Futebol Feminino: Mesmo jogando bem, Seleção é derrotada

Campinas, SP, 24 (AFI) – Ainda Desfalcada de quatro das suas principais jogadoras, a Seleção Brasileira de Futebol Feminino voltou a encontrar o adversário que lhe-roubou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, e acabou derrotada pelo placar de 2 a 0. Lilly, numa cobrança perfeita de falta aos 58 segundos do primeiro tempo e Wambach, de cabeça, aos 17 minutos, anotaram os gols da vitória Norte-Americana.

O jogo
No primeiro tempo, o domínio foi das meninas do Tio Sam, que tinham no entrosamento sua principal virtude, trocando passes com velocidade e precisão que causavam sérios transtornos à equipe brasileira. Destaque para o jogo seguro da zaga brasileira, com o trio formado por Tânia Maranhão, Aline Pellegrino e Renata Costa, além de três defesas sensacionais da goleira Andréia, que somente não foi perfeita por ter sido surpreendida na ótima cobrança de falta da veterana Lilly, no início da partida.

No segundo tempo, o Brasil foi outra equipe. O técnico Jorge Barcellos retirou a ala Michele, que vinha sendo infernizada pelas rápidas atacantes adversárias e deslocou a experiente meia Maycon para a posição, anulando completamente o setor direito do ataque dos Estados Unidos. A volante Ester, craque revelada pelo Santos FC e que atualmente defende o CEPE/Caxias, deixou o banco para exercer a função que Maycon exercera na primeira etapa, fechando o meio campo, e marcando com precisão.

O Brasil tomou então as rédeas da partida, criando nada menos do que sete oportunidades de gol. Formiga e Dani Alves pelo meio, e as alas Simone jatobá e Maycon passaram a levar nítida vantagem sobre as marcadoras, e o Brasil acabou esbarrando na competente e veterana goleira Scurry na busca pelo empate.

A atacante Kátia Cilene foi outra figura importante em campo, ajudando na marcação e sempre prendendo duas marcadoras adversárias ao seu redor, até ser substituída pela habilidosa atacante Grazielle, pertencente à equipe do Botucatu, aos 17 minutos da segunda etapa. Grazi acabou se contundindo sete minutos depois, e foi substituída pela atacante Maurine, outra atleta do CEPE/Caxias. A zagueira Aline Pellegrino, atleta de salto, também sentiu uma contusão muscular na segunda etapa, e foi substituída por Bagé, atleta de Botucatu. Dos clubes brasileiros, o Saad/Bioleve contou com o maior número de titulares, cinco: A goleira Andréia, a zagueira Tânia Maranhão, as meias Maycon e Formiga, e a volante Daniela Alves. O Lyon, da França, teve duas atletas em campo, a atacante Kátia Cilene e a ala Simone Jatobá.

A Seleção Brasileira inicia o retorno ao Brasil na noite deste domingo, seguindo para Caldas Novas, onde encerra a preparação para o Pan, já com as presenças de Marta, Pretinha e Rosana, que não foram liberadas pelos seus respectivos clubes para a partida diante dos Estados Unidos. Já a zagueira Mônica continua em Araraquara o trabalho de recuperação pela cirurgia no joelho.

Crianças americanas de verde e amarelo, churrasco no estacionamento e patrocinadores presentes

O Futebol Feminino nos Estados Unidos é definitivamente um programa para toda a família, levando aos Estádios milhares de crianças acompanhadas dos pais, avós e irmãos mais velhos. O Giants Stadium recebeu um publico de quase 17 mil pessoas neste sábado, 40% formado por crianças de idade inferior a 14 anos de idade. A tradicional torcida brasileira, formada pelos imigrantes que buscam na América do Norte uma vida melhor também se fez presente, mas acabou superada em número e empolgação por uma entusiasmada torcida infantil, formada em sua maioria por crianças loiras, de olhos azuis e que não fala uma única sentença em Português.

