Falsos Moralistas

Nos anos 60, os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle, dois brilhantes compositores da MPB, criaram uma canção marcante: “Não confie em ninguém com mais de 30 anos…”

A letra brincava com alguns estereótipos: “não acredite em ninguém com mais de 30 ternos, não confie em ninguém com mais de 30 vestidos, o professor tem mais de 30 conselhos. Mas ele tem mais de trinta, mais de trinta…”

Lembrei-me da composição que eu, a exemplo de milhares de jovens, tantas vezes cantarolei na época, justamente ao folhear o jornal há poucas semanas.

O festim de passagens aéreas a que os deputados federais e senadores da República se entregaram corresponde à uma espécie de pantomima tão espetacular como a da letra dos irmãos Valle. Sendo pantomima, evidentemente, não teria sons.

O interessante na história é saber que aqueles homens (e mulheres) públicos que se arvoraram frequentemente em se apresentar como defensores da moral e dos bons costumes deitaram e rolaram – para não dizer voaram – na doce mordomia de andar de avião de graça.

De graça não, às nossas custas, corrigindo.

Assim, o senador Eduardo Suplicy, que gosta de ser identificado como um descobridor de falcatruas pegou a namorada e foi passear com ela em Paris, com as passagens a que teria direito para exercer as suas funções de representante do povo.

Com certeza, ao saborear um jantar no caríssimo Tour D´Argent com a amada, ele se lembrou dos seus pobres e oprimidos eleitores. Para não perder a oportunidade, pediu uma gorda nota fiscal para compor a sua verba parlamentar suplementar.

Lamentável. Como se não bastasse a sua defesa do indefensável no caso do padre que sustentava um ex-interno da Febem para quem comprou até mesmo uma perua Pajero.

Já Heloisa Helena, a aguerrida ex-senadora e ex-candidata a presidente da República, uma espécie de Enéas de saia, com seus grunhidos agressivos, o que fez?

Além de durante a campanha presidencial ter confessado candidamente, ao vivo, no Jornal Nacional, que programa de partido, no caso o PSOL, “era uma coisa e o que faria na prática era outra” (sic), pegou as passagens parlamentares e deu a seu jovem filhote para passear.

Que beleza! Como diz um locutor da TV fechada de quem não sei o nome, mas conheço o bordão.

A partir da revelação de sua pisada de bola, Heloisa Helena, que gosta de chamar seus adversários de bandidos, é o quê?

Para completar, qual comentário fazer sobre o caga-regras Fernando Gabeira, ex-guerrilheiro, atual defensor do verde, que não é o Palmeiras? Ora, também ele ofereceu suas passagens aos familiares. Igualzinho aos seus correligionários menos famosos e que tanto criticou, aos brados, nos últimos anos.

Coisa feia.

De todos os que se locupletaram e, em especial, destes santinhos do pau ôco.

Especial porque para eles, além do uso indevido das passagens, acrescente-se mais um desvio de comportamento: o da hipocrisia. A de querer se passar por uma coisa que não são.

Da grande maioria dos parlamentares não há muito mesmo o que se esperar. Já se sabia o que eles faziam. Mas, de Suplicy, Heloisa Helena e Gabeira, se fôssemos julgá-los pelo que dizem e escrevem, a decepção seria forte.

Os exemplos me fizeram ter certeza de algo que, há tempos, já estava muito claro para mim e penso que até já escrevi a respeito. Mas que vale a pena repetir.

Desconfie de todo indivíduo que faz questão de se alardear, a todo o momento, como ético e correto. Este é o pior de todos. Dissimulado, ele é sistematicamente um PHD em safadeza.

Cuidado mais ainda com aqueles que, cumulativamente, vivem apontando o dedo para outras pessoas procurando achar defeitos morais nas mesmas.

Não confie em ninguém que age assim.

Em 100% dos casos estes acusadores de bunda suja possuem péssimo caráter e graves desvios de formação.

Qualquer bom psicólogo vai lhe explicar que a tentativa desesperada destes vigaristas de encontrar permanentemente pecado no próximo é, na verdade, aquilo que na linguagem mais livre dos consultórios se chama de “espelho”. Ou, tecnicamente, se você preferir, de “transferência dos transtornos internos para o outrem”.

A professora e analista Vera Leonor, com 20 anos de profissão e pós-graduada nos Estados Unidos na matéria, com quem conversei sobre o assunto, complementa:

“Sabendo como seu interior e sua índole são ruins e danificados, estes indivíduos partem para tentar identificar naqueles que, no fundo, mais admiram, os mesmos erros e traumas de que são portadores. Não importa que sem nenhum fundamento. Como em geral sofrem de complexo de inferioridade, o movimento representa uma busca para se igualar àqueles que consideram superior”.

Quando não conseguem, inventam, mentem descaradamente, fazem qualquer coisa procurando aliviar a sua imensa culpa e os seus fantasmas.

Como sem ajuda clínica especializada estes infelizes não conseguem melhorar, com o tempo, tornam-se mais e mais agressivos. Elementar, como diria o Dr. Sigmund.

Os auto-intulados histriônicos e falsos defensores da correção e dos bons princípios são como o detestável padre pedófilo ou o pastor evangélico cínico que é surpreendido com menores de idade em um motel. Embora no domingo tenham feito, ambos, sermão contra os vícios e a má conduta dos fracos.

Quem muito fala de honestidade, certamente, é quem esconde todas as desonestidades catalogáveis dentro de si.

Os falsos moralistas são invariavelmente os grandes corruptos, os difamadores, os levianos, os inconsequentes e, como se não bastasse, não raro, são ainda adeptos das piores perversões sexuais. Há uma atração mútua especial neste grupo, onde o homosexualismo e bizarrices ganham terreno fértil. Eles formam uma espécie de patota. Elogiam uns aos outros numa patética corrente. Transgridem e se perdoam entre si. Gente doente é assim.

Uma espécie que prolifera hoje em dia, mais do que nunca, nas igrejas e nos templos. Na Inglaterra, neste instante, descobriu-se que em um abrigo para menores, as crianças eram intermitentemente molestadas e agredidas há anos. Exatamente por aqueles que se apresentavam à sociedade como exemplos a serem seguidos.

A praga, infelizmente se bem que em número reduzido, também atingiu a imprensa. A normal e a underground – a do esgoto, a covarde, que se esconde na impunidade da Internet.

O grande, o enorme sofrimento destes pobres coitados é não conseguirem algo simples para as pessoas de bem com a vida: serem normais.

Leitor também opina!

Edgard,

Parabéns!!! Coluna muito bem redigida e oportuna.

Não não vou te dar um 10 por dois motivos, um deles, quase desprezível.

Você poderia ter citado nosso querido Juca Kfouri, recentemente envolvido no embroglio da EMTU com Conrado Giacomini.

Mas a principal falta foi nosso querido deputado Magno Malta, moço bom, inimigo número 1 dos pedófilos. Até quando foi “só” isso, tinha minha admiração total. Mas neste oba-oba das passagens aéreas, passou uma semana em Dubai e gastou apenas R$210 mil, ou seja, ele foi um ‘pedófilo-eleitoral’ com o povo brasileiro.

Falar a verdade, que diferença tem um traficante que dá amparo à sua comunidade na total ausência do Estado mas que é um criminoso, e um deputado, que cumpre lá sua suada jornada de três dias, caríssimo para os cofres públicos, mas que se envolve nas mais diversas bandalheiras, corrupções, trens-da-alegria como este das pasagens aéreas? Sinceramente, acho que todos podem ocupar o mesmo balaio!

Uma pena! Pobre Brasil!

Abs
Luis
Campinas-SP