessa época não haviam empresários e os jogadores, sempre os melhores, eram vendidos para times de São Paulo e/ou Rio de Janeiro.
Um ou outro atleta era negociado com clubes do exterior. O Guarani era obrigado a vender para fazer “caixa” e com o dinheiro arrecadado eram realizadas benfeitorias no estádio, alojamentos, cozinha, refeitórios, centro de treinamento, estudos dos atletas e no parque social do clube. Ah!, tem mais: a cada três meses era publicado um balancete financeiro demonstrando arrecadações e gastos. Eram outros tempos!!!.
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