Centenas de crianças americanas levaram cartazes, faixas e bandeiras para apoiar as craques que aprenderam a amar na extinta WUSA, a Liga Profissional de Futebol Feminino dos Estados Unidos, que promete voltar em novo formato na temporada 2008. Kátia Cilene, Formiga e Daniela Alves são os ídolos destes pequenos e orgulhos fãs, que gritavam “Go Brasil, Go”, algo parecido com o avante Brasil dos anos 70. O nome da atual embaixadora da FIFA Sissi, também era lembrado, apesar dela não vestir a camisa do Brasil desde o ano 2000, nas Olimpíadas de Sidney.

Com 100% dos espaços publicitários vendidos, e 17 mil torcedores que pagaram entre 40 e 180 Reais por um ingresso, a partida arrecadou um valor bruto superior a um milhão de dólares. No intervalo entre o primeiro e o segundo tempo, a Confederação Americana de Futebol levou ao Gramado os jogadores da Seleção masculina sub-20 para que pudessem ser apresentados e ovacionados pelo publico, já que na preliminar conquistaram uma difícil vitória sobre o Chile, por 2 a 1, mas como o publico chegou apenas para o jogo das meninas, os marmanjos tiveram que pegar uma carona no sucesso das mulheres para receber os tão desejados aplausos.

Durante a preliminar, muitas famílias preferiram permanecer no amplo estacionamento do Giants Stadium para preparar um churrasco no melhor estilo Norte-Americano, regado ao tradicional molho barbecue e muito refrigerante. Na saída, os patrocinadores tinham várias campanhas direcionadas aos torcedores, anunciando carros, cartões de crédito, marcas esportivas, bancos, cosméticos e sucos dentre uma grande variedade de produtos. Todos investindo de maneira digna na saudável opção da mulher pela prática do futebol.

No Brasil, ao contrário, a maioria das agências de publicidade torce o nariz quando recebe alguma proposta relacionada ao futebol feminino. Perto de grandes competições, como o Pan e as Olimpíadas, a exposição de mídia melhora como conseqüência direta da competência e talento das nossas craques, que fazem desta a única modalidade coletiva brasileira a alcançar três semifinais olímpicas consecutivas. Neste quadro, surgem pessoas que num gesto que poderia ser definido como oportunista, resolvem associar determinadas marcas à modalidade, sem, entretanto fazer qualquer investimento significativo para a melhora das condições de vida e trabalho das nossas craques.

No Campeonato Estadual promovido pela Secretaria de Esportes, turismo e Lazer do Estado de São Paulo, determinada empresa teve sua marca estampada em Painéis Estáticos e calções de alguns clubes, em troca de uma verba inferior a 300 Reais por partida disputada durante a primeira fase. Clubes tradicionais, como o Saad/Bioleve, se recusaram terminantemente a utilizar tal marca, já que para sobreviver necessitam de investimento, e não esmolas. No caso do Saad, é necessária uma verba que beire os R$ 60 mil Reais por mês, investimento esse que também é almejado e merecido por equipes estruturadas e competentes como a Ferroviária, agora apoiada pela Usina Maringá, o CEPE/Caxias, auxiliado pela Petrobrás, e o Santos FC, que vem realizando um bem sucedido e necessário trabalho de renovação nas mãos do competente técnico Kleiton Lima.

Passa pelo poder de decisão na escolha dos produtos e serviços pelas donas de casa brasileiras, em supermercados, postos de gasolina, e até mesmo salões de beleza, o futuro do futebol feminino deste País. Neste momento, os principais clubes da modalidade se abastecem nos postos Petrobrás, e consomem suco, água e isotônicos bioleve, adoçados com o açúcar da usina Maringá. Como se pode notar, ainda falta a participação dos fabricantes muitos itens presentes no cotidiano da mulher brasileira para um apoio digno a esta e outras modalidades desportivas. Se já temos onde abastecer, falta o apoio da indústria automobilística, por exemplo, que produz modelos voltados para o público feminino, mas não investe um único centavo no futebol das nossas meninas.

Vale lembrar que para manter o futebol feminino mais competitivo do mundo, cada clube de ponta dos Estados Unidos tem um mínimo de oito patrocinadoras, enquanto a maioria absoluta das equipes brasileiras não tem nenhum. Para não culpar apenas os homens, vale perguntar o que pensam as grandes executivas e empresárias brasileiras, que não destinam recursos disponíveis no mercado ao futebol feminino.