Como um segredo, Óscar Tabárez evita falar sobre sua doença e se foca no Uruguai

Não é por causa das muletas ou das bengalas que Óscar Washington Tabárez é estimado

Com passos bambos, Óscar Tabárez percorre a linha lateral da Arena Ecaterimburgo, em Ecaterimburgo, na Rússia

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São Paulo, SP, 15 – Com passos bambos, Óscar Tabárez percorre a linha lateral da Arena Ecaterimburgo, em Ecaterimburgo, na Rússia. Na mão esquerda, uma bengala de metal sustenta todo o peso do corpo. A perna responsável por muitos desarmes na carreira do zagueiro dos anos 1970 hoje fica inerte e solta no ar. O técnico que fez o Uruguai se reerguer no futebol mundial caminha mal, pois sofre por causa de uma doença neurológica.

Nos jogos, são os membros de sua comissão técnica que correm de um lado para o outro para levar instruções. Resiliente, o senhor de 71 anos nunca se queixou de dor, mas fica sentadinho no banco. Óscar Tabárez está em um momento de bem-estar físico, como se a doença tivesse dado uma bandeira branca para que ele siga em sua quarta Copa do Mundo. Sua mão não treme na hora de segurar o microfone; ele fala pausadamente, não esquece as palavras. Só precisa de ajuda na hora de se levantar da cadeira.

Falar da doença do técnico virou heresia para os uruguaios. Questionado sobre seu estado de saúde, após a entrevista coletiva, ele disse secamente que estava bem. E matou a pergunta ali. A Associação de Futebol do Uruguai (AUF, na sigla em espanhol) também não quis comentar a situação do treinador. “É uma doença crônica. Está um pouco melhor e às vezes há certas oscilações. Deixo tudo nas mãos dos fisioterapeutas, com os médicos”, detalhou Óscar Tabárez em 2016.

Como um segredo, Óscar Tabárez evita falar sobre sua doença e se foca no Uruguai

Como um segredo, Óscar Tabárez evita falar sobre sua doença e se foca no Uruguai

Os momentos bravos da doença balançaram a nação inteira. Quando ele entrou de muletas no estádio Centenário, em Montevidéu, visivelmente debilitado e fragilizado, os uruguaios começaram a chorar nas arquibancadas. Isso aconteceu em um jogo contra o Equador, pelas Eliminatórias para Copa do Mundo de 2014, no Brasil.

Durante a Copa América Centenário, em 2016, nos Estados Unidos, Óscar Tabárez foi visto dirigindo treinos no comando de um carrinho elétrico, desses usados para retirar jogadores lesionados. Ia para lá e para cá driblando a sua própria limitação e a própria angústia.

Foi depois desse torneio e também pela eliminação vexatória diante da Venezuela que começou o zunzunzum de que ele deixaria a seleção de seu país. Novamente, a nação uruguaia se viu em prantos, pois não havia um substituto para Óscar Tabárez. A maré ruim passou e o técnico permaneceu.

Não é por causa das muletas ou das bengalas que Óscar Washington Tabárez é estimado. Isso já soma quatro décadas. Depois de ter sido um zagueiro de times medianos e abandonar a carreira por causa de dores no joelho no final dos anos 1970, ele virou professor de uma escola primária de Montevidéu. Mas o orçamento não fechava no fim do mês. Para equilibrar as contas, passou a ser professor e treinador. Metade do dia na sala; metade no campo. Em 1983, levou o time sub-20 do Uruguai ao título dos Jogos Pan-Americanos de Caracas, na Venezuela. Hoje, sua sala de aula é o campo. Conseguiu juntar os dois. E também a sala de imprensa. “A Copa é um momento de sonho para o torcedor, para todo o nosso país. Mas também é preciso estar preparado para fazer do sonho algo concreto. E estamos preparados para isso”, disse o senhor grisalho, com os óculos na ponta do nariz.

Quando ele fala, ninguém respira. Óscar Tabárez personifica o professor que a gente nunca esqueceu da infância. O mais espirituoso, o mais sábio, o mais legal. Foi daí que veio o apelido “Maestro”, mestre, em espanhol. “De todos os treinadores que eu já conheci, ele é o que melhor se expressa”, elogiou o ex-zagueiro Diego Lugano.

Óscar Tabárez tira o pó de um termo que está guardado nas prateleiras do mundo moderno: sábio. Aquele cara que merece ser ouvido, que leva sua doença para aonde for, que ensina. Mas o termo “Maestro” pode ser usado com seu sentido na língua portuguesa também. Tabárez coleciona resultados históricos, como o quarto lugar no Mundial da África do Sul, em 2010, e o título da Copa América de 2011, na Argentina. Mais que as taças, ele faz um processo de recolocar o Uruguai entre os grandes. Não criou nenhuma fórmula mágica: fortaleceu as categorias de base e procurou preencher as lacunas do futebol uruguaio, formando um time que saiba marcar, mas que também consiga lapidar uma boa jogada.

A vida do Maestro não é só de luzes. Sua aventura na Europa, comandando times como Cagliari e Oviedo, foi bem discreta. Seu maior feito foi ter chegado ao poderoso Milan, em 1996, mas ele não teve muito sucesso e acabou substituído após alguns meses pelo lendário Arrigo Sacchi. Uma relação extraconjugal, que se tornou um escândalo no Uruguai, também costuma ser colocada embaixo do tapete nas biografias autorizadas do senhor de 71 anos.

CONFUSÃO

Faltou explicar o que é essa doença. O problema de Óscar Tabárez é neurológico. É uma neuropatia crônica, muito parecida com a síndrome de Guillain-Barré. “É uma doença autoimune em que o sistema de defesa do nosso corpo começa a combater os nervos periféricos”, disse a neurologista Aline Turbino, membro da Sociedade Brasileira de Neurologia. Trata-se de uma espécie de confusão do sistema imunológico.

Paulo Olzon, clínico e infectologista da Unifesp, explica que os primeiros sintomas são a sensação de formigamento. “Com o tempo, aparece um quadro de diminuição de força. Os sintomas começam nos pés e podem chegar ao abdômen nos casos mais graves”, disse o especialista. “Mas ela costuma evoluir para a cura na maioria dos casos”.