Feminino: Saad perde zagueira para o futebol espanhol

Itapira, SP, 24 (AFI) – Passado o clima de festa pela conquista da medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos, o futebol feminino volta a encarar a dura realidade da falta de uma política de investimentos consistente no País, que leva ao êxodo dos principais valores da modalidade. A zagueira Angélica, de 22 anos e natural de Campinas/SP, há quatro anos defendendo as cores do Saad/Bioleve, acaba de acertar a sua transferência do representante de Itapira para o Murcia da Espanha.

O motivo da mudança é claramente financeiro, pois o salário médio pago atualmente no País é muito inferior do que o oferecido pelos clubes europeus. No Brasil, a atleta vivia a expectativa de receber nas próximas semanas o salário garantido pelo programa bolsa atleta, no valor de setecentos e cinqüenta Reais mensais, enquanto as companheiras de clube que disputaram os Jogos Olímpicos de Atenas recebem o teto máximo de dois mil e quinhentos reais.

No caso das atletas vinculadas ao Saad/Bioleve, além do salário, existe todo um amparo do clube quanto ao atendimento médico e odontológico, medicamentos, e hospedagem e alimentação, numa estrutura difícil de ser igualada até mesmo por muitas equipes do futebol profissional masculino, o que faz melhorar, e muito, a condição de vida das meninas, que chegam a destinar até 90% dos salários para ajudar os familiares.

Mas a falta de outros patrocinadores de grande porte e competições respaldadas pelos canais abertos de TV também vem afetando seriamente as finanças do clube, que é considerado o mais tradicional do Brasil, com 23 anos de apoio à modalidade. Na Espanha, Angélica receberá, livre de qualquer despesa, quase o dobro do teto máximo oferecido pelo Saad, além de outros benefícios que elevariam seu salário bruto para uma faixa superior aos oito mil reais mensais.

Angélica é uma das melhores zagueiras do País, tendo defendido a Seleção Brasileira Sub-20 em competições Continentais e Mundiais. No Saad, formou uma das melhores duplas de zaga da história do clube ao lado da segura e experiente Tânia Maria.

Apenas entre as temporadas 2006 e 2007, o Saad perdeu para o exterior as craques Melissa e Patricinha (Lecce-Itália), Bárbara e Emily (Zaragoza-Espanha), e Simone Jatobá (Lyon), além de Angélica, agora no Murcia. Somadas às convocações de Maycon, Andréia, Tânia Maria, Formiga e Daniela Alves para a Seleção Brasileira que disputará a Copa do Mundo da China, chega-se ao incrível número de onze desfalques em apenas 12 meses.

Vale ressaltar que é praticamente certo que a goleira Andréia se desligue definitivamente do Saad após o Mundial, e renove seu contrato com o Zaragoza, mesma equipe da volante Emily, resultando num êxodo de sete atletas para o exterior, recorde absoluto dentre os clubes brasileiros neste período.

Vale lembrar ainda que os clubes de futebol feminino raramente recebem qualquer compensação financeira para liberar as meninas para o exterior, pois a concorrência com as atletas saídas das Universidades Americanas, que não cobram taxas de transferência, somadas às leis de imigração, certamente travaria o mercado, responsável pela ascensão de craques como Marta, hoje na Suécia.

Muitos se esquecem que a maioria das jogadoras brasileiras acima dos 21 anos de idade vem de famílias carentes, e que recusar liberar uma atleta para o exterior, nos dias de hoje, significa condenar estas famílias à continuidade de uma vida de privações e poucos horizontes. Por outro lado, os clubes que investiram na formação das jogadoras ficam enfraquecidos, e sem patrocinadores tem sua própria sobrevivência ameaçada.

Tetra-Campeão Brasileiro e Hepta-Campeão da Copa São Paulo, nenhum clube sofreu tanto o impacto da saída de jogadoras de ponta quanto o Saad. A Seleção Brasileira que conquistou a medalha de Ouro no Pan, tinha sete titulares que atuavam no Brasil, e quatro já radicadas no exterior. Das sete que permaneciam atuando no País, cinco, ou seja, a goleira Andréia, a zagueira Tânia Maria a meia Maycon (estas já pagas pelo programa Bolsa Atleta), a volante Dani Alves e a meia Formiga jogam pelo Saad.

Outras craques da Seleção, como as alas Rosana e Simone Jatobá, a zagueira Aline Pelegrino, e as atacantes Kátia Cilene e Grazielle, já defenderam o clube de Itapira no passado, fruto principalmente das passagens vitoriosas dos técnicos José Duarte e Cidinho pelo clube, que contava ainda com o importante respaldo da empresa de marketing esportivo Sport Promotion.

Para o Presidente Romeu de Castro, do Saad, é hora das autoridades pararem de discutir publicamente dezenas de opções para o futebol feminino e oferecer um apoio real aos clubes que hoje mantém a modalidade viva no País. São os clubes que vem abrigando atletas de ponta durante décadas, além de cuidar do trabalho de renovação com investimentos reais, como ocorre no Saad, no Santos, no Juventude de Caxias e na Ferroviária de Araraquara, dentre outros.

O dirigente lembra que dezenas de oportunistas, que nunca investiram dinheiro próprio na modalidade, tem procurado a mídia com propostas totalmente fora da realidade e das necessidades do futebol feminino. Enquanto se discute o assunto, os clubes tradicionais são obrigados a continuar se endividando para que as meninas possam sobreviver à espera de um milagre.

Para a atacante Michael Jackson, que aos 43 anos continua balançando as redes com a camisa do Saad, não é mais possível viver apenas de promessas. A goleadora foi pioneira ao abrir o mercado Italiano para as jogadoras brasileiras nos anos 90, ao atuar pelo Torino. Conquistou três títulos Sul-Americanos pelo Brasil e obteve a melhor classificação da equipe em Mundiais, com o terceiro lugar na Copa do Mundo de 1988, disputada na China, tendo ainda disputado os Jogos Olímpicos de Atlanta, quando apenas sete minutos separaram a equipe do técnico Zé Duarte da conquista da medalha de prata, já que a Seleção vencia a China na semifinal até os 38 minutos do segundo tempo. Ela pergunta o que falta para os homens deste País tratarem o futebol feminino com um mínimo de respeito, após cinco títulos sul-americanos, três semifinais olímpicas consecutivas e dois títulos Pan-Americanos.

Angélica, atuando ao lado de lendas vivas da modalidade como Michael Jackson e Roseli, se despede do Saad/Bioleve neste sábado, quando a equipe estará enfrentando Taboão da Serra no jogo de volta das quartas de final do Campeonato Paulista promovido pela FPFA. A partida começa às 15 horas, no Estádio Municipal Cel. Francisco Vieira, em Itapira, com entrada franca.