Edgard Soares: Biografia ou fofocaria?

O tema é "Biografias: com ou sem autorização prévia do biografado"

Edgard Soares fala com conhecimento de causa e com expertise sobre a polêmica do momento: "Biografias: com ou sem autorização prévia do biografado". Vale a pena acompanhar.

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O Editor Senior do FUTEBOL INTERIOR, Edgard Soares, é autor de dois livros:

1) A Biografia, sem autorização prévia, de João Havelange (1995), lançado na Embaixada do Brasil em Paris, com edição esgotada em três idiomas (inglês, francês e espanhol), além de português.

2) Os “Meninos da Folha da Tarde”, igualmente esgotada.

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É tambem de Editor de “Coração de Estudante”, escrito pelo então Presidente da UEE (União Estadual dos Estudantes), Edgard Soares Filho, com Prefácio de Jorge Mautner e que foi lançado na 13a. Bienal do Livro de São Paulo e teve toda a sua tiragem vendida no evento.

No início do ano ele lança “As melhores (e as piores) frases das Campanhas Eleitorais”. Por isso, Edgard Soares pode falar com conhecimento de causa e com expertise sobre a polêmica do momento: “Biografias: com ou sem autorização prévia do biografado”. Vale a pena acompanhar.

BIOGRAFIA OU FOFOCARIA?

Por Edgard Soares

Como a maioria das pessoas que pensam, fiquei atônito com a discussão sobre a supressão do artigo do Código Civil Brasileiro que proíbe a publicação de biografias sem autorização do biografado.

Atônito, porque num primeiro momento trata-se, de fato, de uma censura prévia.

Fiquei igualmente espantado, porque escrevi uma Biografia, não mostrei o original ao biografado e nem suspeitava que houvesse uma lei me obrigando a fazer isso.

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E finalmente fiquei surpreso porque ao defender a manutenção do artigo, em princípio castrador da liberdade de expressão, estavam figuras que sempre admirei, mormente Chico Buarque de Holanda, o maior compositor do país e que, a par deste fato, sempre teve uma postura política coerente e corajosa.

Diante disso, como acredito que todos aqueles que se interessam por entender o Brasil deveriam fazer, passei a acompanhar tudo o que se escreveu e se falou a respeito do assunto.

Li os artigos de Caetano Veloso, Chico Buarque e Djavan em O Globo e assisti a entrevista de Paula Lavigne no programa do CNT, do qual participou a colunista Bárbara Gância, da Folha de São Paulo. E, naturalmente, li os artigos e a avalanche de ataques que se abateram sobre os compositores do “Procure Saber” (espécie de Associação) que defende a manutenção do citado artigo do Código Civil, aquele que protege os biografados.

No programa do CNT, Paula Lavigne, independente de estar com a razão ou não, engoliu Bárbara Gância no embate. E nem poderia ser diferente, na medida em que o QI e a facilidade de expressão da primeira são muito maiores do que o da segunda. Além disso, Paula Lavigne tem pernas estonteantes, enquanto Bárbara Gância, bem, Bárbara Gância é Bárbara Gância, com seu tênis vermelho inspirado no Conga, da Alpargatas, do anos 60.

Mas, estética à parte, o que me chocou ou irritou mesmo foi a matéria de capa da revista Veja, que assino há milênios.

Esquecendo-se totalmente de que o papel da imprensa deve ser o de informar e deixar que os leitores tirem as suas conclusoes, a revista tomou partido e partiu para um ataque histérico àqueles que defendem a manutencão da legislação. E o fez, além da histeria, de forma professoral, fascistóide mesmo, como que impondo o seu ponto de vista.

Quando relata, por exemplo, que Chico Buarque “mentiu” ao dizer que nunca dera entrevista ao autor da biografia “Roberto Carlos em detalhes”, esquece-se de acrescentar que Chico teve coragem de publicar ma Nota desculpando-se e assumindo o seu erro.

E mais importante: de esclarecer que a tal entrevista ocorreu há 20 anos e que o autor do livro, malandramente, solicitou uma entrevista a Chico Buarque para falar de sua carreira e não de um livro sobre Roberto Carlos.

Fez inúmeras perguntas a Chico e, lá pelas tantas, inseriu uma pergunta, uma unica pergunta sobre “como era a relacionamento de Roberto Carlos e da Jovem Guarda com os compositores da chamada MPB”. Chico respondeu, porque lhe pareceu que, apesar de meio esquisita, a questão poderia ser inserida na entrevista que estava dando.

Foi o que bastou para que o escritor colocasse Chico como “fonte” de seu livro sobre Roberto Carlos. E, detalhe, sem trocadilho: mais de 10 anos depois da entrevista realizada!

Agora, responda sinceramente:

Você acha que foi um gesto de mau-caráter ou não o que fez o “biógrafo”? Ou seja, forjou uma entrevista com Chico para saber de sua opinião sobre Roberto Carlos, numa pergunta inserida e que não estava na pauta. Pior: transformou sua “esperteza” em referência para sua obra. Fala, sério.

