Daniel faz um golaço na cova dos leões

Jogador mostra o caminho para que o mundo possa se tornar um lugar melhor para todos nós

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Há quem tenha torcido o nariz. Mas nosso brasileirinho Daniel Alves mostrou que tem muito mais que só boa bola nos pés. Joga um bolão no coração também. Ao perdoar publicamente quem lhe atirou uma banana para tentar ofendê-lo, Dani Alves aponta para uma das mais poderosas armas contra qualquer tipo de ignorância: a não violência.

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Não é novo, Gandhi libertou toda uma Índia com a mesma postura. Martin Luther King Jr também foi um defensor da vitória sem violência. “Se fizermos igual, nos tornamos iguais”, dizia, quando seu povo pedia por vingança contra os ataques dos racistas. O nome disso é sabedoria. Está nos ensinamentos dos maiores: Jesus, Buda, Maomé, Shiva…

Vou confessar: apesar do grande futebol, Daniel Alves nunca me convenceu totalmente em campo. Sempre me pareceu que surgiria algum lateral mais eficiente a qualquer momento no Brasil… Outro Cafú, sei lá. Mas, depois desse episódio, o cara subiu muito no meu conceito e sentirei orgulho ao vê-lo em campo defendendo as cores do meu país. Mais que isso, defendendo o que há de melhor na condição humana.

Grandes mestres são unânimes em afirmar que não há armas mais poderosas do que aquela encontrada nos cantos mais escondidos no coração humano: a bondade, a generosidade, a compaixão, a humildade, o perdão, a paciência (ciência da paz!), o acolhimento, a compreensão, todas elas filhas de uma única mãe: o amor incondicional.

Isso pode parecer muito piegas. Que me importa. Alguns precisam urgentemente dizer coisas como essas para que não fiquem esquecidas em meio a tanta mesquinharia, ignorância, avidez, violência, ambição, ódio… E é preciso muita coragem para tomar nas mãos as armas do coração. Não é missão das mais comuns. Amar de verdade é só para os bravos!

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Não significa dizer que o agressor de Daniel Alves não deva ser punido. A questão é: que punição pode trazer a razão de volta a esse tipo de pessoa? Talvez prestando serviço em comunidades de baixa renda, ou algo assim, que o colocasse em meio a uma realidade que ele parece não querer enxergar. Não tenho certeza sobre isso. Não sei se é possível torcer pepinos depois de criados…

Não sou tampouco especialista nas escrituras bíblicas. Gosto de consulta-las ao acaso por vezes e me surpreendo com alguns grandes ensinamentos. Há um outro Daniel no Antigo Testamento que deu sua lição de fé. Foi atirado na cova dos leões por sua fidelidade a seu Deus, a quem orava três vezes ao dia, desobedecendo um decreto real, criado como uma armadilha por seus inimigos. Está lá, em Daniel: “Os anjos do senhor fecharam as bocas dos leões”.

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Esse Daniel confiava em seu coração e o seguiu mesmo no momento mais difícil, quando sua vida estava em jogo. O nosso Daniel brasileirinho também seguiu o próprio coração ao seu modo e assim como o Daniel bíblico venceu a ignorância de seus detratores. Não pela fé em algum Deus especial (que ele até pode acreditar ou não), mas pela confiança nas verdades que carrega dentro do coração.

De qualquer maneira, de agora em diante, toda vez que eu assistir esse nosso Daniel Alves descendo ligeiro pela lateral direita vou me lembrar que ainda existe gente que não está na vida só a passeio. Gente que aprende com as dificuldades, que cultiva a dignidade e luta em silêncio por uma sociedade mais justa e igual. Gente que, por vezes, mesmo na cova dos leões, principalmente lá, ainda sabe usar sabiamente as armas do coração.