Entre o crime e a bola: A saga de Zé Maria e o torneio que resgata jovens há 15 anos
Com lateral tricampeão como padrinho, jovens recebem oportunidades dentro da Fundação Casa
Com Zé Maria como padrinho, jovens trocam o crime pela bola
Campinas, SP, 14 (AFI) – Um time de adolescentes conquistou na última quarta-feira, em Limeira, uma chance rara em meio à realidade dura na qual foram criados. Campeões da etapa regional da 15ª Copa CASA de Futebol, os garotos da CASA Rio Piracicaba receberam as medalhas das mãos do ex-lateral Zé Maria, tricampeão de 70 com a seleção brasileira e ídolo do Corinthians, presente no título paulista de 77 e expoente da democracia corintiana.
Mais do que a inspiração pelo contato com um grande nome do futebol mundial, esse jovens conquistaram a oportunidade de pisar no gramado de um estádio profissional. Isso vai acontecer antes de partidas do Paulistão, durante a disputa da etapa estadual do torneio de menores infratores, graças a uma parceria com a Federação Paulista de Futebol (FPF).
“Estamos assumindo agora a partir de janeiro PARA aprimorar as atividades jovens. Uma deles é a prática esportiva. Nós temos essa Copa Casa, que é uma parceira com a Federação Paulista, e temos conseguido envolver pelo menos 1200 jovens”, explicou Paulo Dimas Mascaretti, novo Secretário de Estado da Justiça e Cidadania e Presidente da Fundação CASA.
OS CAMINHOS
Todos os participantes cumprem medida socioeducativa na Fundação Casa, espalhados em 11 Divisões Regionais, e têm no torneio uma possibilidade de mudarem o rumo de suas vidas. As histórias são muitas e os desfechos dos mais variados possíveis. Em 15 anos de Copa Casa, muitos garotos passaram por lá e voltaram para o crime. Outros conseguiram oportunidades em clubes profissionais, enquanto alguns tiraram lições do esporte para seguirem suas caminhadas com um novo olhar.
Quem conhece bem esses múltiplos enredos é Zé Maria, hoje assistente de direção da Fundação CASA. Trabalhando há 19 anos com a ressocialização de menores, ele ficou marcado por muitas histórias que vivenciou dentro do sistema. Ainda na primeira edição da Copa, em 2005, quando a instituição ainda levava o nome de FEBEM, o ex-jogador teve um de seus momentos mais intensos.
Na ocasião, todos os meninos que tinham adquirido a maioridade, ou que estavam próximos de completá-la, foram remanejados para o Presídio de Tupi Paulista, conforme decisão do presidente da FEBEM junto ao secretário de segurança na época. Um desses meninos fazia parte do time de uma das unidades da FEBEM e participaria do torneio. Depois de uma articulação dos funcionários, ele foi liberado para jogar, mas depois teve que voltar a Tupi, situação que desencadeou uma cena que não sai da cabeça do Super Zé.
“Foi um momento muito difícil. Os adolescentes viram, a grande maioria. Ele chegou na viatura algemado, entrou, jogou. Na volta, também algemado. Isso marcou muito”, relembrou o ex-jogador de 69 anos.
Outro caso, esse mais recente, foi de um garoto que teve a oportunidade em um clube e nesse mesmo período, já maior de idade, cometeu um novo delito. “Eu recebi uma notícia ruim agora. De um menino que conseguimos levar para um clube e agora está no CDP (Centro de Detenção Provisória). É difícil, é mais complicado. No CDP já não tem mais condição. A gente pega com uma idade mais avançada, 17, 18 anos. Eles já estão viciados nesse sistema, mas a gente tem conseguido algumas coisas”, disse Zé.
MISSÃO
De fato, a missão é difícil, mas Zé Maria e os demais funcionários envolvidos nos projetos da Fundação Casa também conseguem ver muitos casos de reabilitação. “Temos um menino de Botucatu que está no Grêmio. No ano assado, ele fez o encerramento da nossa atividade, nós levamos ele lá para mostrar que é possível, conversar com os meninos. Todo esse tipo de exemplo a gente tenta passar a esses jovens que estão começando, que é possível sim sair dessa vida”, explicou.
Apesar disso tudo, o foco principal das atividades não é criar um atleta profissional. O objetivo é utilizar as ferramentas do esporte para afastar os menores infratores do mundo do crime, de maneira que eles compreendam valores e adotem novos comportamentos.
“Na Fundação Casa sempre investimos em aprimorar o atendimento pra fazer um trabalho, para dar uma assistência depois que eles saem daqui. Um apoio externo trabalhando para fazer esse trabalho para que eles não voltem a ser internados”, disse Paulo Dimas.
“Foco principal é o cidadão. O regulamento nosso já implica nisso. Ele tem que gostar do esporte, ter um currículo dentro da unidade. Eu conto minha vida para eles. Saí da roça, fui para o clube, não tinha expectativa, alguém veiop ara mim e disse: ‘Neguinho, vai treinar na Ferroviária’. Eu queria ser torneiro mecânico, então é meio complicado”, afirmou Zé Maria.
OPORTUNIDADE
Para o ídolo corintiano, é um desafio lidar com esses jovens pelo fato de muitos deles não terem uma boa estrutura familiar. Zé também bate na tecla de que a realidade conhecida por eles é muito limitada, e por isso é importante criar novas expectativas por meio de oportunidades.
“O que eu tive eles não conseguem ter. Muitos têm família destruída, outros problemas sociais. Antigamente, a gente ou ia fazer um curso profissionalizante ou pegava na enxada . O problema das famílias desestruturadas influi nisso. Eles não tem um freio”, avaliou.
“O pensamento é tentar dar uma oportunidade para esse jovens criarem expectativas para eles, eles perderam muito isso. A gente tinha expectativa, eles não tem mais quase anda, a não ser pegar o celular e ver as coisas ruins. Antigamente você tinha duas o três opções, batalhava e lutava por elas. Hoje eles tem dezenas de opções e não conseguem chegar em nenhuma”, completou.
COPA CASA
Além da equipe da CASA Rio Piracicaba, também já está classificada para a fase estadual a CASA Arcebispo Dom Hélder Câmara, de Franca. A Federação Paulista ainda vai definir em quais partidas do Paulistão os jogos preliminares da Copa Casa serão realizados






































































































































