Dalmo Pessoa: A CPI do RO-RO precisa investigar até os clubes

A CPI da CBF foi instalada e terá muito trabalho a partir do segundo semestre. Já se disse que CPI você sabe como começa, mas não sabe como termina.

Tomara que vá mais longe e bote na cadeia todos os ladrões que transformaram o petrolão no maior escândalo de corrupção do mundo.

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São Paulo, SP, 18 (AFI) – A CPI da CBF foi instalada e terá muito trabalho a partir do segundo semestre. Já se disse que CPI você sabe como começa, mas não sabe como termina. Tomem como exemplo a Lava-Jato. Começou para doleiros que branqueavam capitais num posto de Brasília e, de repente, chegou às entranhas do poder da República e ninguém sabe como será seu fim. Tomara que vá mais longe e bote na cadeia todos os ladrões que transformaram o petrolão no maior escândalo de corrupção do mundo.

Romário, ex-deputado federal e agora senador, com atuação destacada

Romário, ex-deputado federal e agora senador, com atuação destacada

É evidente que a vida dessa CPI do Ro-Ro – Romário presidente e Romero Jucá, relator, não deve se limitar à apuração dos escândalos na CBF, mas também investigar o uso e aplicação do dinheiro que rola no futebol.

Essa apuração se faz necessária porque com a Medida Provisória, aprovada por voto simbólico no Senado, os clubes terão 20 anos para quitar seus débitos. A experiência e fatos passados mostram que tudo é bonito quando aprovam parcelamentos. A própria Timemania, feita para quitar dívidas dos clubes, é uma piada.

Agora, inventaram mais duas loterias. Isto nos remete à declaração do então ministro da Fazenda, Delfim Neto, quando o vereador João Brasil Vita, o questionou sobre a criação da Loteria Esportiva. Delfim não se fez de rogado:

“Ora, Vita, com essa loteria a gente cobra imposto de Renda (no prêmio dos ganhadores) de um público de renda per capita menor”.

Perceberam a jogada de mais loterias? Isso aumenta o caixa do Governo duas vezes: o produto das receitas e mais os impostos dos jogos.

A CPI do Ro-Ro não pode só apurar as bandalheiras dos cartolas da CBF e das federações. É preciso investigar as razões do alto endividamento dos clubes. Até porque com o gasto de 80% das receitas dos clubes no futebol as dívidas só irão aumentar. Não é possível deixar isso sem um controle efetivo. A CPI do Ro-Ro pode estabelecer normas mais rígidas para evitar contratações malucas, fora da nossa realidade, e que vão gerar um contencioso futuro maior do que os 4 bilhões atuais.

Dirigentes da CBF vão ser investigados, mas é preciso também cobrar os clubes e punir cartolas irresponsáveis

Dirigentes da CBF vão ser investigados, mas é preciso também cobrar os clubes e punir cartolas irresponsáveis

Esperamos um trabalho sério, a partir de exames dos balanços dos clubes, aonde se pode aferir aonde começam os rombos que levam às portas da falência. Não é função, nem obrigação do país, facilitar amortização de dívidas contraídas por aloprados que pagam salários absurdos, praticando uma administração temerária. A publicação de balanços acontece há algum tempo. Só babaquaras midiáticos não sabem disso.

Para esses desinformados aqui vão alguns dados, que também podem ser juntados e analisados pela CPI do Ro-Ro:

1 – O Corinthians fechou o ano passado com déficits acumulados em 220 milhões. O futebol rendeu 229 milhões e gastou 258 milhões, um déficit de 29 milhões, aproximadamente.

2 – Os números não foram piores porque em 2014 o Corinthians fez um Refis de 134 milhões. Pagou no ato um valor alto e parcelou o restante em 15 anos com parcelas de 450 mil, corrigidas pela taxa Selic (hoje ela é de 13,75%) ao ano. Aqui entraram IR, FGTS e INSS, etc. Isto sem falar em 41 milhões da Timemania, que é amortizada com parte das rendas.

3 – O São Paulo também está pendurado em parcelamentos. São 59 milhões da Timemania e outras dívidas tributárias.

4 – O Palmeiras também tem seus pecadilhos tributários. O Palmeiras é aquele clube saudado como modelo de gestão com a vinda da Parmalat. Ganhou títulos, é verdade, mas os investidores montaram uma laundry (lavanderia) para branquear capitais, expressão do ministro do STF, Celso de Melo.

5 – A multinacional do leite foi embora – Mustafá Contursi tomou porrada porque rompeu o contrato – e deixou nos balanços do clube um lançamento de 100 milhões de investimentos. Antes fundaram um clube – Palmeiras S.A., que entrava no ativo e no passado com o valor de 100 milhões. Depois de muito tempo, o lançamento sumiu do balanço. O que fizeram do dinheiro? O dinheiro de investimento efetivamente aconteceu?

6 – Um dos participantes da parceria Parmalat-Palmeiras foi processado, condenado, mas não cumpriu pena porque a nossa Justiça é boazinha. O chefão do leite, Calisto Tanzi, foi preso na Itália porque o esquema funcionou em vários países.

Por tudo isso, a CPI do Ro-Ro precisa ir além do quintal da CBF. Investiguem os clubes e suas dívidas. Não custa nada. De repente, podem não descobrir nada e os cartolas ganham uma faixa de honestidade no peito.