Descobrindo a pólvora

Os iletrados grassam na crônica esportiva. As mais recentes sandices vêm sendo cometidas quando se analisa a situação política do Corinthians.

Pode o Conselho Deliberativo votar o afastamento do presidente da diretoria? Oh! dúvida cruel…

A última pérola dos desinformados é a divulgação por eles – porta-vozes oficiais da famigerada Lei Pelé – de um artigo da própria, que permitiria a cassação de presidentes que não tiveram suas contas aprovadas internamente na agremiação.

Muito provavelmente por falta de utilidade, a Lei Pelé está sendo invocada para dirimir dúvidas em questões políticas das entidades esportivas. Porque para organizar a transação de jogadores profissionais, já se sabe, ela é inócua..

Aleluia! Aleluia! Teria sido encontrada, enfim, uma razão de ser para o monstrengo jurídico.

Fogo fátuo. Para desencanto de seus áulicos, nem para isso a promulgação da Lei Pelé, na verdade a lei de lesa futebol, serviu.

Bruno Sacomani era o presidente do Palmeiras e envolveu-se em uma trapalhada econômica que ia desde aplicações equivocadas das reservas financeiras do clube até a empréstimos não saldados junto a próprios jogadores do elenco.

O Conselho Deliberativo alviverde reuniu-se e Bruno Sacomani foi defenestrado da Presidência. Brício Pompeu de Toledo, o vice, assumiu.

José Eduardo Mesquita Pimenta, o presidente bicampeão mundial, ligou-se perigosamente a empresários de futebol e, descuidado, manteve comprometedoras conversas com um deles, ao telefone. Todé, era esse o nome de um intermediário, gravou o bate-papo, que acabou se tornando mortal para o dirigente. O Conselho sãopaulino, a exemplo do palmeirense, afastou sumariamente o presidente que ganhou os títulos mais importantes da vida do tricolor. Fernando Casal de Rey assumiu e foi reeleito após dois anos.

Miguel Martinez venceu, como zebra total, uma eleição presidencial no Corinthians.

Despreparado para o cargo, ficou menos de um ano. O Conselho Deliberativo se reuniu e um de seus membros, Naor Guelfi, (há um viaduto com o seu nome na Rodovia Raposo Tavares) pediu a destituição de Martinez. O plenário constrangido, em peso, votou a favor da mesma. Martinez e seu vice (só havia um eleito naquele tempo), Felisberto Pinto Filho, caíram na mesma noite. Assumiu Aniz Aidar por um dia e depois Vicente Matheus, por 8 anos.

Miguel Kodja Neto era presidente do Santos Futebol Clube há apenas alguns meses e se envolveu numa promoção de nome Bolão, uma jogatina. Deu bolo no Bolão. Kodja caiu no Conselho Deliberativo. Entrou em seu lugar Samir Abdul-Hak, que permaneceu 4 anos no cargo.

Milton Orciollo foi afastado no Clube Atlético Juventus, Nivaldo Valdo saiu por determinação dos conselheiros para entrar Sérgio Carnielli na presidência da Ponte Preta, o presidente Irineu Stripari no XV de Jaú caiu depois de vender França, o centro-avante, para o São Paulo.

Os Conselheiros Deliberativos são soberanos, possuem representatividade, podem e devem decidir os destinos das entidades.

Ou seja, os grandes clubes brasileiros, os médios e os pequenos também, cumprindo sua função, já afastaram maus dirigentes quando as contas não batiam. Ou quando eles pisaram na bola. E os clubes o fizeram lançando mão única e tão somente de seus Estatutos, do seu bom senso e da responsabilidade de seus sócios e conselheiros.

A Lei Pelé veio chover no molhado, normatizar o que já estava normatizado. E ainda alicerçado nos costumes, que conferem força legal suplementar a um ato juridicamente perfeito.

Agora tem gente que pensa que o futebol nasceu nos anos 2000 quando Pelé foi Ministro dos Esportes, um Ministro de triste memória, diga-se. Santa ignorância.

Não é preciso Lei Pelé nenhuma para se depor um presidente de clube que não andou na linha.

Nem agora, nem antes, nem nunca, como a história mostra com fartos exemplos.

Se o cargo de porta-voz da Lei Pelé for remunerado, tem gente que vai perder a boquinha.

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