Copa e propaganda: cuidado! A vítima é você

Vamos ter que engolir coisas piores que o mestre Zagallo em nome do Mundial de Futebol

Parece que os magos da publicidade entendem que a Copa do Mundo tem o poder de, entre tantas coisas, nos idiotalizar de tal maneira que podemos ser capazes de comprar qualquer bobagem que venha com o carimbo “Copa do Mundo”.

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Fiquei três dias sem ligar a tevê. Uma rápida viagem a Minas Gerais para recarregar um pouco a pilha entre as cachoeiras e a natureza das montanhas. E como a paisagem da janela era deslumbrante, não me entusiasmei em me sentar na frente da tevê para ver o mesmo de sempre.

Mas chegando em casa no final do domingo, não resisti. Quis saber os resultados dos jogos de final de semana. Bastaram alguns minutos para me dar conta de um fenômeno que, sem a pausa dos dias, ficaria mais difícil de ver. Estão tentando me vender tudo em nome da Copa do Mundo.

Juro que não entendo muito a relação das coisas. Mas parece que os magos da publicidade entendem que a Copa do Mundo tem o poder de, entre tantas coisas, nos idiotalizar de tal maneira que poderemos ser capazes de comprar qualquer bobagem que venha com o carimbo “Copa do Mundo”.

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Senão, vejamos alaguns poucos exemplos.

A maior franquia de lanches fast-food do mundo ataca de todos os jeitos. Oferece “copos campeões” para quem consome em suas lojas. O que seriam “copos campeões”? Não me ocorre nenhum copo centroavante que tenha feito história, ainda que me ocorram alguns centroavantes que tenham alguma história malfadada com os copos. Também não me lembro de algum copo treinador que tenha criado um envolvente esquema de jogo capaz de surpreender os adversários em campo. Resumindo, não sei o que são copos campeões. Alguém me explica?

Mais que isso. A mesma rede de sanduíches quer levar nossos filhos para entrar de mãos dadas com os craques do mundo nos estádios. Você grava um vídeo com o guri, ou a guria, e envia para um tal site. Depois, fica três longos meses explicando para os pequenos que a chance de serem escolhido é muito, muito pequena. E fica com o coração apertado olhando o brilho no olho da criança, que em seu mundo de esperanças inocentes, tem certeza de que Deus não vai escolher outra pessoa. Frustração à vista… Mas com um longo prazo de espera. Acho quase uma tortura. Alguém me dá uma luz?

Uma rede de distribuição de combustível nos convida a marcar encontro em seus postos. “A torcida se encontra aqui!”. Como é que é? Dia de jogo, todo mundo veste sua camiseta verde e vai para…. o posto de gasolina? Han? Não tem lugar melhor para comemorar? Lá no meu tempo de guri a gente ia para a rua… Brincar, pular, comemorar as vitórias com uma inocência que hoje eu desconheço. Hoje vejo os bares lotados e as crianças dentro de casa, jogando videogames. Mas o que é que a gente vai fazer num posto de gasolina antes ou depois dos jogos? Alguém me explica?

Um banco “feito pra você” também entrou no “oba oba”. Promete “você na Copa do Mundo. Isso muda o jogo”. Não entendi a promessa. Vai me arranjar uma vaga no time do Felipão? Fui um zagueiro abaixo da média, reclamão e lento. Preferia sinceramente que o Felipão não me convocasse. Se eu já era ruim aos 17 anos, imagine agora aos 51! Não vou a esse banco para não correr o risco de realmente mudar o jogo, mas obviamente a favor do adversário. Ou será que o banco vai nos levar aos estádios e é isso que muda o jogo? Então não muda mesmo, porque os ingressos estão praticamente esgotados. E se for eu ou o vizinho, o barulho e a torcida vão ser iguais. O que é que muda, então? Quem se habilita a responder?

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Carro versão Copa do Mundo. Verde e amarelo? Me lembram os bons e resistentes fuscas e brasílias dos anos 70. Aí sim! Pelé, Tostão, Gérson, Jair, Clodoaldo, Carlos Alberto… Todos eles ganharam um desses valorosos automóveis dos militares pela conquista do Tri. Mas não acho que tenhamos um automóvel capaz de resgatar a elegância e a genialidade desses craques. E também não me agrada, daqui há dois anos, com as prestações na metade, ter que comprar um carro versão olímpica (com cinco rodas!!!). Quem quer assumir a dívida?

Cerveja que traz o futebol de volta para a casa. Dependendo da quantidade de cerveja que o tal futebol entornou, não vai sequer encontrar a casa. Aliás, essa dobradinha, de futebol com cerveja, costuma nunca dar certo. Atletas que gostam de entornar caem na desgraça. Com exceção do doutor Sócrates, para quem a loira gelada era uma extensão de sua emblemática personalidade. E mesmo virando algumas escondidas (e algumas sem esconder mesmo) foi um cracasso amado por todos. Mas, daí a entender que a cerveja está trazendo o futebol de volta para a casa… Não foi na Inglaterra que esse jogo foi inventado? Não é na Espanha que hoje ele é reinventado? É bem verdade que nosso futebol anda perdidinho da Silva. E seria bom que alguém o reencontrasse. Mas, logo uma cerveja? Seria uma boa idéia? (Opa… desculpa o trocadilho com a outra biritinha!).

Fique de olho, caro leitor. Você é o alvo. E vão tentar lhe enfiar goela abaixo um pouco de tudo. Viagens alucinógenas verde-amarelas, comidas campeãs (em colesterol ruim), bebidas exóticas emocionantes, automóveis PH Ganso (só funciona quando quer), preservativos com torcida para lhe dar uma força extra, um hino nacional sertanejo cantado em dupla pelo Luan Santana e Zagallo. Sei lá o que vamos ter que engolir…

Ah, o futebol… Aquele esporte praticado entre 22 jogadores divididos em dois times, cujo objetivo é colocar a bola na meta adversária (só para lembrar como é que funciona…) Talvez tenhamos um pouco disso também durante a Copa. Mas só Talvez.