Conceição sequer pôde se despedir de seus ‘meninos’, jogadores de sua amada Ponte Preta
Morre a torcedora símbolo aos 81 anos de idade
Conceição sequer pôde se despedir de seus ‘meninos’, jogadores de sua amada Ponte Preta
Imaginem quem já se sacrificou viajando em porta-malas de um automóvel Opala, para assistir à uma partida da Ponte Preta em Bauru?
Imaginem quem, por volta de uma hora da madrugada de uma quinta-feira de 1980, sem o jantar, enganou o estômago com um pãozinho com manteiga, acompanhado de pingado (café com leite) na estação rodoviária de Marília, após derrota da Ponte Preta?


Imaginem quem esperava a chegada de representantes da arbitragem no portão correspondente do Estádio Moisés Lucarelli, para cobrá-los acintosamente sobre atuação decente?
Imaginem quem só faltava morder o alambrado quando o bandeirinha marcava impedimento inexistente do ataque pontepretano?
Imaginem quem fazia rifa pra se programar em viagens de jogos da Ponte Preta?
Imaginem quem um dia foi questionada pelo marido pra responder se prefere ele ou a Ponte Preta, e a destemida torcedora respondeu de boca cheia: Ponte Preta?
CLÍNICA DE REPOUSO
Não imagine mais. Aquela Maria Conceição Rodrigues que fazia coisas que até Deus duvidava foi embora deste planeta sem reconhecer absolutamente ninguém em clínica de repouso em Hortolândia, após um mês de internação no Hospital da PUC (Pontifícia Universidade Católica) – Campinas.
Conceição morreu pouco antes da meia-noite deste sábado aos 81 anos de idade.
Logo, esse texto com a devida atualização foi publicado em dezembro de 2013, antes do jogo decisivo da Ponte Preta contra o Lanús, na Argentina, pela final da Copa Sul-Americana.
À época Conceição já estava com a saúde debilitada por causa de um avc (acidente vascular cerebral), e acomodada em cadeira de rodas. Foram sequelas de 2010, que a privaram de habituais maluquices.
Na entrevista ela reviveu o filme do avc e com ele lembranças de como a sua vida havia mudado.
“Foi num final de tarde de sábado quando caí em frente à porta de minha casa. Desmaiei. Só fui saber aquilo que tinha acontecido comigo a cerca de cinco meses depois”, havia narrado.
PARALISAÇÃO
O lado direito do corpo de Conceição ficou paralisado, mas a cobrança para que a transportassem ao Estádio Moisés Lucarelli, para assistir à jogos da Ponte Preta, não foi negada. Assim, pôde presencialmente continuar a chamar os atletas de ‘meus meninos’.
“Veja como minha perna direita tá fininha. E hoje ela tá doendo”, havia apontado. Apesar disso, o andador lhe ajudava a se manter em pé por alguns segundos.
“Tenho fé em Deus que ainda vou voltar a andar. E vou ferver naquele campo da Ponte”.
Duas vezes por semana uma fisioterapeuta a visitava em sua residência no condomínio Sírios, na Vila Padre Manoel de Nóbrega, e colocava em práticas exercícios especializados.
– Mãeeee! Como é o nome da moça que trata de mim?
A mãe que carinhosamente Conceição citava era uma babá de nome Cida, que passava o dia todo com ela.
Assim, aquele 27 de novembro de 2013 havia amanhecido diferente para ela. O sonho de a sua Ponte Preta ser campeã havia se misturado ao medo de mais uma das incontáveis decepções desde que passou a acompanhá-la em 1954.
PELÉ E ROMÁRIO
Com o seu jeito original e singularidade como propagava o nome da Ponte Preta, Conceição passou a ser respeitada e admirada por jogadores de equipes adversárias, tanto que foi presenteada por Pelé e Romário com as respectivas camisas.
Aí, a fala é cortada pelo choro. A dor n’alma é intensa quando lembra que toda coleção de camisas ganhadas de jogadores da Ponte e dos outros clubes desapareceram durante o período de UTI e internação hospitalar.
De lembranças de brindes ou objetos alusivos à Ponte Preta restou apenas uma xícara de café, que gentilmente oferecia aos visitantes.





































































































































