ESPECIAL: Racismo velado e preconceito...Vida de negros na Argentina
Casos de racismo são comuns no futebol argentino
Campinas, SP, 15 (AFI) – Por volta das 19 horas da última quinta-feira cerca de dois mil torcedores do Boca Juniors se concentraram no Obelisco, praça central de Buenos Aires, na Argentina. Sabem quantos negros compartilharam aquela manifestação festiva conhecida como ‘La 12’, alusiva à data do clube neste 12 de dezembro? Nenhum.
Ora, se o Boca Juniors, tido como o clube do proletariado, identificado por camelôs de imigrações africanas e peruanas a coletores de papelões de reciclagem, não coloca um negro sequer na manifestação, o que há nisso?

Há um racismo velado na Argentina, por vezes explícito quando um jogador de futebol se irrita com adversário negro. Na procura por casos recorrentes localiza-se o do ex-são-paulino Grafite ao colombiano Teófilo Gutierrez, do Racing e até Baiano, que teve passagem pelo próprio Boca Juniors.
A aversão por negros naquele país foi desumana, conta o jornalista portenho Jorge Lonada em seu livro ‘Argentinos’, lançado em 2002, quando descreve a matança de escravos através do regime militar no século XVIII. Ele lembra que o censo de 1778 apontava 30% da população argentina de origem africana, acentua a queda para 25% em 1838, e mostra a estatística de apenas 2% em 1887.
A política de branqueamento da população argentina trouxe reflexo na rejeição do negro na sociedade. Isso justifica alguns destemperos de atletas argentinos enraivecidos durante partidas de futebol.
O episódio em que o zagueiro Desábato (foto), do Quilmes, ofendeu Grafite com palavras racistas ganhou repercussão continental. Foram mostradas imagens dele da prisão, decretada logo após o encerramento da partida pela Libertadores de 2005, no Estádio do Morumbi.
Desábato ficou preso durante dois dias e só foi solto mediante pagamento de R$ 10 mil de fiança e assinatura do termo de comparecer às audiências de desdobramento do processo, posteriormente arquivado após acusação retirada por Grafite.

Maxi Lopes
Apesar de a mídia alardear o ocorrido, o argentino Maxi Lopes (foto), jogando pelo Grêmio em 2009, xingou o volante Elicarlos, do Cruzeiro, de macaco. Há registros de que o lateral-direito Baiano- ex-Palmeiras e Santos- e o zagueiro Luiz Alberto- ex-Santos e Fluminense- também foram vítimas de discriminação racial por argentinos.
O caso de repercussão mais recente foi o do atacante colombiano Teófilo Gutierrez, em 2011, como atleta do Racing. Em desentendimento com o zagueiro Mauro Bagado, do Argentinos Junior, ele diz ter sido ofendido por crime racista e acrescentou que o fato tem se repetido.
Para a imprensa colombiana, Teófilo revelou ter sido chamado de ‘negro de merda’, e que era discriminado até por companheiros de clube.
Camelôs negros
Afora casos de racismo explícito no futebol, negros africanos que montam barracas de bugigangas, calçados e roupas defronte lojas de avenidas da região microcentral de Buenos Aires sabem que não há espaço para integração social com a população branca. Todavia, não se queixam de restrição ao trabalho e até citam que os brancos compram os seus produtos naturalmente.
Mamanu, um africano de Guiné, que fala a língua portuguesa, serve de interlocutor para comunicação com camelôs e conta que atividades de entretenimentos são destinadas especificamente para os negros africanos na Argentina.
“Cada um na sua casa. Eles [os negros] fazem as coisas separadamente”, revela Mamanu, acrescentando que um campo de futebol foi destinado especificamente para os negros se divertirem aos domingos.
Mamanu cita que é morador de Porto Alegre, no Brasil, e que está em Buenos Aires a passeio. Ele revela que a maioria dos negros mora na capital e confirma a informação de favelas nas chamadas províncias.
Camelôs geralmente evitam falar sobre discriminação com receio de retaliação, conta o brasileiro Maciel, que evita o sobrenome e não admite imagens por motivos não revelados.
Acomodação
Carioca do subúrbio do Rio de Janeiro, Maciel emudece quando questionado sobre aquilo que o levou a trocar a bela paisagem de seu Estado pela função de porteiro de loja na Avenida Corrientes, em Buenos Aires. Prefere descrever a chegada dos negros africanos na Argentina, saídos principalmente da Costa do Marfim, Guiné, Senegal e Nigéria.
“De repente chegou uma massa aqui, há cerca de uns dez anos, e o governo não teve controle de como lidar com a situação. Aí, para que não fossem para a marginalidade, o governo preferiu regulamentá-los. Achou melhor deixá-los quieto no cantinho, se não haveria problema”.

Mesmo regulamentado, o vendedor de tênis e óculos Falu (ao lado), oriundo de Senegal, revelou que o seu grande sonho é mudar para o Brasil. “Lá tem muitos negros e negras. Melhor né!”
O único camelô que abriu a boca para falar da discriminação sofrida até hoje foi Igor, oriundo da Costa do Marfim, vendedor de bolsas femininas e cintos, que revela ser torcedor do Boca Juniors sem freqüentar estádio. “Fico no radinho”.
Apesar dos claros exemplos de descriminação racial contra negros na Argentina, o promotor educativo Gabier Medina discorda que eles sejam os mais atingidos.
“Acho que o peruano é mais discriminado. A maioria que aqui busca trabalho vai para a construção civil ou o trabalho pesado”.
Como o assunto sobre racismo parece constrangedor, ele prefere falar de sua aprovação do governo da presidente Cristina Kirchner e do amor pelo Newell’s Old Boys.





































































































































