Guarani, o Time dos Sonhos!

Campinas, SP, 25 (AFI) – Na minha época de rádio, o integrante da equipe esportiva, invariavelmente, tinha que exercer todas as funções pertinentes: repórter, repórter de campo, comentarista e narrador. Assim, acredito, todos tinham o mesmo conhecimento da área em que trabalhavam.

Hoje, com o comodismo em função da facilidade de comunicação, comentarista se dá ao luxo de chegar no último minuto no estúdio para participar do programa. É que de manhã ele já viu, pela televisão, tudo o que aconteceu na noite anterior e o que está programado para o hoje.

Na minha época era diferente. Jornais de São Paulo chegavam em Campinas lá pelas 10 da manhã. Televisão tinha um acanhado noticioso que pouca atenção dava ao esporte. Os jornais de Campinas não circulavam as segundas e muito menos nos dias seguintes aos feriados.

Trabalho duro nos idos 60
Assim, notícias você tinha que ir buscar na fonte, quando não queria usar o “Gillete Express”. Às vezes, uma passada pelo Éden Bar ou Giovannetti, já resultava em alguns “furos”, como se diz vulgarmente. Não era fácil fazer rádio no final dos anos 60 e começo da década de 70. O cara tinha que ser muito bom. Lembram de Flávio Araújo, Luis Augusto Maltoni, Pedro Luis, Mário Moraes, Edson Leite e centenas de outros diferenciados ?

Eu, particularmente, acompanhava mais o Guarani. Que estrutura que tinha o Verde e Branco! O técnico dos juvenis, Clarindo Constantino, o popularíssimo Godê, sempre com sorriso de felicidade, anunciava nova descoberta. Lembro-me bem quando ele chegou e me disse:

“Fauzi, anote ai. Consegui um quarto zagueiro que vai dar o que falar”.

O jogador a que ele se referia era Guassi, um belo zagueiro central que veio de Santa Bárbara do Oeste e que, em pouco tempo, já estava no time de cima. Nem bem se firmou como titular, já havia Palmeiras, Santos e Portuguesa querendo contratá-lo. O Godê era um talento na descoberta de grandes craques.

Revelações de Godê
O Godê, que mais tarde foi para a Portuguesa de Desportos e lá, em pouco tempo, descobriu Ivair, o Príncipe, revelou no Guarani varias dezenas de craques, todos de altíssimo valor, tanto profissional como moral.

Lembro-me bem de Alberto, um extraordinário quarto zagueiro; do Flamarion, um dos melhores volantes do futebol brasileiro; Alfredo, o meia esquerda que se fosse hoje, era jogador para ser vendido por milhões de euros. Revelou também Lindóya, rápido ponta direita de dribles rápidos.

Entre outros, talvez o mais famoso, que chegou a ser convocado para a Seleção Brasileira, foi Washington, atacante extremamente habilidoso que foi comparado a Pelé por vários motivos: era crioulo, tinha as feições do “Rei”, veio de Bauru e marcava gol pra diabo. Infelizmente parou cedo.

Talvez Washington tenha parado por não ter sido preparado para a fama. O prestígio e o glamour precoces, acredito, mexeram demais com a cabeça do menino. Quando foi convocado para a Seleção Olímpica, em 1972, nos vestiários do Palestra Itália, antes do jogo Palmeiras e Guarani, havia um batalhão de repórteres querendo apresentar Washington ao Brasil.

Lembro-me bem de Pereira Neto, o professor dos narradores, para mim um dos melhores locutores esportivos que já passou pelo rádio campineiro quando dizia:

“Esse menino precisa ser preparado… estão jogando muita carga nas costas desse garoto… nós da imprensa ainda vamos “matar” esse jovem craque…”, profetizava Pereira Neto.

Pereira Neto estava certo
Pereira Neto, o grande narrador, não errou. Washington foi uma das maiores promessas depois de Pelé e, por não ter tido ninguém para orientá-lo, teve a carreira mais curta que um craque possa ter. Foi uma pena.

Nessa época a que me refiro, o Guarani sempre tinha o time titular disputando títulos e outro, o amador, com jogadores jogando juntos há mais de dois anos, preparado para ocupar o lugar do time principal. Infelizmente, hoje, para os torcedores bugrinos só resta o saudosismo.

Que pena! Como é que conseguiram acabar com um clube de rico patrimônio, de grandes tradições, querido por todo o Brasil, que chegou a ser campeão brasileiro, tanto na Taça de Prata como na Taça de Ouro. O que é pior, a situação só vai ser resolvida se o estádio, que está à venda, for vendido. Entretanto, nem comprador existe. Então, o único jeito é viver relembrando os grandes craques e as grandes conquistas.

DO INTERIOR DA BAHIA
Wallace P. Teixeira, hoje vivendo no interior da Bahia, nos escreve dando mais detalhes do caso Rui Rei e, aproveita, para citar mais nomes que comprometeram a carreira do atacante pontepretano no fatídico jogo contra o Corinthians, em 1977.

Com sua autorização, enviei sua correspondência ao nosso editor Elcio Paiola que a publicou, na íntegra, na seção “Grito da Galera”, aqui mesmo no nosso FUTEBOL INTERIOR.

De todas as minhas colunas publicadas aqui no FI, acho que o caso Rui Rei foi o de maior repercussão. Manifestações vieram do Brasil inteiro, inclusive uma da Holanda. O que chama atenção é que todas as manifestações isentam Rui Rei no episódio.