Flávio, o Central artilheiro
Flávio, o Central artilheiro
Nos anos 60, a Votuporanguense era uma das melhores equipes de futebol do Estado de São Paulo, chegando a disputar, com o XV de Piracicaba, no Pacaembu, a decisão da 1ª. Divisão do futebol, cujo vencedor (que foi o XV) ascenderia a Divisão Especial. Aliás, até hoje, há controversia sobre a derrota da Votuporanguense. Em conversa com o Diretor de Cultura de Votuporanga, Jorge Xavier, eu até lhe disse que, naquele ano, o caldeirão ferveu em Votuporanga envolvendo gente grossa que mandava. Prá falar a verdade, é bom deixar esse assunto de lado porque a coisa ainda poder voltar a ferver. Era na Votuporanguense que jogava o zagueiro central Flávio, irmão do Ditão, central do Cortinthians. O Flávio era manhoso, malandro e bom vivã, claro que tudo no bom sentido. Cada vez que o time ia jogar o Flávio arrumava uma desculpa: joelho doendo, dor de cabeça, mal estar, tontura … Não, não era para fugir do compromisso.
O que ele queria mesmo era chamar a atenção, ser bajulado, paparicado, talvez um agrado financeiro. O negrão, apesar dos seus dois metros de altura, era um crianção. O Flávio, além de zagueiro central, descia para ajudar o ataque, saltar de cabeça nos escanteios e cobrar faltas. Tinha um pontente chute com a perna esquerda. Em vários campeonatos da primeirona ele foi o artilheiro, tanto que ficou três meses em testes no São Paulo F.C. e, só não ficou em definitivo por que, no Maracanã, ele cobrou uma falta do meio de campo e a bola passou longe do gol adversário. Mário Moraes, o melhor comentarista esportivo que existiu no rádio até os dias atuais, pela Bandeirantes, disse: “Minha Nossa Senhora. Pela primeira vez na história do Maracanã, um jogador consegue, num chute estapafúrdio, do meio campo , jogar a bola prá fora do maior estádio do mundo”. É este o jogador que o São Paulo quer ? Pronto. Bastou este comentário do Mário para o Flávio voltar para a Cidade das Brisas Suaves.
Já pelo campeonato da Primeira Divisão, a Votuporanguense, numa quinta feira a tarde, foi jogar em Batatais, que aniversariava. Nessa epoca não havia linha telefônica disponível em dias de semana para transmissões esportivas. Nós da Rádio Clube só conseguíamos porque o Nelson Camargo, dono da emissôra, éra um tremendo brigador, se preciso ele falava até com o Presidente. No sábado o compromisso da Votuporanguense era com a Ferroviária, em Araraquara. Como Batatais e Araraquara eram cidades próximas, a delegação não voltou para Votuporanga para economizar alguns cruzeiros e, também, como a sua situação no campeonato não era das melhores e havia necessidade de ganhar pontos, uma viagem a menos seria mais confortável aos jogadores, principalmente, depois do empate conquistado diante do Batatais. Assim, a briga era por um outro bom resultado contra a fortíssima equipe de Araraquara. Outro empate já seria a glória.
No vestiário da Fonte Luminosa, Estádio da Ferroviária, num calor de 35 graus, depois de algumas caipirinhas e uma enorme feijoada comida num restaurante de estrada, ressonava, num banco rústico de madeira, Carlos Márcio de Castro Junqueira, cartorário e diretor de futebol da alvi negra. O Dr. Wilson Cury, por anos médico da delegação, aborrecido com tentativas inúteis com o Flávio, deu-se com o presidente, Durvalino Comar: “É, presidente, infelizmente hoje não vamos poder contar com o Flávio. Seu joelho realmente está comprometido”. Durvalino, irritadíssimo, aos berros acorda Carlos Márcio e pergunta: “Carlos Márcio, o senhor como médico da Votuporanguense, pode me dizer se o Flávio tem condições de jogo ?” O homem, dono de um corpanzil de quase 100 quilos, acorda assustado e díz: “Tem. Tem, sim, presidente”. Incontinenti, Dr. Wilson, com a sofrida derrota deixou o cargo para o “médico” Carlos Márcio.
Sem mais nenhum compromisso, o médico, o verdadeiro, sobe até a cabine da Rádio Clube, de onde transmitíamos, para fazer o seu desabafo. “ Doutor, disse-lhe Luiz Rivoiro, se eu lhe der o microfone, sou eu que perco o emprego. O Durvalino, além de presidente da Votuporanguense, é o dono das duas cotas de patrocinio que o senhor conhece bem: Consórcio Sefóra e da Revenda DKV-Vemag, Veículos e Acessórios Comar Ltda.” Pois bem, a Votuporanguense, numa tarde inspiradíssima de Raimundinho, Nelson, Fifi, Pita e, principalmente, Lupércio (cujo nome verdadeiro é Leopércio Basaglia) , venceu por dois a zero, dois gols de Flávio, um de cabeça e outro cobrando falta.
No dia seguinte, um domingo pela manhã, no Clube dos 40, do qual Durvalino Comar também era o presidente, depois de muitas “ louras geladas” e muitas gargalhadas de felicidade pela conquista dos três pontos, o Flávio, como sempre chorando por uma verba extra, recebeu premiação dobrada; o Carlos Márcio voltou a ser diretor de futebol e o Dr. Wilson Cury, competentíssimo clínico geral, reassumiu seu cargo de médico da Votuporanguense. Uma observação: naquele tempo, o empate valia um ponto e a vitória, dois.
Flávio faleceu em Bragança Paulista, onde residia. Dr. Wilson Cury faleceu em São Paul, onde clinicava. Durvalino Comar, continua residindo em Votuporanga, onde é produtor e exportador de café e possui fazendas. Carlos Márcio de Castro Junqueira, aposentado, reside, segundo meu irmão Ali Kanso, na linda Goiânia.
Prá finalizar, com prazer, quero informar aos amigos internautas do FUTEBOL INTERIOR, que esta coluna passará a ser transcrita também pelo Diário de Votuporanga, o que muito me honra, visto que foi lá, quando ainda se chamava “ A Vanguarda”, que comecei a conhecer a linotipia e os microfones da Rádio Clube.
Se não for abusar demais, quero informar que não sou “ex-Votuporanguense”. Sou e continuarei sendo Votuporanguense, mesmo. Até porque a Câmara da cidade me honrou com o título de CIDADÃO VOTUPORANGUENSE.





































































































































