Futebol, homofobia e corrupção!
Por alguma razão insólita e incompreensível entre gente supostamente sensata, as orientações sexuais ainda representam tabu por aí. Mas a corrupção corre solta.
O futebol masculino (porque o feminino há muito superou essa bobagem) ainda é um forte bastião da heterossexualidade, que não permite orientações sexuais coloridas mas está contaminado pela pornografia da corrupção.
Não tenho na memória muitos casos de revelações homossexuais no nosso futebol. Sempre houve aqui e ali um comentário sobre esse ou aquele jogador. Árbitros tivemos alguns. “Margarida” um ícone. Nesta semana fui surpreendido mais uma vez com uma dura reação da parte conservadora da sociedade à nova campanha de “O Boticário” para o Dia dos Namorados. O vídeo mostra diversas formas de casais, entre eles, alguns homossexuais. Imediatamente algumas pessoas criticaram a campanha. Até agora a empresa está se mostrando firme em manter a campanha, o que, pessoalmente, acho uma posição coerente com seu conceito de modernidade.

Conheço pessoas muito próximas, muito queridas, e com visíveis traços homofóbicos. Teimo em acreditar. Buscam na religião, na Bíblia, em manuais de bons costumes e até em tratados de biologia seus argumentos contra a orientação sexual das pessoas e a formação mais democrática das novas alianças familiares.
Eu juro que tento compreender. Até entendo o medo dessas pessoas. Me solidarizo com essa falta de chão quando as mudanças nos assustam e, por vezes, vão além da nossa compreensão. Mas negar ao outro o direito de ser o que sua natureza lhe pede é negar-lhe a possibilidade de ser feliz. E neste ponto eu não abro mão. Que cada um seja feliz ao seu modo, desde que não impeça a felicidade do outro.
Meus amigos gays não me pedem para ser gay. Meus amigos (e minhas amigas) gays são generosos, temperamentais, solidários, mesquinhos, lúcidos e confusos como eu sou. Passam por dias em que a chuva é linda e outros em que o sol não é animador, como eu passo. Eu os amo com toda força de meu amor, da mesma maneira intensa como quero ser amado pelos meus pares. E quero muito que sejam felizes com suas escolhas. Não há Bíblia, nem religião, nem manual de Família e Propriedade que me faça mudar esse respeito, essa amizade, esse amor. Até porque, se Deus é contra sua criação eu sou contra esse Deus. Fico com a criação.
Meu Deus é muito maior que isso. Quero falar dele. Meu Deus é o Deus do Amor. Não escolhe esse ou aquele para ser amado, como a chuva que cai por todo canto. Meu Deus não exclui nenhum excluído. Nem por opção sexual, nem por cor da pele, nem por orientação religiosa, nem sequer por ter errado perante a sociedade e estar agora dentro de uma cela de prisão. Meu Deus faz apenas um convite: ame. Ame primeiro a você mesmo para que possa ter algo para distribuir. Ninguém pode dar do que não tem. Um coração sem amor e compaixão, sem lucidez e acolhimento, um coração preconceituoso e temeroso não tem muito o que semear, a não ser preconceito, medo, intolerância, ódio, amargura. Esses precisam da luz. E a raiz da palavra “Deus” é “dia” que é “luz”. Deus é aquilo que não vemos mas nos faz ver tudo.
Pois bem. O futebol masculino (porque o feminino há muito superou essa bobagem) ainda é um forte bastião da heterossexualidade, que não permite orientações sexuais coloridas mas está contaminado pela pornografia da corrupção, do poder sem limites, dos acordos perversos e ilegais sob o manto das grandes entidades que comandam o esporte. Isso sim uma vergonha a ser combatida. Isso sim uma falta de decoro e ética que deveria ser amplamente discutida e investigada até o último ladrão pagar pelos seus desmandos. Mas é bem possível que vejamos muitos atletas no armário ou sutilmente dispensados por seus clubes antes de vermos na cadeia esses dirigentes moralistas que deslavadamente dividem a grana ilícita sob as barbas da justiça brasileira (e internacional, como ficou provado no episódio de corrupção da Fifa).

Quanto a mim, prefiro as cores do arco-íris que representa os movimentos a favor da livre orientação sexual, ou o rosa do árbitro Margarida, à mortalha escura e triste dos engravatados ladrões da cúpula do futebol.
Se Deus é brasileiro, ele está estarrecido com nosso futebol. E, como é “Amor”, certamente está envergonhado, não com nossos amados e suas orientações sexuais, mas com o preconceito de quem está perdendo, de goleada, para o bom senso.





































































































































