Final de 77: Dicá - Não jogar em Campinas fez a diferença
Campinas, SP, 11 (AFI) – Ao receber o telefonema da reportagem do Futebol Interior, para falar sobre a final do Campeonato Paulista de 1977, Dicá (foto), o maior jogador da história da Ponte Preta, foi enfático. “Final não, tragédia de 77”. A simples frase demonstra todo o sentimento que o meia, maestro da fantástica equipe pontepretana daquela época, ainda guarda depois de 30 anos. O Corinthians foi o algoz da vez. Em três jogos, onde venceu dois e perdeu um, o Timão sagrou-se campeão, após 23 anos de jejum. As três partidas decisivas foram disputadas no Morumbi, o que para Oscar Sales Bueno Filho, atual comentarista da Rede Bandeirantes, fez a diferença.
“A nossa maior lamentação foi não ter disputado nenhum jogo da final em Campinas. Seria bom para todo mundo, pois iria valorizar a cidade e a torcida da Ponte, que é fantástica. Com certeza, o aspecto psicológico do Corinthians seria abalado. Mas naquela época, nós não tínhamos conhecimento do regulamento, e só depois ficamos sabendo que o mando era da Federação, que optou por colocar os três jogos no Morumbi. Se as partidas tivessem sido em Campinas, nós iríamos atropelar o Corinthians, como fizemos na primeira fase”, afirmou o jogador que mais vezes vestiu a camisa alvinegra: 581 vezes, tendo sido também o maior artilheiro da história do clube, com 154 gols.
A referência feita pelo Mestre, como é chamado até hoje pelo que fez em campo, e agora fora dele, nos leva aos dias 13 de fevereiro e 25 de agosto daquele ano, os dois confrontos entre Macaca e Timão pela fase inicial da competição. No primeiro, um verdadeiro massacre do time campineiro, em Campinas: 4 a 0. Depois, nova vitória, dessa vez por 2 a 1, no recorde de público imbatível no Pacaembu: 67.543 pagantes. A campanha da Ponte também era intocável. A equipe comandada por Zé Duarte chegou invicta à final. Então porque o título não foi para o Moisés Lucarelli? O Mestre tem uma explicação.
Os motivos!
“O que deu errado aquele dia foi que ficamos sem os dois principais jogadores, os pilares da nossa equipe. Na segunda partida, o árbitro (Romualdo Arppi Filho) deu um cartão amarelo aos 45 minutos do segundo para o Odirlei (lateral-esquerdo), que ficou suspenso para a partida final. Jogávamos baseado no Odirlei. Ele e o Tuta eram fantásticos pela esquerda. O Ângelo o substituiu, mas, tecnicamente falando, não tinha a mesma qualidade que o Odirlei, que era nosso principal jogador. Então já chegamos desfalcados para a final”, disse, mas os problemas não pararam por aí.
“No último jogo, o Dulcídio (Wanderley Boschillia, árbitro do jogo) expulsou o Ruy Rei num ato premeditado. Não digo que se o Ruy Rei seguisse no jogo, o resultado seria diferente, não quero tirar os méritos do Corinthians, mas fomos prejudicados. Ficamos sem nosso ponto de referência. De novo, não quero tirar os méritos do Corinthians, mas que teve esquema, isso teve sim”, comentou.
Mesmo com um jogador a menos, a Ponte deu trabalho para o Corinthians, que só foi conseguir o gol salvador aos 36 minutos do segundo tempo, com Basílio “Pé de Anjo”, eternizado por isso. No entanto, o gol de Basílio poderia ter sido inútil se Dulcídio não voltasse a interferir no andamento da decisão. No único lance de real perigo criado pela Macaca, quando Lúcio saiu na cara do gol, o juiz simplesmente parou a partida e marcou uma falta contra a Ponte Preta do outro lado do campo.
“Era a chance que tínhamos de complicar ainda mais a vida do Corinthians, mas o Dulcídio inventou algo. Nosso time era muito melhor, mas, infelizmente, alguns outros fatores tiraram o título da gente”, completou o ex-jogador.
Ponte Preta, sim!
Dicá nunca escondeu seu amor pela Ponte Preta. Natural de Campinas, ele freqüentava as partidas da Ponte Preta com seu pai desde os 10 anos de idade. “Pegava o trem e ia para Sorocaba, Bragança Paulista e Votuporanga. Sempre fui ligado à Ponte Preta,
seria ridículo dizer que não é meu time do coração”, declarou. A equipe de 77 foi reconhecida como a melhor da história do clube do Majestoso, porém, para o Mestre, um outro esquadrão marcou bastante sua carreira.
“O (time) de 77 ficou muito marcado porque chegou à uma final histórica, que acabou com o jejum do Corinthians, mas o de 70 também era muito bom. Tinha jogadores fantásticos como Nelsinho, Santos, Alan e Manfrini. Com certeza foram, das equipes que eu vi jogar, as duas melhores da história da Ponte. Tinham um nível técnico altíssimo”. Em 1971, Dicá defendeu o Santos, de Pelé, foi para Portuguesa e voltou à Macaca.
Depois de pendurar as chuteiras…
O meia encerrou a carreira no Araçatuba, em 1986, mas se engana que acha que Dicá deixou de respirar futebol. Logo após se aposentar, ele ficou três anos na gerência de futebol da Ponte Preta, deixando o cargo para ficar um pouco mais com sua família.
“Os filhos e as esposas reclamavam, então tentei dar um tempo”, porém, não conseguiu. O eterno maestro da Ponte recebeu um convite para ser o coordenador de esportes de Campinas. Mais quatro ligados ao esporte.
Depois disso, Dicá abriu uma escolhinha de futebol e chefiou aproximadamente 500 crianças, por 12 anos, quando resolveu aceitar o convite da Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo e coordenar um projeto, em Campinas, no Cerecamp, que visava tirar crianças das ruas e as ingressarem no esporte. Paralelamente, Dicá foi comentarista da EPTV – filiada da Rede Globo, em Campinas -, por três anos e meio.
Nunca longe do futebol, muito menos da Ponte Preta. Em 2000, o Mestre foi convidado para comandar a parceria da Macaca com o Radium, de Mocaca. No ano seguinte, ele assumiu o cargo de coordenador de futebol da Ponte e o deixou apenas em 2003. De lá para cá, Dicá é comentarista da Rede Bandeirantes, e confessa que não pensa em deixar a profissão.
“Estou muito feliz, me sinto muito à vontade. Não é minha área, mas vou aprendendo com os mais experientes. Está sendo uma experiência de vida muito boa, é um novo desafio e gosto disso”, finalizou.
Perfil
Nome: Oscar Sales Bueno Filho (Dicá)
Nascimento: 13/7/1947, em Campinas-SP
Clubes: Ponte Preta; Santos, Portuguesa e Araçatuba
Títulos: Divisão de Acesso, em 69 (com a Ponte Preta); Campeão Paulista, em 73 (com a Portuguesa).





































































































































