Crônica: "Um conde no bloco da Macaca"
Campinas, SP, 24 (AFI) – De quinze em quinze dias, o jornalista Luiz Roberto Saviani Rey tem um espaço na parte de Opinião do Jornal Correio Popular. Nesta quarta-feira, Saviani, que é professor de jornalismo da Puc-Campinas, mestre em Comunicação e especialista em Teoria da Comunicação, publicou a crônica “Um conde no bloco da Macaca”. Abaixo, a história na íntegra.
“As aulas de sexta-feira à noite eram um saco! Mais de cem alunos concentravam-se do meio para o fundo da ampla sala cinco. O ruído era perturbador. Rapazes e garotas cotejavam o relógio a todo o tempo, ansiosos pelo término de tudo, para acorreram à Lagoa, onde a semana era encerrada com cerveja e samba. Os famosos “sambões” da década de 70.
No meio da sala, despejando teorias e conceitos, o professor parecia um ser extraído das salas dos tribunais, dos compartimentos forenses: calças pretas de tecido inglês reluzente, camisa alva de ferir os olhos, colete azul marinho aveludado e paletó azul com ombreiras e botões exageradamente dourados. A gravata, em tom pastel, era de seda pura. No peito atlético, uma comenda colorida e um símbolo nacional graúdo…Dizia-se Conde.
-Deve ser o Nado – dizia o Zé Luis Tavares.
-Qual Nado? – indagava o Dario, irônico.
-O Conde Nado… – retrucava o Zé.
Elegância e refinamento desfilavam pelas passarelas da sala de aula. O perfume caro e de fragrância vigorosa adejava as narinas e até provocava alergias. Trejeitos nobres e muita eloqüência tornavam a figura do professor uma estátua gélida e impávida. Parecia um ministro de Estado, afetado e majestoso. Falante, gestual, o mestre balançava-se de um lado para o outro, tentando adivinhar o que se passava à sua volta, sem perder o fio de sua retórica.
Os mexericos lá nos fundos o irritavam. Os olhos de águia, desconfiados, esquadrinhavam os movimentos mais imperceptíveis. Há semanas, o mestre chegava à boca do fundo com muita avidez. Parecia Sherlock à cata de um flagrante.
Corria à solta que um tal de Zé de Sorocaba vinha às sextas-feiras com um embornal cheio de uma certa erva, e que a distribuía com uma mão, como quem vende amendoim na porta do cinema, arrecadando com a outra a “erva” que custearia as despesas do bar.
O burburinho do “fundão” era mesmo de tirar a paciência. As conversas paralelas, os risinhos histéricos das garotas, as piadas de improviso punham os nervos do mestre à flor da pele.
Certa noite, prestes a dar o bote e pôr a mão na botija, o insigne professor foi interceptado agilmente por um “guardião do templo”, um dos alunos que vigiavam e impediam qualquer proximidade estranha com o Zé de Sorocaba. Ao pressentir o movimento célere do mestre, Dadão ergueu-se lépido e colocou seu corpanzil à frente do não menos portentoso Conde, disparando com aparente tranqüilidade.
-Ô Wellington! Diga aí: como é mesmo aquela coisa da Ética que você estava explicando?
Assustado, esquecido do que procurava, o mestre avermelhou-se num átimo. Sua voz de trovão troou por toda a sala e reverberou para os corredores:
-O quê? Wellington? Ficou louco? Moço, dobre a língua! O senhor me chame com a nobreza que eu represento! O senhor me chame de Professor Doutor Conde Wellington. Ouviu? Professor!…Doutor!…Conde!!!
A insolência do aluno e a reação do mestre foram suficientes para afastá-lo pelo resto do semestre do quarteirão dos fundos. Esqueceu-se de tudo, até mesmo o que parecia procurar. Nas aulas seguintes, mal humorado, interrompia a fala para protestar:
-Oras, eu sou Conde! Entenderam! Como não? Vocês me respeitem!
O ano passou e o Conde sumiu. Numa tarde de domingo do ano seguinte, a Ponte Preta tornou-se vice-campeã paulista e, mesmo sem conquistar o título máximo, sua torcida foi para as ruas festejar. Uma turba ensurdecedora tomou conta da Avenida Glicério, um festival alvinegro jamais visto na cidade. Milhares de pessoas uniformizadas acompanhavam um batuque digno da Marquês de Sapucaí.
Na calçada, observando a tudo, percebi, de repente, numa clareira entre os festeiros, nos paralelepípedos encardidos da avenida, um par de sandálias sujas, de tiras azuis esgarçadas. Nelas, uns pés cobertos de fuligem.
Erguendo os olhos, fui desvendando uma figura impávida e encardida: além das sandálias, uma bermuda esfarrapada, uma camiseta da Ponte manchada de molho e uma sórdida toca de lã, preta e branca, enterrada na testa. Nas mãos, um copo de cerveja espumante. Da boca embriagada, um sonoro: “Poooontee!!!”.
Parecia um pintor de paredes em fim de jornada, um ser da rua, bêbado e trôpego…Olhou para mim grave e sisudo. Ergueu o copo e fez um V de vitória meio torto, com a mão trêmula.
Eu, então, o olhei fixamente, contemplei a figura, espantado, e o cumprimentei, sorrindo, com a respeitabilidade que merecia.
-Olá! Há quanto tempo! Como vai o senhor, Professor…Doutor…Conde?…”





































































































































