ESPECIAL FI - Dante revive contra Bayern pesadelo do 7 a 1 contra a Alemanha

Assim como na Divina Comédia de Dante Alighieri, jogador brasileiro ainda vive um purgatório antes de sonhar com o paraíso

Assim como na Divina Comédia de Dante Alighieri, jogador brasieiro ainda vive um purgatório antes de sonhar com o paraíso

Campinas, SP, 23 (AFI) – O que há em comum entre as datas 8 de julho de 2014 e 22 de setembro de 2015? Algumas coisas: uma goleada histórica, uma zaga brasileira, um adversário alemão e um nome: Dante. O bom zagueiro baiano, que vai completar 32 anos agora em outubro, estava na defesa da Seleção de Felipão que tomou de 7 a 1 no Mineiraço em 2014 e também foi titular do Wolsburg no chocolate de 5 a 1 contra o Bayern de Munique, nesta terça-feira, com cinco gols marcados em nove minutos por Robert Lewandowski, que saiu do banco para entrar para a história.

Há um outro Dante, Alighieri, um escritor italiano do século XIII, autor da “Divina Comédia”, um dos maiores clássicos da literatura mundial. Nessa obra – dividida em Inferno, Purgatório e Paraíso – tão eterna quanto as grandes goleadas do futebol mundial, o escritor começa sua aventura dizendo que “no meio do caminho da minha vida, encontrei-me em um bosque escuro, a reta estrada estava por mim perdida…” De certa forma, é exatamente assim que deve se sentir uma zaga que começa ser superada por um ataque – ou um único atacante – incontáveis vezes, num pesadelo sem fim. É um inferno.

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INFERNO

A “Divina Comédia” de Dante Alighieri, também começa com o Inferno. É preciso atravessar esse lugar sombrio e todo seu desalento para seguir a viagem para o purgatório e tentar encontrar o paraíso. No portal desse inferno, sem chaves ou fechaduras, há apenas um aviso. “Deixai toda esperança, ó vós que entrais!”

Lá em julho de 2014, a emotiva e pueril seleção de Felipão entrou em campo cheia de esperanças. Diante de 70 mil torcedores de verde e amarelo, ninguém previa o pesadelo que viria.

Dante: flores antes. Inferno depois.

Dante: flores antes. Inferno depois.

O baiano Dante estava lá, ao lado do emocional Davi Luiz. Substituía o capitão Thiago Silva. Ele viu Muller, Klose, Khedira e Kross (por duas vezes) chegarem ao gol pelo meio da defesa, somente no primeiro tempo. Só podia ser um pesadelo. Schüerlle completou a carnificina no segundo tempo, diante de uma perplexa torcida que sequer comemorou o solitário gol de Oscar para o Brasil no finalzinho do jogo.

PURGATÓRIO

Diante do poderoso Bayern de Munique, time que defendeu por muitos anos, Dante teve um sonho bom no primeiro tempo, com seu Wolfsburg vencendo por 1 a 0. Havia até recebido flores antes da partida. Mas Pepe Guardiolla inventou de colocar um certo Robert Lewandowski em campo. Um polonês de 27 anos que não imaginava que em nove minutos entraria para a história e possivelmente para o Livro dos Recordes. O atacante foi, então, transformando o sonho de Dante em pesadelo. Marcou aos 6, aos 7, 10, 12 14 minutos…. O técnico, no banco, não acreditava. A torcida parecia em choque.

Robert Lewandowski: do banco para a história

Robert Lewandowski: do banco para a história

Para não dizer que estava completamente só num bosque escuro, Dante tinha a companhia de outro brasileiro na zaga, Naldo, um paranaense que acabara de completar 33 anos em setembro.

Novamente um miolo de defesa brasileiro. Novamente uma goleada histórica – os 7 a 1 por razões óbvias e os 5 a 1 pelo fato inédito de um jogador marcar cinco gols em tão pouco tempo. “Que mal fiz a Deus?”, deve estar perguntando o zagueiro em meio a mais um purgatório.

PARAÍSO

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É outono na Polônia, país do artilheiro Robert Lewandowski. É primavera no Brasil, do baiano Dante. Mas as estações emocionais estão certamente trocadas para esses jogadores. O atacante do Bayern ainda vai ter que dar muitas entrevistas para tentar explicar o inexplicável. Coisas do “Sobrenatural de Almeida”, de outro escritor, esse bem brasileiro, Nelson Rodrigues. Para quem não sabe, “Sobrenatural” é, segundo Nelson, responsável pelas coisas inexplicáveis do futebol. Lewandowski vive seu momento mais multicolorido e feliz da carreira.

Enquanto isso, Dante, possivelmente mergulhado num melancólico outono emocional, terá a missão difícil de tentar superar mais uma história infernal em sua vida. Talvez um carma mal resolvido contra adversários alemães. Talvez alguma deficiência que precise trabalhar. Talvez apenas azar ou mais uma dessas peças que o destino gosta de pregar.

Mas, como bom baiano, certamente vai contar com ajuda dos bons deuses do futebol e dos vibrantes orixás para reencontrar o seu caminho rumo ao paraíso.

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