Futebol de São Paulo precisa ser contado antes e depois do inovador FARAH
Astuto, gerou receitas jamais vistas na FPF, construiu uma sede moderna e amparou os clubes do INTERIOR
Eduardo José Farah cumpriu sua parte.
Doente há vários anos e internado há meses, seu estado de saúde se agravou e os médicos informaram à família a algumas semanas que, agora, só um milagre poderia salvá-lo.
O que é inegável, porém, é que há um futebol paulista antes e depois de Farah.
Farah; Federação tinha vida…Nos seus 15 anos de mandato, de 1988 a 2003, Farah valorizou ano a ano e cada vez mais, o Campeonato Estadual que, quando assumiu a FPF, substituindo José Maria Marin, dava os primeiros sinais de decadência.
No poder, Farah, que havia sido presidente apenas por um mandato-tampão no Guarani, de Campinas, na década de 60, surpreendeu e reinventou o Campeonato Paulista.
Renovou-o, devolveu-lhe a importância dos velhos tempos e mostrou como um dirigente pode ser criativo e eficiente. Os clubes paulistas nunca ganharam tanto dinheiro como na era Farah.
Os clubes grandes, estes então passaram a ganhar cotas fixas e obter mais receita regionalmente do que no Campeonato Brasileiro.
CORAGEM DE PEITAR TEIXEIRA
Ambicioso politicamente, Farah sonhou em chegar à presidência da CBF e ganhou com isso a antipatia de Ricardo Teixeira, o genro de João Havelange que foi colocado no cargo unicamente pela vontade do sogro.
Na prática, a sombra de Farah fez com que Teixeira tentasse de todas as formas asfixiar o Campeonato Paulista, diminuindo-lhe as datas, negando-lhe todo o tipo de apoio, tentando isolar politicamente Farah das demais Federações Estaduais, ameaçando com represálias quem dele se aproximasse.
Farah reagiu e, não se sabe como, dentro deste cenário adverso, fez com que o Campeonato Paulista ficasse ainda mais atraente a cada temporada.
Em 1995 vendeu o naming rigths (quando ninguém ainda utilizava esta expressão) do Campeonato Paulista por inacreditáveis 45 milhões de reais para a VR. Corrigido pelos índices oficiais e considerando a inflação do período, isso significaria hoje mais de 100 milhões de reais.
E ainda negociou pela primeira vez os direitos de transmissão em separado para as Tvs abertas e por assinatura. Vendeu também o uso da bola oficial, primeiro para a Penalty, depois para a Topper. Negociou em bloco os direitos de placas nos estádios.

A FPF, que vivia antes de Farah num prédio sombrio, escuro e mal conservado da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, transformou-se numa máquina de gerar receita, tendo como único apelo um campeonato reduzido e disputado em menos de três meses de competição.
Farah construiu a nova sede da Federação Paulista de Futebol num moderno edifício, muito melhor que o anterior, localizado junto à Avenida Marquês de São Vicente, na Barra Funda.
Agora pense numa inovação dentro do espetáculo futebol. Pensou? Farah a realizou.
As ações que “especialistas” modernos em marketing esportivo hoje em dia sugerem, se assemelham a propostas pueris, mal acabadas e ineficientes, diante do que a FPF fez nos 10 anos da gestão Farah.
INOVAÇÕES JAMAIS VISTAS
Animadoras de torcidas, show de cantores famosos,
recriou o “álbum de figurinhas”, dez bolas nos jogos, combo-lanche;
implantou numeração fixa nas camisas, introduziu o spray nas barreiras, atualmente usado em todo o mundo, testou dois árbitros e naquela época já queria
introduzir os meios eletrônicos para dar maior exatidão em campo…e muito mais
Pense, repito, numa atração dentro de um estádio, capaz de atrair ou divertir o público. Farah a implementou.
Ele trouxe para os estádios paulistas as animadoras de torcida, os shows artísticos, com cantores famosos antes e no intervalo das partidas, o que praticamente acabou com a violência entre as torcidas dentro dos estádios.
E mais: agregou às entradas para jogos, o combo de ingresso/vale-lanche-bebida/vale transporte. Atraiu para a promoção um gigante como a Coca-Cola, que a bancou e barateou com isso o programa para quem levava os filhos aos jogos.
Implantou, pensando no geral e não no detalhe, os bolsões de estacionamento, que impediam o engarrafamento de automóveis na porta dos estádios e facilitava a evacuação no final das partidas.
Promoveu a venda antecipada de ingressos, que diminuiu enormemente a evasão de renda. Determinou a proibição da venda de ingressos em dias de jogos. Com isso acabou com as filas em frente as bilheterias que permaneciam fechadas nestas datas e o acesso aos estádios tornou-se mais racional e tranquilo.
Proibiu as bandeiras com mastros das torcidas organizadas que se transformavam em verdadeiras armas de guerra das mesmas.
Introduziu os bate-bate de plástico, inofensivos, trazidos como absoluta novidade do Japão, e os ofereceu de graça às torcidas. Hoje, o apetrecho é utilizado largamente nas competições de voley, como se viu neste último domingo na partida final do campeonato brasileiro feminino, entre as equipes do Rio de Janeiro e Sesi-São Paulo.
Farah trouxe de volta o álbum de figurinhas do Campeonato Paulista.
Colocou, pela primeira vez no mundo, dez bolas em campo e aumentou o tempo médio real de jogo. Criou as gandulas femininas.
Implantou a numeração fixa nas camisas, o nome dos jogadores nos uniformes. A parada técnica. Os dois árbitros em campo. O anúncio com a placa-eletrônica do tempo de acréscimo nas partidas, que deixou transparente a cronometragem das mesmas.
