Copa do Mundo, polêmica e as vacas do Dito

Como um evento esportivo pode se revestir de várias faces ao bel sabor do freguês

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A minha coluna anterior provocou uma boa polêmica, principalmente no Facebook, onde convido à leitura amigos e apaixonados por futebol.

Sinceramente, não tenho intenção de polemizar sobre qualquer assunto que seja. Mas entendo qualquer discussão, quando feita em alto nível, saudável e interessante. São os frutos da Democracia, sejam eles amargos ou doces. A discussão é salutar principalmente se existe entre os parlamentares alguma intenção de abrir mão de algumas de suas convicções, o que, claro, é muito raro.

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A primeira coisa que posso afirmar, diante dos comentários que povoaram minha publicação, é que nem todos estão envergonhados com a realização da Copa do Mundo de Futebol no Brasil. Há aqueles que, por suas razões e convicções, estão não só torcendo, mas apostando que o evento vai lograr total sucesso e deixar para o País um grande legado em várias áreas.

Esses se manifestaram veementemente, apontando, entre outros argumentos, a grande imprensa como a vilã do momento. Segundo alguns desses leitores e amigos, existe um escancarado, escandaloso e pernicioso jogo político, encampado por veículos como Globo, Veja, Folha de São Paulo e outros, procurando jogar lama no atual Governo Federal e promover candidatos da oposição na batalha que se trava pela Presidência da República.

Ou seja, existiria, na opinião desses amigos, uma campanha sistemática e intelectualmente organizada para promover a imagem de uma Copa do fracasso, da corrupção, de obras de infraestrutura superfaturadas e mal acabadas, ou sequer acabadas.

Existe também o grupo de leitores e amigos que querem fazer entender que nunca antes neste país houve tanta corrupção, desmando e um sentimento de frustração, não só em relação à Copa do Mundo, mas também em outras áreas de responsabilidade governamental. Para esses, essa Copa é sim uma vergonha nacional.

Esses dizem que os defensores da Copa fazem parte de um grupo que só olha para o próprio umbigo e apresenta argumentos apenas baseados nas fontes oficiais do próprio Governo. Fontes que, segundo eles, não são nada confiáveis e tentam mascarar uma realidade gritante.

Quanto a mim, não sei a verdade. Não tenho a verdade. E minha convicção é de que ninguém sabe e nem a tem. Nem os defensores da Copa, nem seus mais veementes críticos. Nem os defensores do Governo Federal, nem seus mais veementes críticos.

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Me entristece imaginar que, para que alguns estejam com toda razão, outros estejam servindo inocentemente a propósitos pouco dignos. E digo “inocentemente” porque sei da lisura, honestidade e boa intenção de cada um desses amigos divididos pelas suas ideologias. São pessoas bacanas, pais de família, amigos de longa data, irmãos. Não reconheço em suas intenções qualquer mesquinharia pessoal, qualquer tentativa ignóbil de puxar a sardinha apenas para agradar o próprio bucho. Manipulações podem ser muito sutis. E até eu mesmo, com este discurso conciliador, posso estar servindo de ferramenta a alguma vil ideologia que eu mesmo não esteja percebendo. Paciência.

Vejo que cada um tem sua própria verdade e não vai abrir mão dela nem a pau. A única coisa muito clara é que a Copa do Mundo do Brasil é mais que tudo, e antes de mais nada, uma ferramenta eleitoral, tanto para um lado como para o outro. Para o Governo, ela “precisa” dar certo, “precisa” ser um sucesso. Para os opositores, a Copa “precisa” fracassar, “precisa” ser vergonhosa e mostrar os desmandos do atual governo.

O campo do jogo é político. E a bola da vez é o nosso voto.

Mas não só.

Também é uma Copa da grana, muita grana. Tanta que se torna impossível mensurar. Grana das obras, grana que movimenta o comércio, grana de cambistas que – sabe-se lá Deus como! – conseguem revender ingresso de R$ 60,00, R$ 150,00, R$ 300,00 por R$ 1 mil, R$ 2 mil, R$ 3 mil. Ingressos que hipoteticamente foram sorteados entre torcedores que se cadastraram para isso.

É também a Copa das Redes Sociais, onde todo mundo pode botar a boca no trombone em tempo real. Tudo vai pro ventilador, sem censura prévia. Isso vai ser interessante de se ver.

Ah…. Também vai ter aquela coisa antiquada, um tanto folclórica, de uns caras correndo atrás de uma bola, e tentando empurrá-la para o gol adversário, enquanto se defendem para que o adversário não empurre a mesma bola para dentro de seu território… Como é que se chamava mesmo…?

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Comentei essas coisas com o Benedito, meu amigo que tem aqui no pasto umas oito vacas, e que me disse que quer mandar pro esgoto os ingressos que o filho comprou para um jogo desses da Copa. Falei sobre a polêmica que nossa conversa sobre a Copa despertou na minha coluna anterior, e de como cada grupo defende sua verdade com unhas e dentes. Contei sobre a turma que diz que é culpa da imprensa que se vendeu para o grupo que quer eleger o Aécio e do outro pessoal que quer mandar o Governo da Dilma pro ralo… Expliquei pra ele que todo mundo apresenta seus argumentos, fatos, estatísticas…

Dito cofiou a barba por uns cinco segundos, enquanto olhava direto pra mim. Então me disse:

– Tem uma vaca minha cagando mole. Melhor eu dar uma olhada na bichinha…

E foi cuidar da vida.