Diário da Venezuela - Parte II

Volto a escrever aqui de Puerto La Cruz, no oriente venezuelano, onde resido temporariamente nos últimos 10 dias.

Por incrível que pareça, nossa seleção encanta, mesmo apresentando um futebol medíocre. O povo da Venezuela aprova e aplaude tudo o que nossos jogadores fazem em campo.

Mas, para nós, fica claro que Dunga está muito aquém para comandar o time. Nas entrevistas que concede, no jeito de se manifestar, enfim, no convívio diário eu não aprovo seu trabalho.

Taticamente o Brasil é um time perdido, que jogou apenas 45 minutos razoáveis contra o Chile porque um talento individual, Robinho, prevaleceu em campo.

Entretanto, o futebol brasileiro deve ser respeitado e por isso, é sim candidato a decisão.
A tabela e o fato da equipe ter ficado em segundo lugar ajudam muito. O Chile é um eterno freguês e nas semifinais, Uruguai ou Venezuela não parecem assustar.

Não se entende o que Anderson, ex-jogador do Grêmio e do Porto, fala nas entrevistas. Ele resolveu criar uma língua própria, que mistura o português falado no Brasil, o falado em Portugal e uma gíria (dialeto) particular do próprio atleta.

Maicon é outro que não faço questão de entrevistar. Além de não acrescentar nada, como em campo, está sendo com um sorriso irônico no canto da boca. E pensar que tivemos Cafu durante os últimos 12 anos. Vamos sentir saudades,

Descobri que aqui neste lado da Venezuela não existem leis de trânsito. Quem pode mais chora menos. Por isso aqui vi as maiores barbaridades que um motorista pode cometer.

Caso a CET pudesse abrir uma filial aqui, certamente seriam aplicadas multas recordes.

Comer tem se tornado difícil com a escassez de carne nos principais restaurantes da cidade. Não agüento mais massa e frutos do mar.

O estádio General José Antonio Anzoátegui, inaugurado na última quarta feira, tem tudo para se transformar num imenso elefante branco.

O único time da região, o Deportivo Anzoátegui, vai disputar pela primeira vez a divisão principal do campeonato nacional, mas tem um número pequeno de torcedores.

Já o estádio Monumental de Maturin, o maior do país, com 52 mil lugares tem até um designe moderno, mas quero ver algum jogo do futebol venezuelano lotá-lo nos próximos 10 anos.

Embora Nicolas Léoz afirme que está é a melhor Copa América dos últimos anos, tudo não passa de um jogo de cena para agradar o povo local. Tirando a presença de publico, que realmente é um sucesso, o restante é pura maquiagem.

Bolívia, Equador, Estados Unidos e Colômbia eliminados na primeira fase. Dos que se classificaram, Peru, Uruguai, Chile e Venezuela não tem chance de título.

A camisa da seleção da casa é um sucesso de vendas. Ao preço de mais ou menos 80 dólares, não é achada por nenhum jornalista brasileiro que tenta adquiri-la como lembrança. Pelo menos não a oficial.

Já a do Brasil está à venda em muitos locais. Só que com um detalhe. Ao invés de Nike, é de uma marca chamada Olimpus. Pirataria pouca é bobagem!

Tem um jornalista do periódico Olé, da Argentina, que em toda coletiva de Dunga pergunta sobre suas camisas. O treinador brasileiro logo vai perder a paciência.

Tenho visto um pouco mais de televisão. Nos canais locais, apenas dois assuntos: Copa América e discursos de Chavez. E como fala o presidente venezuelano.

Por fim, devo dizer que Isla Margarita, um pequeno paraíso natural e fiscal a 30 minutos de vôo de Puerto La Cruz é por enquanto o único motivo que me traria de volta a Venezuela. De resto, dificilmente sentirei falta de algo.