Independente disso e da possibilidade real de não se lembrar de uma entrevista feita há duas décadas e, insista-se, que não era uma entrevista sobre a biografia de Roberto Carlos, Chico prontamente se desculpou por escrito.

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Apesar do pedido de desculpas de Chico, uma coisa é certa: “fonte” (no sentido exato do termo, como todos o entendem) para o livro de Roberto Carlos, Chico nunca foi. Ao invés de explicar como tudo aconteceu realmente, o redator de Veja chama Chico de “difamador” por ter dito que nunca deu entrevista para alguém que pretendia escrever um livro sobre Roberto Carlos. Honesto também da parte do jornalista de Veja, não?

Ou seja, a revista criticou asperamente os artistas do “Procure Saber”, revelando uma incoerência:

A de que, certos ou errados, eles e todos os cidadãos têm o direito de se expressar e defender seus pontos de vista. Como os críticos do “Procure Saber” gostam, a toda hora, de lembrar, princípio que a Constituição Brasileira garante.

Mas, contrariando o preceito constitucional, o jornalista que assina a reportagem, Jerônimo Teixeira, do qual nunca li um livro ou ensaio literário, determina quem está certo ou errado.

Não sei quem é Jerônimo Teixeira. Mas sei quem são e o que já produziram artisticamente Djavan, Caetano Veloso e Chico Buarque, que ele ataca de forma grosseira e injusta.

Ao mesmo tempo, o distinto não tem nenhum pudor de utilizar como título de seu texto, para valorizá-lo, uma frase justamente de quem? Ora, de Chico Buarque, salpicando um: “Página infeliz de nossa história”, da canção “Vai Passar”, que Chico compôs com Francis Hime, que fez a melodia da própria e não a letra, diga-se de passagem.

Foi proposital, dirão os apressadinhos. Claro, um plágio proposital.

Mas por que ele não utilizou sua própria “criatividade” para dar título ao seu texto, que por sinal também termina com a frase de Chico. Poderia ter usado uma frase do escritor do livro de Roberto Carlos, que ele diz ser um “profissional sério”. Sério, mas mentiroso.

Minha conclusão:

1) Aqueles que partem para um ataque desembestado contra os artistas que defendem a legislação atual, poderiam ser acusados, tal qual fazem inconsequentemente, de Censores de Idéias.

Não há uma argumentação fundamentada em nada que li a respeito. Ha simplesmente um ataque, uma critica, um desrespeito até pelo fato de as pessoas expressarem seu ponto de vista. Parece que elas não têm o direito de fazê-lo

Ou seja, democracia, sim, para que se escrevam biografias sem autorização. Mas censura absoluta para que se discorde disso.

2) Pelo que entendi o que o “Procure Saber” defende, embora de forma atabalhoada e pouco clara, conforme confessou a própria Paula Lavigne, sua Presidente, é que biografias sobre a obra do artista ou a carreira profissional de quem quer que seja, está completamente liberada.

O que se quer evitar e que fatos pessoais, particulares, íntimos – que nada tenham a ver com a produção artística do biografado – sejam expostos. Se há algo que constrange ou deprime o biografado e isto, repita-se à exaustão, nada interfira na sua performance pública, o “Procure Saber” quer ter o direito de o biografado não ver isso publicado.

Pode-se discordar, mas creio que pelo menos esta posição merece ser discutida.

Minha opinião:

Acho que o grupo “Procure Saber” deveria recuar e abrir mão de defender perante o Supremo Tribunal Federal que não se modifique a lei constante atualmente do Código Civil.

Por um motivo muito simples: trata-se, na prática, de uma causa perdida. E inútil.

Sempre haverá pessoas mais interessadas na vida pessoal do que na obra de uma pessoa pública, infelizmente.

Hoje em dia com a Internet, onde ao lado de informações valiosas, pulula tanto lixo e desavergonhados, covardes e delinquentes em blogs de esgoto, biografias não autorizadas, que exponham mazelas de biografados, verdadeiras ou não, existirão de qualquer maneira.

O livro proibido pela justica, “Roberto Carlos em detalhes”, por exemplo, está ao alcance de qualquer um na Internet, a um simples clique. E de graça. E na íntegra.

Você certamente sabe que pode visitar os museus do mundo inteiro pela Internet. Só que as páginas de pornografia estão milhões de acessos a frente das que expõe arte.

Por isso, deixo meu conselho a Paula Lavigne, que me parece ter lideranca no seu grupo. Abram mão da defesa do preceito do Código Civil junto ao Supremo.

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Esquecendo do assunto, os maus biógrafos, terão menos leitores de seus próximos trabalhos.

Com o peso que Caetano, Djavan, Gil e Chico Buarque têm, contrariá-los, debater com eles, só é bom para os maus biógrafos, que devem estar adorando os seus 15 minutos de fama.

Ignorá-los, na verdade, é a melhor e mais eficiente resposta.

E, se o Supremo mudar a lei, ainda haverá os Embargos Infringentes, dirá o advogado do “Procure Saber“, Kakai.

Mas, pelo amor de Deus, não os utilizem. Deixem isso para os bandidos do Mensalão.

Vocês são os mocinhos.