Crônica: O Céu não pôde esperar
Havia uma crise no Céu. As tardes de domingo estavam enfadonhas demais e a comunidade celestial pedia futebol. Todos queriam futebol. Deus, então, reuniu todos os santos e algumas personalidades, na noite de segunda-feira passada, para resolver o problema.
“Não temos conseguido organizar o futebol aqui. Precisamos de alguém experiente, vitorioso, competente”, disse Deus, iniciando a explanação.
“Eu conheço alguém com esse perfil, mas essa tem de ser uma decisão tomada democraticamente e, por isso, quero a opinião de todos vocês”, explicou.
“Lá no interior de São Paulo, no Brasil, tem um homem que se consagrou como dirigente de futebol. Assumiu um clube que era profissional, mas tinha gestão semi-amadora. Esse clube tinha um time modesto, mas não tinha dinheiro nem títulos. Pois esse homem assumiu o clube na Terceira Divisão e, no ano seguinte, já estava na Segunda Divisão. Disputou até as finais. Daquela vez não ganhou, mas em três anos o clube foi campeão e passou a disputar a Primeira Divisão”.
Os santos e anjos ficaram boquiabertos.
Deus prosseguiu.
“Desde então, o clube só cresceu. O estádio tinha um gramado perfeito, mas uma arquibancada antiga e pequena. Ele reformou tudo, ampliou o estádio para 22 mil lugares, construiu novos vestiários, sala de musculação e uma concentração confortável, comprou imóveis para moradia dos jogadores, construiu dois centros de treinamento, modernizou a gestão, contratou fisiologista, dentista e nutricionista, ganhou o respeito dos torcedores e prestígio na Federação Paulista de Futebol”.
Todos ouviam com atenção.
“É claro que nesse caminho também houve alguns tropeços. O clube amargou dois rebaixamentos, mas deu a volta por cima. Este ano estava na Série A2, a Segunda Divisão, mas no sábado conseguiu voltar à elite”, contou Deus. “Ele até chorou de alegria”.
Alguns até aplaudiram.
Deus também contou que esse dirigente tinha revelado vários técnicos – Vadão, Nelsinho Baptista, Paulo Bonamigo, Adilson Batista e, agora, um jovem ex-atleta chamado Argel – e formado um time quase imbatível em 1992, só com jogadores até então desconhecidos.
“Esse time acabou apelidado de Carrossel Caipira. Tinha Válber, Leto e Rivaldo. Isso mesmo, o Rivaldo que depois foi campeão mundial em 2002 com a Seleção Brasileira”, lembrou Deus.
“O Senhor só pode estar falando do Wilson Barros, do Mogi Mirim Esporte Clube”, interrompeu São Paulo, sem conseguir esconder o entusiasmo.
“Ele mesmo”, respondeu Deus, elogiando os conhecimentos futebolísticos do santo.
“Quem gosta de futebol conhece Wilson Barros”, justificou São Paulo.
“O Wilson sempre diz que depois do Mogi Mirim, ele é São Paulo. Então eu também torço por ele”.
Deus sentiu que começava a ganhar o apoio da torcida. Mas precisava falar mais sobre sua escolha.
“Eu pensei nesse nome porque ele é muito competente como dirigente, mas também é uma grande figura humana. É um bom pai de família, ajuda os necessitados e é um amigo leal. Passou por duas enormes e dolorosas provações na vida e não esmoreceu. Pelo contrário: fortaleceu-se na fé e cresceu espiritualmente”.
Nesse momento, o Papa João Paulo II, que assistia a tudo ao lado de padre Carlos, pediu a palavra.
“Sou testemunha disso”, afirmou o Papa. “Ele tirou o próprio nome do estádio do clube para me homenagear. Querem maior prova de desprendimento e fé?”.
Lá no fundo, alguém pediu para se manifestar também.
“Nós conhecemos a capacidade do Wilson como dirigente”. Era Santo André, falando em nome dele, de São Caetano, de São Bento e de São José. “Só não temos inveja dele porque inveja é um dos sete pecados capitais”, brincou.
Mas aí surgiu a preocupação com o futuro do Mogi Mirim.
“Isso não é problema”, tranqüilizou Deus. “O Marquinhos pode tocar o clube. Ele tem o Henrique Stort para ajudá-lo. Os amigos do pai dele não vão deixá-lo sozinho”.
A voz divina, sempre serena, prosseguiu.
“O Wilson Barros já cumpriu sua missão. E podemos poupá-lo do sofrimento das três sessões semanais de hemodiálise. A família é muito unida e saberá assimilar. O Marquinhos, o Danilo e a Roberta, a Márcia e o Vinícius, a Leandra e o Rodrigo, o Zé e a Beth, o Fernando e a Maria Antonia, a Helô e o Pico, a Maria Irene e o Alberto vão confortar dona Maria Antonia e se fortalecerão mutuamente”.
Eram argumentos irrefutáveis. Tinha de ser ele.
Por volta da meia-noite Deus anunciou.
“Temos unanimidade; vou convocar o homem”.
E assim foi feito. A essa hora, Wilson Barros deve estar confabulando com o jornalista Brasil de Oliveira, organizando o clube celestial. Já deve estar tratando do contrato com o Mingau, com o Zé Ilton (outra revelação do Mogi Mirim que faleceu muito jovem em um acidente de ônibus), com Garrincha, Didi e tantos outros da constelação de craques à disposição.
Havia uma crise no Céu. Não há mais. Agora, há saudade na Terra.
* Esta crônica é uma homenagem ao grande amigo Wilson Barros, falecido na última segunda-feira, aos 63 anos.





































































































