Acabou com o histórico e até então insolúvel problema das barreiras, que se movimentavam na cobrança de faltas, com a introdução do spray demarcador do gramado, hoje utilizado em todo o mundo.
HAVIA VIDA E ENERGIA NA SEDE DA FPF
Na gestão Farah existiam seis divisões e seis Campeonatos Paulistas disputados concomitantemente: Séries A1, A2 e A3; Séries B1, B2 e B3. Todos os clubes destas séries recebiam cotas em dinheiro, bolas e alguns materiais para treino. O futebol paulista era disparado o melhor, o mais desenvolvido do país.
Na sua gestão, os clubes paulistas foram cinco vezes campeões brasileiros. Nos outros cinco foram vice-campeões. A hegemonia era ampla. Enquanto São Paulo conquistou 50% dos títulos no período, os outros 50% foram distribuídos por equipes de vários estados: Rio, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais.
Em 2001 Farah investiu no futebol feminino. Deu apoio às equipes, realizou um draft, vendeu a transmissão para a TV, tentou alavancar esta modalidade. Novamente, porém, a CBF implicou e até hoje o futebol feminino vive à mingua.
Sua relação com a imprensa nem sempre foi a melhor. Do Portal Futebol Inferior, muitas vezes, ele discordou, mas jamais pediu que eu, seu Vice-Presidente de Marketing e seu diretor mais próximo nos últimos anos, interferisse a seu favor editorialmente ou aliviasse uma crítica.
Por mérito de sua administração, ao final de sua gestão, quando ele já havia deixado a FPF, o Portal FUTEBOL INTRIOR lhe rendeu uma homenagem e considerou o saldo de seu trabalho extremamente positivo. Foi um Editorial corajoso e desassombrado.
Farah já estava fora do poder e não havia motivo para agradá-lo, a não ser o reconhecimento pelo que tinha feito de bom.
FEDERAÇÃO NA TV EM REDE NACIONAL
A Federação Paulista de Futebol tinha um programa semanal de uma hora de duração, transmitido em duas redes nacionais (Rede TV! e Rede Vida de Televisão) e apresentado por, nada menos, que Cesar Filho e Patrícia de Sabrit.
Num domingo de maio de 2002, o programa transmitido pela Rede TV!, das 12 às 13 horas, deu pico de onze pontos de audiência, com 30% de market share, recorde absoluto da emissora até hoje.
Ainda há mais, porém estas lembranças parecem suficientes para mostrar a diferença de Farah e de atuais dirigentes.
Como qualquer pessoa, Farah também tinha seus defeitos. Era temperamental, de difícil convivência. Mas submetia todas as suas decisões a um Conselho Arbitral e a sua diretoria, embora tivesse um poder de convencimento que fazia com que ele jamais fosse vencido nestes Foruns.
Como dirigente esportivo ligado ao futebol foi, sem dúvida, o mais brilhante e profícuo que este país já teve.
Abandonou a presidência da FPF quando ainda tinha três anos de mandato pela frente, em setembro de 2003.
SAÚDE O AFASTOU DA MAIOR PAIXÃO
Uma operação no cérebro, feita em sigilo absoluto, revelada pela primeira vez neste artigo do Portal FI foi decisiva para seus afastamento. Anteriormente, ele já tinha tido duas crises, uma delas durante uma festa da FPF, em pleno Palace, casa de shows de Moema.
Por uma casualidade, com as luzes apagadas, ele pôde ser socorrido e levado para o Hospital, sem que ninguém se desse conta do ocorrido. Para todos os efeitos, Farah tinha ido para casa mais cedo. A sua condição de saúde, no entanto, só tendia a piorar dali para a frente. O tratamento em sua residência e o abandono do cargo na FPF eram irreversíveis. Foi o que aconteceu pouco depois.
Farah ainda participou como comentarista das primeiras edições do Programas Estação Futebol, clássico das mesas-redondas, segunda-feira à noite, pela Rede Vida de Televisão. Ele formava ao lado de Juarez Soares, Dalmo Pessoa e Orlando Duarte, um time de comentaristas inigualável. Eu tive o prazer de comandar o programa, tendo ao meu lado, a doce Patrícia de Sabrit.
No inicio de 2004, Farah encerrou de vez suas atividades públicas. De lá até hoje, lutou contra a debilidade, cada vez maior, de sua saúde. Recolheu-se inteiramente e viveu, lúcido, mas sem sair de casa, ao lado de sua fiel companheira, Josefina, pois a dificuldade motora foi se acentuando até meados do ano passado. Eu e Paulo Garcia, presidente da Kalunga, que também foi seu Vice-Presidente na FPF, o visitamos algumas vezes em sua residência, na Chácara Monte Alegre, na zona sul de São Paulo. Fomos dos poucos amigos que ele recebeu.
Internado desde o final de 2013, Farah encerrou a fase mais crítica de seu calvário.
Ele foi extremamente ativo enquanto atuou à frente da FPF.
Nos seus anos de isolamento, porém, não se ouviu dele uma só palavra contra quem quer que fosse no mundo do futebol, um palco em que brilhou, sempre, como estrela de primeira grandeza.





































































































































