Crônica: Eu e a Copa

Copa é igual ao Carnaval. Só que dura mais.

Copa é igual ao Carnaval. Só que dura mais.

0002050002135 img

Todos que me conhecem, sabem que dentre minhas inúmeras paixões, o futebol ocupa a última posição. Não nutro pelo esporte bretão aquilo que tanto ufana a pátria de chuteiras. Na Copa do Mundo não é diferente. Não torço nem a favor nem contra a seleção canarinho. Trazendo ou não mais uma estrela para o distintivo verde amarelo, nada muda na minha vida e— penso – na do restante dos brasileiros, exceto alguns dias a mais de euforia dos mais fanáticos, sentimento perfeito para tornar mais dócil a massa de manobra de governantes inescrupulosos.

0002050002137 imgTerminado o tempo das competições, descontado aquele período passional da torcida, a vida continua igual no país do futebol. Pessoas continuarão morrendo sem atendimento nas macas improvisadas nos corredores dos prontos socorros; estudantes continuarão desaprendendo em nossas escolas e assediados por traficantes e pais de família, donas de casa e trabalhadores continuarão sendo massacrados por criminosos de colarinhos de quaisquer matizes.

Defensores da copa das copas podem até alegar que isso estaria acontecendo mesmo que o maior espetáculo da terra (sic) estivesse acontecendo na Europa ou Oriente Médio. O tratamento dispensado ao povo tupiniquim é o mesmo desde os tempos de Cabral, independente do país-sede da competição. É verdade, mas não é por que é verdadeiro, que é correto e deva permanecer inalterado por todos os tempos. Continuo insistindo que os trilhões de reais de dinheiro público desviados para a construção de estádios tão mirabolantes quanto inúteis; para os bolsos da corrupção, tão ávidos como insaciáveis e cofres da FIFA, tão corruptos quanto exploradores, poderiam ter sido aplicados na melhoria da vida de nosso povo.

Por tudo isso, a Copa não me empolga e nem atrai. O desencanto é maior quando pessoas ligadas ao meio esportivo e jornalistas de prestígio divulgam o resultado da final do torneio bem antes de ser dado o pontapé inicial do jogo de abertura. O Brasil – dizem eles – será hexacampeão não porque tem a melhor equipe e melhor tática, ou porque os adversários não são capazes de derrotar o escrete canarinho. O Brasil ganhará a copa porque assim o quer a poderosa FIFA com ajuda do endinheirado (e generoso com o dinheiro alheio) governo brasileiro. A vitória do time verde amarelo — imaginam eles — é o principal trunfo do governo para vencer as eleições deste ano, já que não há outro mérito para se apoiar. Os mentores da campanha eleitoral contam com a euforia tupiniquim para apaziguar o eleitor e, uma vez dócil, se esquecer das mazelas de um desgoverno corrupto e incompetente. Ora torcer (contra ou a favor ) pela seleção num cenário como esse é mesma coisa que ler um livro da Agatha Christie começando pelo epílogo. Onde vai a emoção se se conhece o final por antecipação?

Juro que um dia torcerei por nossa Seleção, quando dela fizerem parte os melhores hospitais, as melhores escolas públicas, a melhor polícia, os melhores governantes, legisladores e juízes. Estarei na fila do gargarejo, balançando bandeirinhas e beijando a camisa verde-amarela. Até lá, passarei os horários dos jogos buscando coisa melhor para fazer.